<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017</id><updated>2011-10-10T06:57:37.186-07:00</updated><title type='text'>Literatura_Narrativa_Contos</title><subtitle type='html'>Este espaço é reservado às pessoas com olhares interessados em Literatura, aos tecedores de amigos e aos amantes da vida. Nele, escancaram-se o coração e a alma _do Médico-Escritor, Paulino Vergetti_ para receber seus amigos e visitantes. Alagoano, nascido em União dos Palmares, terra do poeta Jorge de Lima e de Maria Mariá, publicou trinta e duas Obras: romance, conto, crônica, poesia e ensaio. Médico Oncologista, casado, dois filhos, reside em Maceió, onde escreve sua Literatura.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>63</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-8355636318612295522</id><published>2007-11-27T15:52:00.000-08:00</published><updated>2007-11-27T16:02:30.945-08:00</updated><title type='text'>O navio grego</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0yv5U2kJCI/AAAAAAAAAhs/SJzslIkCXIg/s1600-h/h0080d.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5137674674307867682" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0yv5U2kJCI/AAAAAAAAAhs/SJzslIkCXIg/s320/h0080d.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;O meu ferro de passar era tão lindo... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Quebrou-se, Vanelda? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_E então, mulher... quebrou-se! &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Ainda foi das coisas do povo do navio? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_E então... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;Acho que não foi muito antes de 1960 quando o navio encalhou próximo à areia da praia, após chocar-se com os penedos do mar. Havia uma maré muito alta naquele bendito dia; enganosa maré de agosto quis que ele não prosseguisse rumo a nem sei onde. O navio era de bandeira grega. Estava lotado de alimentos e utensílios. A avaria que ele havia sofrido tinha conserto, sim. Apressaram-se alguns dos seus tripulantes e se comunicaram com o Recife. Poucos dias depois do acidente eles foram retirados do navio. As mercadorias, muitas delas, e a própria tripulação, também, foram retiradas do convés. Os homens seguiram viagem até a capital de Pernambuco. Lá haveriam de ser orientados. A vida é mesmo interessante. Eu estava no posto de saúde da cidade, quando um jovem, moreno claro, fala alegre, descontraído dirigiu-se a mim e começou a falar sobre a história de Japaratinga . Fiquei curioso para saber. Falou-me sobre a história do encalhe do navio grego e sobre a cidade. Disse-me que Japaratinga significava “Arco Grande”, nome dado pelos antigos índios que descobriram o lugar e, quando o avistaram, assim chamaram a ponta do mar que lhes pareceu com um grande arco côncavo. Explicativo, ele relatou com carinho quase tudo o que sabia dos dois. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Chamava-se Papanipolovo o navio. Era imenso. Nós, aqui em Japaratinga, nunca havíamos visto nada parecido com ele. Um navio bonito trazia consigo, em suas dependências, uma gente cantante e alegre, viva, mesmo! Disse-me aquele jovem que tudo o que me relatou realmente havia acontecido. Eu acreditei! É comum chegar nas casas dos habitantes da cidade e encontrar algum objeto ganho por algum de seus familiares, à época em que o navio encalhou. A tripulação foi muito generosa com o povo, presenteando-o fartamente. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Mamãe ainda possui um rádio grande, doutor. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Bonito? perguntei a ele. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Grande e colorido. Pega as rádios todas. Ela, após usá-lo, cobre-o com um pano limpo, flanelado, com todo o cuidado do mundo para que ele não sofra avarias. O senhor sabe, né..., essas coisas do estrangeiro, e principalmente gregas, devem ser de difícil conserto. Enquanto o jovem falava, eu acenava afirmativamente com a cabeça, como se quisesse consolidar seu discurso alegre, cheio de sua alma. Nem precisava muito puxar por sua memória. Parecia saber tudo de cor. Pareceu-me ser um contador de histórias nato. Era noitinha já, quando iniciou o seu relato histórico e cultural. Eu estava interessadíssimo na história. De repente o carro parou na porta do posto de saúde e eu o deixei sentado no banco grande da recepção e corri para atender a vítima. Infelizmente estava morta. Quando eu olhei para trás, meu olhar encontrou o olhar do jovem contador de histórias e enxergou nele lágrimas abundantes. Por que ele chorava? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Doutor, esse senhor era a única pessoa em Japaratinga que sabia tudo sobre o Papanipolovo. Que pena! Agora só resto eu... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Entendu então que a sua importância social aumentou? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Ainda não me caiu a fichinha, doutor. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;_Pois é! &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;Liberei o corpo após assinar o atestado de óbito e fui consolá-lo. Havia dentro de sua alma um outro navio triste encalhado, enlutado, necessitando de um forte abraço meu. Fi-lo também entristecido e levei-o até a porta principal do posto. Para minha alegria maior, encontrei, certo dia, acho que dois anos após a morte do senhor Olvidio, no posto de saúde, um livro do Ademário, na única banca de revista da cidade.Trazia no título: O Papanipolovo! Comprei-o, era o único exemplar à venda. O dono da banca me disse que, só quando vendia um exemplar, era que o autor trazia outro e repunha. Este conto eu o fiz para homenageá-lo. Não sei se algum dia ele o lerá. Se não, o farei por ele quando minha saudade descortinar a memória.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-8355636318612295522?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/8355636318612295522/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=8355636318612295522&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/8355636318612295522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/8355636318612295522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2007/11/o-navio-grego.html' title='O navio grego'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0yv5U2kJCI/AAAAAAAAAhs/SJzslIkCXIg/s72-c/h0080d.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-6168274393057790730</id><published>2007-11-27T15:41:00.000-08:00</published><updated>2007-11-27T15:51:50.347-08:00</updated><title type='text'>O aendedor dos lampiões</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0ytc02kJBI/AAAAAAAAAhk/__dPStGYMhc/s1600-h/128652l.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5137671985658340370" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0ytc02kJBI/AAAAAAAAAhk/__dPStGYMhc/s320/128652l.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Acendia os lampiões das ruas impreterivelmente às cinco. Um jovem de andar alegre, sempre trazendo às mãos acenos gentis para quem às portas estivesse; era o dito cujo que a essa hora os acendia e, emparelhado com o nascer do sol, os apagava. Um vai-e-vem rotineiro, manso e tão bonito.- E esse jovem, ó poeta, não serviria para encher teus versos?- Interessante...- Mais do que interessante não seria pô-lo no papel, entre teus versos?- Verei isso mais tarde.- Quando ele apagar os lampiões então!Uma chuva fininha, molhadora, típica de julho. De longe, a Praça Jorge de Lima era escondida por uma nuvem branca, serração fria e comum a essa época. O grito do apito do vigia noturno havia dormido. No bico da praça, três barracas velhas de tábua estavam sendo armadas. Nelas costumavam-se ver os montões de cocos secos e uma velha gorda batendo uma arruela de ferro no casco deles para verificar se estavam sadios – bom teste esse,conhecido pelos compradores mais comuns.Os lampiões continuavam acesos, e os raros transeuntes que cruzavam as ruas olhavam para eles e se admiravam por ainda não terem sido apagados. Cadê o jovem apagador de lampiões? A feira se arrumava, e os primeiros gritos dos vendedores eram ouvidos.- Quem vai querer perua gorda, pondo, lá das baixas da Fazenda Anuns?. Barata! Barata! Barata!- Pitomba doce! Jabuticaba. Vamos parando, fregueses; as frutas estão doces e sadias! Eita que tanto frio, meu Deus, Ave Maria! Vou virar um picolé já já!Eram seis da manhã, e os lampiões continuavam consumindo desnecessariamente seu combustível, o gás. Nada de ninguém chegar. O jovem deveria ter sido vitimado por alguma coisa. Morrera? Nunca se havia presenciado um atraso desse. Ele parecia saber ouvir o sol e, quando aquele espelhava-se no céu, o jovem esticava-se com a vara à mão para apagar os ditos cujos. Ofício sabido e tratado a bom gosto.E então eu resolvi sair à procura do acendedor dos lampiões de rua. Deixei-me ir meio à algazarra que à altura daquela manhã os feirantes e os transeuntes já teciam. Um lindo burburinho de leva-e-traz, entra-e-sai, e eu à procura do jovem acendedor de lampiões.Cruzei a Praça Jorge de Lima, segui pela pequenina rua à frente e deparei-me, na última casa, um bangalô de primeiro andar, com uma pequena multidão abismada.- Moço, o que se passa aí?- É um louco, parado no meio da rua, com uma vara comprida às mãos e olhando para a janela do primeiro andar desse bangalô. A casa onde viveu o poeta da Nega Fulô!E eu então pude tudo entender. O jovem, infatigavelmente, sonhava, ao olhar da rua a janela da casa do velho poeta do “Acendedor de Lampiões”. Curioso, dirigi-lhe a palavra:- Jovem, e os lampiões ainda acesos?- Senhor, se eu for apagá-los, os que aqui vejo, apagarão e os meus sonhos faltarão com eles, cairão na escuridão e eu, ah!. Lá está o poeta a declamar para mim. Não o vês?- Vejo, caro jovem. Ele agora está declamando o poema “Essa Nega Fulô”.- Ah, então, enquanto ele declama esse, dá tempo de eu ir apagar os lampiões que ainda estão acesos.E o moço foi levando seus sonhos. Eu adentrei em seu delírio e, juro, ouvi e vi o poeta declamar para mim o outro poema. Meus lampiões pareciam que estavam todos acesos, como aqueles outros lá da praça. E, quando algumas raras lágrimas tremeluziram em minha face, entendi que até os nossos sonhos contagiam as almas vizinhas às nossas, mas têm limites. Apaguei os meus e fui comprar nas ruas cheias de gente de União! Voltei a ouvir a doce algazarra da feira de sábado. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;_Feijão verde, quem vai querer.., sapoti, laranja-baía, fruta-pão, pimenta do reino, macaxeira...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-6168274393057790730?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/6168274393057790730/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=6168274393057790730&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/6168274393057790730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/6168274393057790730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2007/11/o-aendedor-dos-lampies.html' title='O aendedor dos lampiões'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/R0ytc02kJBI/AAAAAAAAAhk/__dPStGYMhc/s72-c/128652l.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-1382526065215726276</id><published>2007-02-21T12:11:00.000-08:00</published><updated>2007-02-21T12:39:59.378-08:00</updated><title type='text'>Surpresa ingrata</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyrDoIlVTI/AAAAAAAAAFc/dqAzRBizIiM/s1600-h/morte.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5034086562294748466" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyrDoIlVTI/AAAAAAAAAFc/dqAzRBizIiM/s320/morte.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#6666cc;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vim morar em Maceió, senti profundamente ter deixado para trás, longe daqui, lá para as bandas do sul, meu grande amigo Renan. Vim aceitando um convite da universidade para lecionar uma determinada matéria no curso de graduação em Psicologia.&lt;br /&gt;Chegando, a primeira pessoa que conheci fora justamente um dos professores da cadeira de psicologia, doutor Everton. Sujeito humilde, muito culto, solícito e que logo conseguiu ambientar-me no novo núcleo de amizades a que tive acesso.&lt;br /&gt;Renan e eu mantivemos um bom fluxo de correspondência. Certa vez, ele, de férias na Paraíba, ligou-me; era o finalizinho do ano e estávamos todos nos preparativos para o reveillon.&lt;br /&gt;_E aí, amigão, passaremos ou não a virada do ano juntos?&lt;br /&gt;_Eh ..., está em cima da hora....&lt;br /&gt;_Não senhor! Arrume tudo e venha. O hotel, nós dividiremos aqui. Veja aí papel que vou dar-lhe o endereço. É onde já estou hospedado. Aguardo você .&lt;br /&gt;Tive um problema de certa forma desagradável com meu amigo Everton. Ele queria ir comigo e eu, infelizmente, não o  pude levar. Era final de ano, família reunida, ele não conhecia Everton. E assim  eu fui sozinho. Tivemos uma boa estada na Paraíba e pudemos matar a saudade acumulada. Nossas famílias eram bastante unidas.&lt;br /&gt;Aproximadamente dois anos após essa data, recebi Renan em Maceió; já estava morando melhor e fiz questão de hospedá-lo. Aproveitei para apresentar a ele o outro amigo. Fizeram uma boa amizade. Passaram a corresponder-se também regularmente, como ele e eu. Estreitaram a amizade e entre nós três, agora, havia apenas uma trindade amiga.&lt;br /&gt;Ouvi Renan jogar muitos elogios a Everton. Sempre me dizia que ele era um sujeito muito bom, preparado para a vida, além de culto e um psiquiatra de mão cheia.&lt;br /&gt;Estive aqui em novo ninho de amizade e de convivência e iniciei a cata de outras novas amizades e não posso queixar-me das tantas que fiz. Minha amizade com Renan sempre arrumava motivos para se fortalecer ainda mais.&lt;br /&gt;Lembro-me de que era setembro quando recebi o telefonema. Soube que a mãe de Renan havia morrido e iria ser enterrada em Erechim. Providenciei passagem aérea, transferi compromissos e arrumei a mala de viagem. Lembrei-me de ligar para Everton e contar-lhe do acontecimento.&lt;br /&gt;_Se eu pudesse iria com você até o Rio Grande do Sul. Mas não posso. Diga-lhe dos meus sentimentos e que estarei catando um dia de folga para ir vê-lo. Iremos juntos.&lt;br /&gt;Estive com Renan entre lágrimas emergidas de profunda tristeza. Achei-o meio abatido,cor enxofrada, certo cansaço ao articular as palavras. Perguntei-lhe sobre sua saúde e não me acrescentou muita coisa.&lt;br /&gt;_Estou bem, amigo,apenas triste com o luto.&lt;br /&gt;Retornei dois dias após o enterro e prossegui com o laborão  diário. Convenci Everton de que deveríamos fazer, no final do ano, uma viagem de férias por uma semana até Erechim. Um mês depois de tudo acertado, recebi a  feliz notícia do próprio Everton de que ele estaria indo morar na cidade pernambucana de Bonito. Que bom! Gastaríamos menos tempo e  dinheiro para passarmos o reveillon com ele e sua família.&lt;br /&gt;Fomos de carro primeiro até Recife, onde nos hospedamos. Em vinte e nove de dezembro resolvemos que seria melhor se avisássemos a ele sobre nossa decisão. Não seria bom chegarmos nós, duas famílias, e encher sua casa. Como a cidade era pequena, temíamos que não houvesse hotel ou pousadas para nos abrigar.&lt;br /&gt;Pedi a ligação telefônica. Do outro lado, a linha nada de desocupar-se. Tentamos muito até que conseguimos falar.&lt;br /&gt;_Alô, é da residência do doutor Renan?&lt;br /&gt;_É! Quem fala?&lt;br /&gt;_Amigos dele.&lt;br /&gt;_Pode deixar o recado comigo que passarei à esposa dele.&lt;br /&gt;_Diga-lhe que é de Maceió. Chame-a!                  &lt;br /&gt;_Ela está sem poder atender ligações.&lt;br /&gt;_Quando lhe disser que é o Dilmar, atenderá.&lt;br /&gt;_Queira aguardar,senhor.&lt;br /&gt;Sua voz estava chorosa,sem a costumeira gargalhada de felicidade de quando falávamos ao telefone. Algo deveria ter-lhe acontecido. O quê?&lt;br /&gt;_Eveni?&lt;br /&gt;_Dilmar  querido!&lt;br /&gt;_Como vai?&lt;br /&gt;Senti-a mais triste ainda. Era estranho.Estava chorando, pude crer pelo barulho que fazia ao limpar o nariz e alguns soluços silenciosos que ouvi. Sentia alguma forte dor em sua alma.&lt;br /&gt;_O que houve, amiga? Estou indo até aí, passar o reveillon com vocês. Tudo bem ?&lt;br /&gt;_Enterrei Renan ontem. Vocês não sabiam?&lt;br /&gt;Postergamos o reveillon para alguma outra data, dessa vez no além, sem ventos ou tempestades, onde todos nós possamos estar reunidos em torno de uma grande amizade. Afinal, nem tudo costuma acontecer como nós queremos ou programamos. Restou-nos um final de ano enlutado, sem direito a qualquer lembrança alegre. Nosso amigo era uma jóia rara de achar-se. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-1382526065215726276?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/1382526065215726276/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=1382526065215726276&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/1382526065215726276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/1382526065215726276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2007/02/surpresa-ingrata.html' title='Surpresa ingrata'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyrDoIlVTI/AAAAAAAAAFc/dqAzRBizIiM/s72-c/morte.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-3748450176338651954</id><published>2007-02-21T11:51:00.000-08:00</published><updated>2007-02-21T12:10:54.010-08:00</updated><title type='text'>A toalha</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdynB4IlVSI/AAAAAAAAAFQ/OReZjfOewp8/s1600-h/table3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5034082134183466274" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdynB4IlVSI/AAAAAAAAAFQ/OReZjfOewp8/s320/table3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#993399;"&gt;&lt;strong&gt;A mesa estava pronta! Nunca havíamos estado tão distantes, antes, um do outro. O casamento, esse oceano enganoso de ilusões que se dizem sempre dulcíssimas, embaça-se e requer reconquistas. O fruto saboroso, quando apodrece, é além de amargo. Se não é posto sob a terra morna para germinar com as chuvas frias do inverno, acaba-se com o verão, ressecado, em imprestável secura solitária. As imagens podem infernizar o que não se quer lembrar mais. As cicatrizes ficam e são tão reais que podem reagudisar velhas dores esquecidas. Mas também sei que tudo pode passar como uma nuvem levada pela força do vento. Há amigos que nos sopram; há conversas que são ventanias..., até tempestades. Naquele momento, qualquer vento forte desarrumaria a bonita toalha portuguesa, tão velha quanto o nosso casamento.&lt;br /&gt;Uma toalha de linho puro. Flórida e bela com seus inúmeros desenhos portugueses. Galos encarnados, rendas avivando o tecido, uma obra de arte. Sempre foi guardada a sete chaves, pelo exagero de um zelo.&lt;br /&gt;Seu bordado requintado falava da extrema beleza da arte com que fora feita. No centro, um castelo medieval realçava um gramado desenhado ao seu redor. Cercando-a, em suas quatro pontas, os galináceos e os bicos de renda da Ilha da Madeira. Ela havia sido tecida lá. O linho bege era discreto, como se querendo deixar o azul e o vermelho e o verde dos desenhos outros se avolumarem ao nosso olhar.&lt;br /&gt;Casamos em dezembro. Seis meses antes, ela e eu estávamos à porta da casa de minha sogra, no interior do Estado, quando o vendedor passou arrastando a mala cinza, cheia de toalhas de mesa e forros de cama. Ofereceu-nos e ela recusou-se até a olhar sua mercadoria.&lt;br /&gt;–Não, filha, olhemos...&lt;br /&gt;–Essas coisas vendidas às portas, não são lá de boa qualidade&lt;br /&gt;–Mas não nos custa olhá-las.&lt;br /&gt;–Então as veja. Enquanto isso, vou lá dentro, apanhar um objeto que deixei no alpendre.&lt;br /&gt;Um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, fala mansa e compassada, arrastando um forte sotaque da ilha, abriu a mala. Ainda havia muita mercadoria a ser vendida.&lt;br /&gt;–Está ruim demais vender tudo isso por aqui. Ninguém conhece a qualidade do que vendo. Querem comprar quase que de graça. Não sabem o que é linho, quanto mais essas preciosidades feitas na ilha. Essas cousas vieram de além-mar, são peças portuguesas de valor conhecido por qualquer pessoa de bom gosto. Vês?&lt;br /&gt;–Sim, são belíssimas. Casaremos em dezembro.&lt;br /&gt;–Então não há hora melhor de comprar algumas delas!&lt;br /&gt;–Não temos lá tanto dinheiro.&lt;br /&gt;–E eu estou cá de passagem. Hoje será o meu último dia por aqui. Não posso dividir valores. Tudo o que vender terá que ser à vista!&lt;br /&gt;Encantei-me com todo o material exposto. Nem podia, mas comprei tudo. Teve que levar alguns cheques meus, dada a soma da compra ter sido alta. Meu problema agora era como dizer-lhe que havia me endividado, com a única intenção de presenteá-la com os lindos jogos de toalha, guardanapos originalíssimos, forros de cama que mais pareciam representar sonhos. Achei que o esforço era válido. Aquele presente lhe seria inesquecível através dos longos anos que pretendíamos viver casados. Quando eu pedia para que ela os usasse, sempre ouvia a desculpa de que numa ocasião de festa ela os usaria. E o tempo se encarregou de guardá-los. Nunca os vi enfeitando a mesa dos nossos jantares mesmo quando recebíamos visitantes ilustres. Permaneciam guardados e intocáveis no maleiro de um dos guarda-roupas em um dos quartos da casa. Por mais de uma semana, relembro, ela reclamou da compra. O vendedor português saiu meio entristecido. Além de ter ouvido dela que eu não devia ter comprado nada daquilo, sentiu que o preço oferecido por mim e aceito por ele, havia sido pequeno demais. Eu notara sua tristeza, mas havia comprado tudo. Lembro-me de que até a sua mala eu havia pedido que entrasse no negócio. Ele, sorrindo, negou o meu pedido e se despediu gentilmente, prometendo um dia voltar. Aquele moço de tez alva, face avermelhada, cabelos loiros e caídos sobre os ombros, nunca mais o vi. A imagem dele carregando a mala, agora vazia, leve, batendo em sua perna direita, essa ficou bem gravada. Andou até a esquina da rua quando, de um automóvel parado, parecia um táxi, saiu uma senhora de meia idade, ajeitando os cabelos, recebendo-o com certa apreensão. Ele pôs a mala no banco de trás do automóvel, pediu que a senhora fosse para o outro banco da frente e ele, ligando o motor do veículo, saiu com o vento. Foi para algum lugar para nunca mais voltar a vender-nos absolutamente nada.&lt;br /&gt;–Entra! Já comprasse essas porcarias todas, não foi?&lt;br /&gt;–São obras belíssimas, meu amor.&lt;br /&gt;–E dívidas horrorosas...&lt;br /&gt;Nem sei ao certo quanto tempo se passou desde aquela compra. Andamos com o tempo e a vida, amadurecemos para, só agora, descobrirmos que a história de uma vida possui capítulos indigestos e tristes.&lt;br /&gt;Na mesa, sobre a linda toalha portuguesa, apenas 4 cálices: dois de vinho e dois de água. Eram de tinto – pelo volume sabia! Quando fui convidado por ela a sentar-me à mesa é que fiquei sabendo que nossos rapazes haviam viajado para o interior. A empregada, dispensada. Só havia ela e eu, em casa. Talvez também estivesse entre nós, invisa, uma terceira alma onisciente.&lt;br /&gt;Senti um cheiro divino de bacalhau ao forno. O vinho que ela serviu era do Porto. A toalha, de terras afins – só os cristais falavam d’outro país. Convidado, sentei-me à cabeça. Como de costume, abri os guardanapos, pus sobre as pernas, desci as mãos às coxas e esperei que ela me servisse. Assim o fez. Em meu prato colocou uma porção generosa do peixe, o que não costumava fazer. Preocupava-se com minha saúde. Deitou o tinto no meu cálice e tragamos sem brindar. Eu desconfiei de alguma coisa, quando senti a ausência do brinde e o sea fácies trancado.&lt;br /&gt;–Essas toalhas, esses guardanapos estão e foram postos, como é do seu imenso gosto.&lt;br /&gt;–É..., eu sei...&lt;br /&gt;–Não os ama tanto, não é?&lt;br /&gt;–Você não?&lt;br /&gt;–Nem sei se gosto mais de mim!&lt;br /&gt;–Não ouse dizer uma coisa dessas. Nossa família é tão linda, nós te amamos tanto. Pensei...&lt;br /&gt;–O que pensou?&lt;br /&gt;–Que queria comemorar hoje algo especial...&lt;br /&gt;–E quero, sim!&lt;br /&gt;–Diz o quê!&lt;br /&gt;A alma minha congelou. Doeu-me o coração ouvir seu discurso forte. Não quis acreditar, mas tive que fazê-lo. Chegara ao fim uma linda história de amor. O pior de tudo isso é que nos amávamos muito. Tínhamos sonhos para enfrentarmos, juntos, uma velhice alegre. Reuníamo-nos em quase todos os fins de semana. Ela expulsou-me de casa após o jantar português. Não tive para onde ir, a não ser viajar até o interior e ir dormir na casa de minha sogra. Lá, contei-lhe tudo. Meus dois filhos estavam em casa dela. Choraram, mas desacreditando- me pelo que tinham ouvido de mim. Era uma sexta-feira. Cheguei na casa de minha sogra às duas da manhã. Ficaram espantados. Ninguém mais dormiu àquela noite. Acontecia um fato inusitado. Uma coisa estranha. Muito estranha.&lt;br /&gt;Passei a estudar a depressão. Não sabia que um mal pudesse ofertar tanto prejuízo a uma família feliz. A toalha da mesa foi a navalha do enforcamento. No sábado, às nove da manhã, é que ficamos sabendo da cena trágica. Não permiti que meus filhos vissem sua mãe pendurada e roxa. Ajudei a polícia a retirar o corpo pendurado.&lt;br /&gt;Desde esse dia que, de vez em quando, quando estou lendo ou refletindo, vejo o vendedor de toalhas passar à minha frente. Ouço as reclamações de Lívia. O sabor do bacalhau, não o sinto mais; na lembrança – o peixe se fez carne, e a carne se fez verbo, um verbo que não se calou nunca mais! As duas carnes eram iguais em minha memória. Nunca mais traguei vinho algum, meus filhos vivem e trabalham em Lisboa. É comum passearem pela Ilha da Madeira. Adulam-me para estar com eles. Não aceitei ainda o seu convite porque o vendedor português ainda não saiu de vez da minha porta. A toalha? Durmo e acordo com ela todas as noites. Nunca deixei que a lavassem, para que esta história não se apague de tudo...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-3748450176338651954?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/3748450176338651954/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=3748450176338651954&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/3748450176338651954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/3748450176338651954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2007/02/toalha.html' title='A toalha'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdynB4IlVSI/AAAAAAAAAFQ/OReZjfOewp8/s72-c/table3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-153566910629898803</id><published>2007-02-21T11:40:00.000-08:00</published><updated>2007-02-21T11:46:23.059-08:00</updated><title type='text'>A gata da velha!</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyhYIIlVRI/AAAAAAAAAFE/nKyLcQ6M6bw/s1600-h/ilha+do+conto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5034075919365788946" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyhYIIlVRI/AAAAAAAAAFE/nKyLcQ6M6bw/s320/ilha+do+conto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#006600;"&gt;&lt;strong&gt;“A revoada dos pardais deixou a praça suja, inteiramente suja. Os bancos estavam imprestáveis para que alguns, neles, se sentassem. O folharal seco misturava-se sem fim, soprado pelo vento nem tão manso, nem tão bravio. A cidadela era esquecida por sua própria natureza física – uma pequenina ilha afastada do continente por meia hora de uma voadeira. Seus habitantes, nem índios, nem mestiços. Um grupo de homens descendentes de europeus. Seus antepassados habitaram a Freguesia do Rio, há muitas décadas atrás. O lugar, hoje, era apenas o celeiro de lembranças nem tão boas, de quem por ali já havia existido.&lt;br /&gt;A madeireira, do outro lado do rio, não havia dado certo. Os motores movidos a diesel encareciam muito. A energia elétrica ainda era um sonho distante. A cidadela dormia com as galinhas. A última voadeira trazia os poucos jovens que estudavam em Portolândia.&lt;br /&gt;Na janelinha da casa da velha Aurora, tudo passava com o tempo, mas não sua curiosidade quase atrevida. Olhava tudo, enxergava o que mais lhe interessava. Morava sozinha no casarão antigo e tinha pavor de andar de barco. Por isso, não acompanhava a evolução fora da ilha. A curiosidade e seu terço, além da gata Mimi, eram suas companhias inarredáveis.&lt;br /&gt;No último dia do ano, quando os fogos de Portolândia pipocavam no céu, pouca gente estava na pracinha da ilha. Dona Aurora brechava pela janela quase fechada. O irmão do padeiro atravessou a rua larga, apanhou umas folhas secas caídas no chão, limpou alguma coisa nas mãos. Olhou para o lado dos poucos que bebiam cerveja na areia do rio, onde as voadeiras atracavam e andou na direção contrária. A velha abriu mais um pouco a janela . Mimi gritou. Dona Aurora havia pisado na cauda da siamesa. O grito alto da gata fez o homem assustar-se. Ao invés de seguir, retornou pela calçada. Ele sabia quem poderia estar a essas horas vasculhando o movimento da rua. Só a velha possuía gatos: Mimi e outros mais que só chegavam em casa para comer e dormir. Passavam o dia a catar os peixinhos que caíam das redes de arrasto que os pescadores traziam do rio.&lt;br /&gt;–É de lá essa zoada. É Aurora! A peste me viu! E agora?&lt;br /&gt;Ele ainda ouviu o batido da janela. Ela nem sabia que ele estava vindo vê-la, receoso de que falasse a alguém que o tinha visto, na ilha, àquela hora. Se Joaquim padeiro soubesse, o mataria primeiro&lt;br /&gt;–Dona Aurora?&lt;br /&gt;Demorou mais de dez minutos para que a velha lhe respondesse. Não queria ser notada.&lt;br /&gt;–Quem é a essa hora?&lt;br /&gt;–Abra a janela que verá!&lt;br /&gt;–Deus me livre. Não estou esperando nenhuma visita!&lt;br /&gt;–A senhora me viu. Não vai dizer ao meu irmão que estive aqui, não é mesmo? Não tá louca!&lt;br /&gt;–O que é que eu ganharia com isso?&lt;br /&gt;E a velha resolveu abrir a janela. Não encontraria novidade do lado de fora da casa.&lt;br /&gt;–Venceslau?&lt;br /&gt;–Fale baixo, o vizinho de cá pode ouvir.&lt;br /&gt;–Tá no mar, ele, faz três dias. Atravessou o rio na segunda-feira.&lt;br /&gt;–Foram todos?&lt;br /&gt;–Não ficou ninguém.&lt;br /&gt;–Então, qualquer coisa, eu pulo o seu muro e durmo no alpendre de trás da casa deles.&lt;br /&gt;–Está maluco? Ainda fala uma coisa dessas? Não aprendeu ainda? Diacho de vadiação!&lt;br /&gt;–Vontade muita de vê-la, dona Aurora!&lt;br /&gt;–Você devia era ter vergonha na cara, esquecer sua cunhada e procurar uma mulher solteira pra casar!&lt;br /&gt;–Quem? Tentei tanto...&lt;br /&gt;–Não falta sapato velho pra pé novo!&lt;br /&gt;–Dona Aurora?&lt;br /&gt;Era a pequenina frase que faltava. A noite barulhou muito. Houve mais gente na ilha àquela noite. O padeiro aderiu com sua amada à pequena zoada que alguns fizeram até quase a madrugada, ao lado do pequeno cais. Venceslau dormiu na sala, em um colchão que lhe ajeitou dona Aurora. Deu trabalho para ele deixar a casa da velha e correr até a voadeira deixada escondida na ilhota do meio do rio. Esse exercício de perigo se repetiu muitas vezes.&lt;br /&gt;Repetidamente Venceslau driblava os olhos dos moradores na escuridão da noite. A nado vinha da ilhota, trazendo a roupa ensacada para não se molhar. Na areia do rio, sob umas amendoeiras altas, vestia a enxuta e deixava o calção molhado espremido, enxugando.&lt;br /&gt;–Já chegou, né? Entre logo! Teu irmão quase mata tua cunhada com uma surra!&lt;br /&gt;–Quando foi isso?&lt;br /&gt;–Ontem pela madrugada. Aquele cabeça dura jurou que você tinha visitado Sílvia ontem.&lt;br /&gt;–Apanhou a inocente!&lt;br /&gt;–Inocente? Ele só errou o dia em que pecou pela última vez. O resto, não! Foi bem merecido.&lt;br /&gt;Sílvia não agüentara tanto sofrimento. Fugira. A casa da velha, antes acolhendo apenas felinos inquilinos, agora era quase um prostíbulo. Venceslau que amava Silvia, amou Aurora e Mimi. Esta última passou a ser-lhe a preferida. Aos olhares espantados das duas, ele se divertia com a gata. Quando escurecia na ilha, o casarão desbotado não tinha mais a sua janela aberta alimentando a curiosidade da velha. Pela manhã, logo cedo, ela era a única que se levantava e ia comprar leite, pão e ovos. Venceslau detestava peixe.&lt;br /&gt;Certo dia a velha adoeceu gravemente. Necessitava ser levada para Portolândia. A voadeira na ilhota poderia até servir, mas como levar a velha? Sílvia não podia mostrar nem seu sopro de vida. O padeiro a mataria sem piedade&lt;br /&gt;Ele vestiu-se com a roupa da nova e levou a velha na escuridão do tempo. Deixou-a à beira do rio. Nadou para trazer o barco, desta vez, até a beira da areia mesmo, do lado de cá da ilhota. Foi!&lt;br /&gt;–Que velha cachaceira, essa dona Aurora. Vê só o porre que tomou no que deu! Foi o que pensaram as duas almas que passaram a seus pés, talvez em direção ao cais. Nem imaginaram a verdade que estava ali, caída, esperando o socorro alheio.&lt;br /&gt;A coitada nem os olhos abria mais. Tudo deu certo. Ele levou-a cidade grande. Teve que demorar. Quase perdeu a perna esquerda, ao encostá-la no motor do barco. Ficaram os dois internados no mesmo pronto-socorro. A casa ficara para trás com a outra.&lt;br /&gt;–Dona Aurora?&lt;br /&gt;Sílvia não podia responder. Era o padeiro que queria dar-lhe um recado para que ela repassasse aos pescadores, seus vizinhos. Sílvia vestiu-se com a roupa da velha e meteu pó nos cabelos pretos, amarrando-os com um lenço para se parecer com a outra. Abriu a porta somente com dois dedinhos de distância uma falha da outra.&lt;br /&gt;–Que quem?&lt;br /&gt;Foi imediatamente reconhecida por ele, que forçou a porta e entrou.&lt;br /&gt;–Dona Aurora está cheirando a pó!&lt;br /&gt;–Cuide em deixar a casa – falou ela com a voz embargada e trêmula.&lt;br /&gt;Foi muito o amor que fizeram. Ele dormiu com a falsa velha, sem deixar que ele tirasse as roupas da falsa Aurora. Muito amor fizeram. Enquanto durou a ausência dos outros, eles ficaram usando suas máscaras para conservarem o amor, que nunca havia acabado entre eles. Representaram muito bem, encenando a chance que seus desejos tiveram.&lt;br /&gt;À porta, alguém toca!&lt;br /&gt;–Quem será?&lt;br /&gt;–Olha lá, Aurora!&lt;br /&gt;–Que Aurora, que nada!&lt;br /&gt;Ele sorriu. Deixou-a ir até à porta.&lt;br /&gt;–Você com minha roupa nova? Quem lhe permitiu usá-la?&lt;br /&gt;Entraram os dois, sãos e alegres. A primeira pessoa que Venceslau avistou, sentado no sofá velho da sala, foi ele. Empalideceu e desmaiou de medo. Que medo!&lt;br /&gt;–Eu não tenho culpa de nada – disse a velha!&lt;br /&gt;O padeiro correu a socorrer o irmão. Os ânimos se acalmaram, eles estiveram a se encontrar por meses, anos, talvez. A velha amou o padeiro, que amou Mimi, que amava Venceslau e que abandonou Aurora.”&lt;br /&gt;–É por isso que, se você resolver ir morar lá naquela porcaria daquela ilha, eu não vou! Essa história é verdadeira mesmo. Todo mundo que mora lá, fica com fama de safado. Não vou não!&lt;br /&gt;–E a empresa, o que direi para meus diretores?&lt;br /&gt;Mande eles morarem lá por você.&lt;br /&gt;Havia uma lenda, na ilha, com muitos adeptos. Gato, ninguém queria criar. O padeiro, coitado, não saía de casa nem para ir à missa. Era prisioneiro dele mesmo. A casa velha que diziam, no passado, ter abrigado a velha Aurora, tinha apenas ratos e morcegos por inquilinos. A ilha só não era mais solitária por causa da força da lenda.&lt;br /&gt;Na pracinha, o folharal continuava abundante. O vento nem manso, nem bravio misturava umas às outras. Os pardais ajuntavam-se e sujavam os bancos da praça. O tempo adora a ilha, não passa nunca! Qualquer hora dessas eu vou chamar uma meia dúzia de leitores meus e vou até lá. Não irei como escritor. Travestir-me-ei de leitor, para saber bem mais dessa lenda. Irei numa voadeira sem combustível!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-153566910629898803?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/153566910629898803/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=153566910629898803&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/153566910629898803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/153566910629898803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2007/02/gata-da-velha.html' title='A gata da velha!'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZqBPCGYhXcI/RdyhYIIlVRI/AAAAAAAAAFE/nKyLcQ6M6bw/s72-c/ilha+do+conto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614493724265613</id><published>2006-12-14T17:00:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T17:08:57.246-08:00</updated><title type='text'>Era apenas um filme...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/168317/velha3.gif"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/487905/velha3.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#6600cc;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Uma língua gorda enroscava-se nos cantos da boca da mulher. As palavras lhe saíam indecifráveis. Entre uma e outra delas, a velha expulsava da boca sementes sei lá de quê. A fruta ignorada parecia-lhe ácida demais. Sua face mugangava como se gostasse desgostando do que comia. O crescente que essa imagem humana ia fazendo, chamava uma pequena multidão para ouvi-la, mesmo que não entendesse seu discurso. Agônica criatura queria fazer-se clara ante os ouvidos alheios. Esforçava-se para isso.&lt;br /&gt;     Na geografia do cenário onde apelava incompreendidamente, bem no centro do círculo onde punha seu corpo para clamar, havia um grande caixão preto, fechado, amarrado por duas cordas grossas e de cores diferentes. Algo havia nele. Ela batia-o com uma pequena vara que tinha entre os dedos. Gritava, pulava, chorava, sorria. Havia ali uma velha mulher atônita a tentar expulsar emoções abafadas. Um interessante episódio que bem podia ser chamado teatral.&lt;br /&gt;     Um senhor robusto, bem vestido em alvíssimo linho branco, dirigiu-lhe a palavra. A velha calou-se por segundos, estirou o braço direito na direção do moço como se quisesse mostrar-lhe algo no seu chapéu ou o mesmo. Seu gesto evadiu-se desentendido.&lt;br /&gt;_A senhora o que vê neste chapéu?&lt;br /&gt;A velha, sem lhe responder, continuou a enroscar a língua, sem querer deixar cair o resto das sementes da fruta e um pedaço de fumo de rolo que mascava satisfeita.&lt;br /&gt;Outros se achegaram a ela. O caixão preto semelhante a um féretro continuava se aquecendo com o sol cáustico de perto do meio-dia. A tabica chegava até ele com a força da ira da mão direita da velha.&lt;br /&gt;_Dona moça, o que quer nos dizer?&lt;br /&gt;O padre tentou decifrar seu desejo: chegar perto dela. Sendo empurrado com força, desistiu. Riu-se e saiu dali para não mais voltar. O círculo de gente curiosa crescia assustadoramente. Quem estava nos seus confins já não mais ouvia os gritos daquele ser estranho.&lt;br /&gt;Quando já passava das duas da tarde, tendo ela suas vestes  estranhas ensopadas de suor, um cheiro forte saído de suas axilas, olhou para o caixão, ajoelhou-se ao seu lado, pondo as mãos na corda mais escura e fez sinal para desatar o nó cego de há muito feito. Soltou a tabica no chão, limpou as mãos no tecido da saia, olhou para os quatro cantos da praça e decidiu desatá-lo. Decidira manifestar publicamente o seu maior segredo.&lt;br /&gt;Uma tempestade caiu sobre a praça. Os pingos frios da chuva súbita de verão dissiparam a multidão que até há pouco cercava interessada a velha misteriosa, tentando decifrar o que havia no caixão preto deitado no chão já escaldante da praça.&lt;br /&gt;Abriu-se a urna preta. Demorou mais que dez minutos até que a velha desatasse os nós da corda que a envolvia.&lt;br /&gt;Viram-se vários embrulhos de papel-jornal. Mais de uma dúzia deles. Bem amarrados com cordões vermelhos como se pertencesse a uma seqüência o que continham os pacotes obscuros.&lt;br /&gt;_Tá  aí, veja quem quiser. Homem safado merece isso mesmo. Belzebu deve estar com Damião nas profundezas do inferno. Eu estou aqui na praça mostrando sua história. Sou uma mulher viva e ele um garanhão morto.&lt;br /&gt;Dentro dos pacotes, velhas fotos do dia de seu casamento, cartas amorosas trocadas por ambos, além da navalha suja de sangue e, por fim, no último pacote do caixão, os órgãos genitais decepados do marido de Maria Juliana.&lt;br /&gt;Saí da sala de projeção do cinema São Luiz como se houvesse visto realmente a velha maluca algum dia no calçadão da Rua do Comércio. A direção e o elenco do filme trabalharam tão bem que nos deixaram com a ficção, pelas ruas, de volta para casa, como se nossa verdade cotidiana o fosse. Que filme!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614493724265613?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614493724265613/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614493724265613&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614493724265613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614493724265613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/era-apenas-um-filme.html' title='Era apenas um filme...'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614441901048899</id><published>2006-12-14T16:48:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T17:00:19.033-08:00</updated><title type='text'>A Academia</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/205248/escriba.gif"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/727294/escriba.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;_Ele ia a todas as reuniões. Manso de espírito. Aprendera a tecer enredos envolventes que prendiam os leitores. Colecionava prêmios literários – a leitura ocupava-lhe as noites de insônia tão constantes em sua vida.&lt;br /&gt;Saulo, o acadêmico,  se adonou das boas letras e fez sucesso. Apesar de barulheiro em suas fábulas, soube viver a simplicidade. Censor de si mesmo, aprendeu a errar pouco porque trabalhava letra por letra, palavra por palavra.&lt;br /&gt;Findas as palavras do acadêmico decano, estalaram os aplausos no salão nobre. Meia dúzia de acadêmicos brigava com a gravidade para se levantar de suas poltronas. A Academia havia envelhecido bastante.&lt;br /&gt;O vento adormecedor da morte o havia feito partir. Adonde sua alma fora, não se sabia ao certo. A aferventação do prenúncio sucessório entre os bocejos das mesmas bocas falantes já era uma realidade. A Academia preencheria a vaga da cadeira de número treze em no máximo noventa dias. Era a regra vigente.&lt;br /&gt;Anojosos pares falavam demais. Velhos desdiziam dos companheiros. Entre eles um pesadelo assíncrono nos corredores da Academia. O brilho de poucos atormentava a maioria absoluta. O venerado líder, acadêmico Hosbil, plantara Narciso diante de seus olhos. Era cenoso seu mise-en-scene diante do palco onde trabalhava. Sobre sua cabeça, ao invés dos louros da fama, agia a coifa do repreensível. Velhos gladiavam contra velhos. A fama era a seiva de seus comportamentos.&lt;br /&gt;Ainda estavam no vento do velório do da treze, e a força da sucessão era mais forte que o respeito ao morto. Nos bastidores a urdidura de uma vontade diferente. Falava-se bastante da reunião da presidência para a análise dos nomes dos novos inscritos e de quem deveria ser convidado para preencher a cadeira vaga. A pré-reunião acontecia nas trocas de telefonemas e nas conversas nos corredores do prédio.&lt;br /&gt;Um velho guardião do prédio, seu Vicêncio, a quem a  cifose havia posto uma túnica ao corpo,  morava nos fundos. Cadeira por cadeira ele as limpava. Passeava entre elas confabulando com as almas dos que se haviam ido. Sorria, talvez lembrando-se de cousas acontecidas. Algumas delas lhe punham na lembrança azedumes desinteressantes e ele as maldizia mudando seu humor.&lt;br /&gt;_O presidente chegou, Vicêncio?&lt;br /&gt;_Ainda não, acadêmico Ivo. Não deverá tardar.&lt;br /&gt;O acadêmico deixou o recinto. Demorou muito para vencer as poucas dezenas de metros até a sala principal. Foi-se, arrastando os pés antigos, seguidores nonagenários das letras. Homem de humor instável em dias diversos. Possuía almas diferentes para dias desiguais. Sonhava em ser o presidente da Academia de Letras onde já se assentava como acadêmico há anos.&lt;br /&gt;Um era cômplice do outro? Nada. Dizia-se nos extramuros acadêmicos que, quando numa roda de três, dela um saía, quem ficasse se encarregaria de maldizer o que se fora. Em se voltando aquele para o mesmo conjunto de antes, era bendito e ouvia elogios encorajadores dos outros dois. Dar as costas nessas ocasiões era muito perverso.&lt;br /&gt;Quando o presidente Hosbil chegou, acercaram-se dele e a reunião não demorou a acontecer. Falariam das novas inscrições para a vaga cadeira treze, seus pretensos candidatos e quais as manobras a  adotar-se contra os candidatos indigestos. A começar pela estatura, não escondia sua imponência. Muito alto, era um mulato forte. Admirava-se como orador que caçava as palavras pouco traduzíveis pelos mortais. Gostava de centrar sobre si as atenções alheias. Vigoroso em suas decisões, não voltava atrás. Inimigo odioso e amigo censor, exigia respeito e obediência dos seus pares, como se fosse ele o maior dos opressores vivos.&lt;br /&gt;_Está ainda vaga a cadeira treze. Quem poremos nela? A nossa porta deverá continuar estreita. Esta casa é nossa. Para ela não poderá vir o inimigo. A cidade está a falar dessa sucessão. Temos um papel decisivo. Importa-nos quem se inscreveu até hoje. Parece ser verdade que o doutor Everaldo o fez. Vejamos esse relatório que acabou de me passar a secretária. Ele está entre esses outros dois. Não vai ganhar. É um homem inculto, de difícil convivência. Pouco me importa se rico ele o é. Não sentará na treze. Não deixaremos jamais.&lt;br /&gt;Entre uma salva de palmas, o acadêmico Ivo falou:&lt;br /&gt;_É rico ele, confrade presidente?&lt;br /&gt;_Não é moral que o senhor me faça, justamente agora, essa pergunta tão infeliz. Quer seu dinheiro, confrade?&lt;br /&gt;_Absolutamente, presidente. Apenas perguntei mergulhado em certa curiosidade.&lt;br /&gt;_Não achei graça na pergunta e não me importarei em respondê-la. Estamos aqui para falarmos de cousas mais sérias. Aprecie outros valores.&lt;br /&gt;A reunião acordou seus membros. Um clima bem morno, quase quente, eriçou as idéias da maioria. A sucessão prometia alimentar verdadeira batalha literária. Os interesses da Academia deveriam ser defendidos a todo custo.&lt;br /&gt;Entre seus quarenta membros apenas três eram do sexo feminino. Um esmagador preconceito pouco notado por elas. Tinham vozes débeis. Uma, velha professora aposentada de literatura, outra a esposa de um ex-governador que havia doado à Academia, no seu mandato, uma pequena fortuna retirada dos cofres estaduais, a última uma velha decrépita que nem mais lia. Essa plumagem financeira também regia as eleições da Academia. Prestígio político, fama, dinheiro etc, tudo isso dava votos sólidos e decisivos. O pleito tinha a cor do presidente que a tudo impunha sua força mais do que narcísica, já megalomaníaca, talvez.&lt;br /&gt;A idade azumbra o corpo. As idéias resistem um pouco mais. Quando um homem pára de sonhar, não mais existe. A vida fica barreada dentro do corpo, e a alma circunvoa atocalhando a eternidade. Eles, sua maioria, prestacionavam seus votos redesenhando o quadro sucessório. O ufanismo sentava-se na cadeira antes mesmo de seu dono. A inobediência só era permitida a poucos que só se atreviam a fazê-la dado o voto ser sigiloso. O senhor presidente era guindado às alturas para anunciar sua vontade que dizia ser a da velha Academia de Letras. Noticiavam quem poderia vencer. Farpeavam quem queria vencer. Folegando-se, iam à luta no horizonte da vontade presidencial. Narcizo, o velho narcizo, urrava como leão refordilado. Um forte redemoinho angustiado pelos espinhos dos desejos de alheias literaturas provocava-o inconscientemente. Mas era necessário ocupar-se todas as cadeiras. Era desse rearrumar-se que vivia ela, passiva a tudo. Nem ela era imortal, visto que o tempo já abocanhava suas paredes, reafirmando silencioso que nada resiste a ele para sempre. Era assim. Volviam-se as idéias das idéias. Havia um susto no ar rarefeito do salão quase nobre da velha Academia cheia de mortais traquinas.&lt;br /&gt;_Daqui a alguns dias quase a metade de nós não poderá vir votar. A Academia está envelhecendo rapidamente. É-se necessário sangue novo. Até eu, como seu presidente, sinto-me assim. Devemos saber quem convidar para nosso convívio. Não devemos nem podemos alimentar lobos e serpentes para se aninharem entre nós. As letras depois. Primeiro os homens!&lt;br /&gt;_Senhor presidente, que tal votarmos no escritor Saulo Vermelho?&lt;br /&gt;_Nunca! Esse homenzinho não escreve nada, apenas suja as folhas.&lt;br /&gt;_Mas continua a vender uma estupidez de livros mundo afora.&lt;br /&gt;_Você agora o disse certo: estupidez. Não só a venda desses folhetins de sua lavra, como, antes deles, seu bestial discurso.&lt;br /&gt;_Entrou na confraria do livro.&lt;br /&gt;_E daí? Comprou sua vaga. Nós não podemos oferecer-lhe uma entre nós. Esqueçam esse bruxo. Aqui jamais sentará entre nós.&lt;br /&gt;_Desculpe-me, senhor presidente. Pus o carro diante dos bois. Volvo-me ao meu silêncio atencioso. Sinceramente, minhas desculpas.&lt;br /&gt;_Dele necessitamos, caro confrade.&lt;br /&gt;Tantos sonecavam no fim da sala de reuniões. Outros, a caminho, apenas bocejavam. Horas houve em que o doutor Hosbil falara para cinco ou seis acordados. Decidiram quem apoiariam. A decisão seria absoluta. Mais uma vez a suprema vontade do narcísico presidente deveria prevalecer. O quadro sucessório, agora redesenhado, apenas aguardaria, dentro de cada confrade, a hora de usar os sufrágios encabrestados, torvação para os indesejados pela Academia.&lt;br /&gt;Nos bastidores acadêmicos, almas ufarradas desdiziam do lá orientado. Outros poucos eram silentes, cuidadosos. Folegavam para enxergar as brechas da porta da Academia. Que os ventos soprassem. Os dias, uns atrás dos outros, passariam com diferentes desfechos. Nalgum deles desigual, a vaga cairia noutro redesenho literário.&lt;br /&gt;Ficaram lá dentro após a reunião por mais de duas horas. É que chovia bastante e o vento frio estimulava salvas de espirros e tosses entre eles. Quando saíram, levaram consigo o ranço do pleito defendido. Via-se estampado no rosto de tantos a força do orgulho e da vingança. Na cidade e fora dela houve assunto polêmico, fofoca atualíssima para encher as conversas telefônicas e outras arquitetadas. Saindo do velho mausoléu de imortais, apenas adocicaram a língua para reproduzir seus discursos, além da força de uma matraca. Havia muitos macacos num só galho. Apesar de a árvore ser frondosa, sua madeira não havia formado cerne; portanto, fraca de sustentação. Passível de quebra fácil. Os macacos que se cuidassem melhor. Corriam riscos de morte.&lt;br /&gt;Os jornais noticiaram como nunca se havia visto antes. O velho presidente perdera seu voto. A Academia o traíra. Venceu Saulo Vermelho. Um ano após sua posse era um dos mais cortejados acadêmicos. E assim foi, e assim é, e um dia não será mais...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614441901048899?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614441901048899/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614441901048899&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614441901048899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614441901048899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/academia.html' title='A Academia'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614366226594504</id><published>2006-12-14T16:41:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T16:47:42.273-08:00</updated><title type='text'>Cadê a chave</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/610744/241412.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/724165/241412.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Há meses que Totonho arquitetava roubar sua linda Carmélia. Encantara-se com suas duas belas tranças e olhos escuros como as densas nuvens de inverno. Seus pais, irredutíveis, negaram o casamento várias vezes.&lt;br /&gt;_Eu vou te roubar amanhã cedinho.&lt;br /&gt;_Se não der certo, adeus nosso desejo.&lt;br /&gt;_Duvido que não dê.&lt;br /&gt;_Esperamos. Vou me aprontar lá pela madrugada.&lt;br /&gt;_Vou parar o carro e lhe dar um minuto para entrar nele. Estamos certo?&lt;br /&gt;_Demais até.&lt;br /&gt;O coronel Justino andava de olho nos dois. Sua filha fora negada com veemência ao jovem. A conversa entre eles, única esperança de desfazer a decisão do velho, havia sido cortada há meses. Roubá-la ser-lhe-ia a última investida atrevida.&lt;br /&gt;A noite estava parda. Nem o grito do grilo se ouvia. A coruja chilreara pouco. O apito do vigilante da rua parecia ter-se ido com a ventania da madrugada que havia sido incomumente forte.&lt;br /&gt;A casinha era a última da rua. Após ela só a estrada de barro entre árvores floridas, prenúncio de uma boa safra de frutas adocicadas. Os velhos dormiam o fim do sono. Ela, acordada e atenta, encostara o ouvido direito na brecha da janela do quarto da frente onde estava de trouxa pronta e sandálias na mão.&lt;br /&gt;Às três e cinqüenta da madrugada ouviu o barulho do carro. Abriu a janela do quarto e confirmou a chegada de Totonho. Era ele. A chuva resolveu atrapalhar a ação dos dois. Choveu forte. Ele parou o carro em frente da casa, desceu rapidíssimo, bateu leve na janela do quarto dela conforme haviam combinado. Algo caiu-lhe do bolso. Na pressa não deu valor. Queria mesmo era levá-la dali para bem longe.&lt;br /&gt;Com apenas três minutos estavam no carro, sentados e molhados da chuva. O velho notara o barulho e levantou-se às pressas:&lt;br /&gt;_Quem tá aí? É você, Carmélia? Acorda, mulé, aquele cachorro tá roubando nossa fia. Né Carmélia não, é ele.&lt;br /&gt;_Será, véio?&lt;br /&gt;_Que será, que nada, já roubou.&lt;br /&gt;Em frente à casa, eles no alvoroço imediatamente antes da tentativa da fuga:&lt;br /&gt;_Vamos, meu amor, ligue o carro.&lt;br /&gt;_Perdi a chave na pressa. Senti quando caiu do bolso, mas chovia forte. Cadê a chave?&lt;br /&gt;_E agora?&lt;br /&gt;_Esperar o cacete comer!&lt;br /&gt;_Em quem?&lt;br /&gt;_ Só em mim, dessa vez. Se eu sobreviver, darei o troco ao tempo, a seu pai e principalmente a você.&lt;br /&gt;Totonho nunca mais viu Carmélia que foi levada por uma tia materna para os confins de um convento no sul de Minas. Nem ao menos as correspondências dos dois se acharam na pressa dos tempos desfavoráveis. A chave do pequenino carro não lhe deixaria mais a memória. A pressa continuou a ser a fiel inimiga da perfeição, e os amores proibidos, castigo para tão lúcidos corações de entes enamorados. As lágrimas da lembrança do que ficou para trás desfeito, toda vez que chove no lugar, diluem-se com as águas das chuvas sempre frias das madrugadas silentes.&lt;br /&gt;Carmélia faleceu aos setenta e oito anos, virgem e apaixonada. Totonho casou-se duas vezes e não pôde encontrar a mulher que sempre enxergou dentro do corpo daquela que a chave não lhe consentiu que fosse roubada.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614366226594504?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614366226594504/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614366226594504&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614366226594504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614366226594504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/cad-chave.html' title='Cadê a chave'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614322702078726</id><published>2006-12-14T16:34:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T16:40:27.026-08:00</updated><title type='text'>Sonho de milagre</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/464270/vera5.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/70455/vera5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ff6600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor, não sou eu digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”.&lt;br /&gt;Senhor, não vos levo comigo para minha casa porque não a tenho. Moro num barraco de lona numa favela violenta. Lá, nem tamborete para sentar tenho. Durmo no chão, como o que me dão. Caço emprego há anos. Sempre volto para casa descontente, infeliz. Como vedes, não é nenhum mar de rosas a minha vida de cidadania.&lt;br /&gt;Meus filhos conhecem mais os becos da favela que eu. Sua mãe passa o dia inteiro nas cozinhas alheias procurando trazer as migalhas que recebe, metade delas deixadas nas gavetas dos coletivos que precisa apanhar para se adequar ao seu ir e vir.&lt;br /&gt;À noite, ouço os tiros demolidores, o trotar dos pés assassinos dos meus irmãos favelados e a dor da morte nos gritos escassos que nos amedrontam. Meu medo já me é ralo, diluído pela repetição das cenas de violência do dia-a-dia favelar. Lá, os mansos morrem por último porque se escondem do palco do medo.&lt;br /&gt;Minha fé, Senhor, continua viva. Ai de mim se não a alimentasse. Quando me humilham, lembro-me de Vós; quando tenho fome, adormeço ao ouvir vossa voz no vento. Meus filhos já não me pedem o pão, acham-no, e eu acho que é vossa mão santa. Minha esposa nada me cobra. Tolero seu adultério porque é com parte dele que ela mantém a casa onde vivemos estranhamente. Como vedes, a vida me é desigual a de tantas outras favelas. Não possuo outro herói que não Vós.&lt;br /&gt;Como posso chamar-vos para que adentreis minha morada? Apenas falais e tudo será feito segundo vossa ordem.&lt;br /&gt;O que peço? Não sei dizer. Não tenho feito nada de bom para o mundo. Acomodei-me a pedir e pedir e, por tanto encontrar o que peço, deixei que a vida me levasse como todo o dia que se torna noite e que se finda quando já nasce outro sol e eu me vejo nas ruas a pedir tantas outras coisas ao povo do mundo. É o renovar-se de minha miséria, Senhor.&lt;br /&gt;Ontem, quando cheguei em casa, nada encontrei. Meus filhos haviam morrido e estavam soterrados. Minha esposa, ao tentar salvá-los, morrera também. Eu não tinha mais o barraco, os filhos que amei mesmo  com o meu descuidado gesto de cuidar.&lt;br /&gt;Senhor, foi justamente hoje que senti vossa presença amiga e me lembrei de que necessitava de vós e que só por vossas mãos poderia ser servido. Necessitava do alimento da alma. Olhei para o barro frio e molhado que guardava os corpos deles, abri os braços, deixei que o vento me beijasse e, olhando para os olhos da chuva que ainda caía, disse: como posso chamar-vos Senhor, se já não tenho casa, já não tenho filhos e esposa, já não tenho saúde para correr às ruas a pedir o alimento do corpo?&lt;br /&gt;Senti uma mão no meu ombro direito. Ela pesou. Era um homem de uma face mansa, olhar protetor, espírito que me falava sem palavras. Perguntei-lhe. Quem és?&lt;br /&gt;_Tu me chamas sempre. Mas tua vida estava escrita. Deixei que as coisas acontecessem e então, após tudo, resolvi mostrar-me a teu coração.&lt;br /&gt;_Quem és?&lt;br /&gt;_Sou o que sou.&lt;br /&gt;_Então, Senhor, não sou mais digno que entreis em minha morada porque ela não me é mais hospitaleira. Mas, se quiserdes, mandai que este barro saia de cima dos meus e aí tornarei a pedir-vos vossa entrada no meu barraco tantas vezes queira.&lt;br /&gt;_Tudo te será feito. Anda, deixa que teu sono seja teus passos. Dorme e que teu despertar seja uma fogueira cheia de mel silvestre, porque tua fé fez transformar tua morte em uma vida. Eis que ressuscitaste entre o sono e a vigília.&lt;br /&gt;Lembro bem que quando acordei e vi minha esposa e meus dois filhos deitados a dormirem do meu lado, não entendi o que de real me havia acontecido no sonho. Mas me foi real tudo isso. Só um milagre de Deus me convencerá do contrário.&lt;br /&gt;É por isso que todos as noite, antes de deitar, eu ponho meu rosto entre as mãos e digo:&lt;br /&gt;“Senhor, não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”.&lt;br /&gt;Continuo morando na Rocinha, a sentir desgosto e a dormir com Deus no coração. As balas têm me assustado muito, ainda não consegui emprego, meus filhos continuam a passar o dia todo na rua e minha mulher a fazer o que jamais pensasse poderia fazer um dia...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614322702078726?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614322702078726/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614322702078726&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614322702078726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614322702078726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/sonho-de-milagre.html' title='Sonho de milagre'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614280148238751</id><published>2006-12-14T16:26:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T16:33:21.486-08:00</updated><title type='text'>A reportagem</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/489846/livro.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/261230/livro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;Contramandada por sua razão, ela me veio como um uranólito sem saber da verdade. O publicado a havia ferido espiniformemente, como florão estaqueado no teto literário de um grande circo armado para se ler como um mural decepador. Eu não havia feito nada daquilo. A imprudência, talvez socavada por uma ordem rasteira chegada no silêncio de um bastidor sem alma de alguém ávido por discórdia, o fez desacertadamente. Li como uma feroz torroada, não pelo nome dado ao autor da matéria, mas pelo que isso podia gerar diante da leitura que deveria ser feita por Talma.&lt;br /&gt;O matutino publicou os elogios a mim, como se tudo houvesse sido feito por ela. O silêncio de sua ausência na cidade me fez pensar que havia gostado do que lera. Mesmo assim, liguei para ela várias vezes a fim de esclarecer que apenas um erro de uma digitadora causara a inversão das autorias da matéria.&lt;br /&gt;Quando já havia se passado duas dúzias de dias, liguei novamente para tentar ouvi-la. Como a emoção tem o poder de ferir-nos e desagregar o que às vezes pomos nas mãos para ofertar a outrens! Sem sucesso, a conversa que pensara se faria dos dois lados do fio telefônico foi interrompida por ela, com uma desgraciosa pancada do aparelho que me chegou como a tronchura de um desrespeito. Um amigo seu que estava ao meu lado ponderou:&lt;br /&gt;_Dissimule. A idade causa à alma esses desacertos também, e o corpo, às vezes, age desinteressado em ser cortês no susto que a emoção lhe faz.&lt;br /&gt;Eu ouvi triste, fiquei a pensar na dor recebida com o aviso daquele gesto e, súpero, meu pensamento me pediu que esperasse a noite, olhasse as estrelas, contemplasse a lua e só depois fizesse o viramento do que imaginava pensar fazer contra aquela criatura.&lt;br /&gt;Li e reli a matéria que me parecia uma obra de arte. Na voadura pensante que dei, não entendi o porquê de tanta mágoa de Talma em não aceitar aquele doce equívoco. Seu nome era forte, a matéria bonita e bem feita. O que lhe faltara para tê-la motivado expelir uma ira discursiva tão amarga, feita para ser mostrada a tantos?&lt;br /&gt;Dois jornais publicaram a matéria a seu pedido. Aconselharam-na outras almas pobres e amarradas às sermoas que seus ouvidos tanto ouvem. Um incômodo escaldador me fez dirigir ao jornal que primeiro havia publicado a matéria; Nenhum editor jornalístico rega a desculpa que carece ser impressa para dizer da correção de algum erro. Isso maltrata o andar das outras folhas em que sucedem os fatos. Reconheciam o erro e não publicavam as merecidas desculpas a mim, esclarecendo a grande culpa de digitação como vinda de uma funcionária que talvez nunca saiba o mal que nos causou.&lt;br /&gt;Passados alguns dias, minha alma, no caminho da pacificação e do esquecimento, encontrou-se com Talma em casa de um amigo querido. Meu coração saltou de alegria. Queria beijá-la e dizer-lhe que aquele equívoco não poderia jamais afastar-nos porque a espiritualidade forte que parecia nos congruir, era o elo de nossa irmanação.&lt;br /&gt;Amigos me levaram até ela; a rede balançava vagarosa, seu corpo senil brigava com a gravidade para se levantar e eu, com um coração cheio de braços, disse-lhe:&lt;br /&gt;_Deixe que eu a levante daí, beije sua face e converse como seu amigo, já que nada diferente disso fora outrora. Eu lhe quero bem. Jamais faria o que você leu e entediou-se.&lt;br /&gt;_Cuide em retratar-se!&lt;br /&gt;_De quê, minha querida?&lt;br /&gt;_Da matéria em que você perversamente pôs o meu nome como autora. Eu não costumo agradar a ninguém com palavras tão generosas. Meu jeito de escrever é outro! Cuide em retratar-se e logo! Você ainda não foi interpelado pelo meu advogado? Se não, aguarde-o!&lt;br /&gt;_Entendo que assim não chegaremos a conversa alguma. Fere-me falando desse jeito, logo a senhora em quem eu punha um bom naco de admiração.&lt;br /&gt;_Pois é! Antes de publicar meus dois artigos, procurei saber sobre você entre meus confrades e eles foram unânimes em dizer que você, para subir na vida, é capaz até de passar por cima de sua mãe.&lt;br /&gt;_A senhora acreditou no que lhe disseram, dona Talma?&lt;br /&gt;_Acreditei em tudo, seu filho da p.&lt;br /&gt;Senti o céu desabar sobre mim. A quase centuriã transfigurou-se, falou palavras desconexas, me descontentou e fez-me chorar de tristeza porque não respeitara a mulher-mãe que me trouxera ao mundo, a qual já tendo perdido a carne, permanece vivíssima dentro de mim. Uma mulher que, apesar de morta, ainda me conduz nos passos da minha estrada.&lt;br /&gt;A partir daquele dia pude ter a certeza de que o joio pode se fazer de trigo e criar inventivas inverdades a ferir-nos profundamente diante dos açoites das línguas mais que obscenas, imundas e infames.&lt;br /&gt;Talma envenenou-se dias após. Tragou do ar quente e mesquinho que elevou seu corpo na voadura dos que morrem ainda vivos. O meteoro passou e se espedaçou nas areias desérticas do seu coração que falsamente anunciava uma coragem de ser boa e de servir: uma alma singela.&lt;br /&gt;Todas as noites rezo para Talma sem me descuidar da traição do sono pesado que sempre me chega no imediato deitar do corpo. Não posso jamais esquecer-me de servi-la com minhas orações e segredar para Jesus que um jovem como eu, agora na lucidez que meu corpo presenteia, um dia poderá ser um centurião e ter na esclerose natural dos vasos sangüíneos o hipofluxo do oxigênio que sorrateiramente tira dos escritores a fluência dos dedos quando querem escrever as palavras mais belas e flóridas.&lt;br /&gt;Talma foi posta neste conto como uma flor em que pus asas, virou pássaro e só pôde chegar ao meu jardim lá pelas madrugadas, no silêncio de nossas desculpas, quando nos abraçamos novamente e sentamos para preparar uma linda matéria jornalística, não para um jornal apenas, mas para a vida dos que lêem muito e assim sabem que perdoar é amar duas vezes, e por isso vivem entre nós nesses nossos sonos que, volta e meia, voltam.&lt;br /&gt;Para você, Talma, meu beijo, embora só possa fazê-lo com essas palavras, porque não sei se você já pensa como este escritor que apenas se lembra do que lhe aconteceu, mas não mais das palavras assombradas que sua boca expulsou no estaqueado de uma emoção que não pode ser nem moldura do viver, nem um mostrável retrato.&lt;br /&gt;Para nós, acho que há duas doces cruzes, porque os recomeços podem nos apontar fantásticas viagens e um broto vergado pode crescer forte e produzir doces frutos para mais de uma alma saboreá-los.&lt;br /&gt;Venha, Talma, porque não há mais soluço de dor, mas uma saudade triste de uma amizade perdida. Continuo sendo um imenso urso panda, cheio de purpurina para enfeitá-la hibernando, mas tendo ao alcance da mão um pote cheio de água fria para lavar sua língua e matar sua sede. Mais uma vez, desculpe este João que não consegue fazer inimigos: afinal, junho e julho são os meses em que mais lembramos esses nossos santos, os Pedros e Joãos sem nos esquecermos de que, em agosto, o frio é bem maior para quem repousa solitário e triste. Eu nunca fiz o que imaginou a sua cabecinha que não pensou antes de retirar a flor tão firmemente posta no vaso que você quebrou de forma tão brusca. O jardim eu reguei para você. A flor era sua. Nossas palavras nos feriram muito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus seja por nós.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614280148238751?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614280148238751/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614280148238751&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614280148238751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614280148238751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/reportagem.html' title='A reportagem'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614234086382091</id><published>2006-12-14T16:19:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T16:25:40.866-08:00</updated><title type='text'>Zezinhos e zezinhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/93315/images.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/52899/images.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc6600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O caramujo se ia, menino mole e branco escondido no casco também frágil: um, anteâmbulo do outro, numa história alquebrada ao perigo. Passinhos tão meigos à procura do sol morno para se abrir vivo e resplandecente. Um torvelhinho de uma carne alva, quase translúcida, se contorcia deixando o casco calcário cheio de formas de bicos e ocelos. Vivia esse velho molusco no seu próprio latíbulo, opíparo leque, às vezes aberto para o tempo morno do sol e ao lado do frescor do vento. Um caramujo que me parecia inocente: todos ledos enganos.&lt;br /&gt;Cada vez que eu me sentava às margens do rio, olhava na direção daquele lajeiro enorme e via, meio molhado, meio enxuto, colado na pedra pela baba grossa que brotava de suas entranhas, meu amiguinho de aparência tão frágil mas que guardava dentro de si minúsculas cercárias apavorantes que tanto mal podiam fazer-nos no simples encontro com nossa pele, em um não tão saudável banho de rio de interior, coisa por nós tão desejável.&lt;br /&gt;Zezinho nunca vira naquele animalzinho tão frágil qualquer perigo. Mergulhava no Mundaú para lavar até a alma. Bungava com as mãos nas tocas das pedras atrás de pitus, mergulhava no mais fundo do rio, saltava de lajeiro em lajeiro e, vez por outra, dissecava com a ponta dos dedos dezenas de caramujos moles que, distraídos, tomavam o banho de sol mais forte do começo de tarde.&lt;br /&gt;Caramujo escancarado, água morna, cercária aproveitando para passear nas águas mansas do rio e o mal que os olhos não podiam ver e que o pensamento do moleque não cria, ganhava grandes pernas. Aquele mole mal era tão duro de acabar-se!&lt;br /&gt;Passaram-se os anos e encontrei Zezinho já homem feito, casado, pai de onze filhos; um carroceiro anônimo de União dos Palmares.&lt;br /&gt;_Quanto tempo, Zezinho e nos pomos frente a frente. Mais de trinta anos se passaram e estamos aqui.&lt;br /&gt;_Mas o senhor, doutor, está sadio, corado, barriga fina e batida como a de um atleta. Olhe pra mim!&lt;br /&gt;Zezinho era um “Jeca Tatu” do vale do Mundaú. Aquele mole e falsamente inofensivo caramujo era o casulo que hospedava as cercárias que nada mais eram do que as precursoras da Xistose. Nas águas mansas e mornas do começo de tarde, o Mundaú ficava cheinho delas, saídas das entranhas do molusco e daí até o contato com a pele de Zezinho, um pulo gostoso. Saía da água, coceira leve nas pernas e no resto do corpo e era esse o sinal de que os peixinhos do mal já haviam penetrado na pele de todos os Zezinhos que gostavam do mergulho no velho Mundaú, como aquele que acabara de encontrar. Encontrei-o amarelo, barriga imensa, cheia da água da doença, olhos fundos, pele esverdeada, braços finos, pés inchados e passos difíceis: parecia que as pernas lhe pesavam cem quilos, cada.&lt;br /&gt;_Ainda toma banho no Mundaú, Zezinho?&lt;br /&gt;_Todo dia! Fiz uma puxadinha de palha de coqueiro na beira do rio, atrás de casa e lá mesmo faço minhas obrigações e o rio leva. Mergulhar mais não: tiro a água do rio com a caneca e me banho.&lt;br /&gt;Zezinho morria a cada dia e espalhava a doença quando ia banhar-se na beira do Mundaú. Os ovos do schistossoma em suas fezes eclodiam no contato com a água suja do rio, e caíam nela outros serezinhos que corriam para junto do caramujo aberto e, sem lhe pedir licença, adentravam nele e, no seu corpo mole, viravam cercárias que, nos dias de sol, água morna de começo de tarde, saíam a nadar procurando pernas para beijarem e, encantadas com os beijos, só saíam do corpo dos Zezinhos quando novas fezes cheias de ovos caíssem nas águas de trás de casa no banheiro que um deles havia feito.&lt;br /&gt;A China convocou a população para, durante um fim de semana, catar os caramujos da espécie que reproduz a cercária que causa a esquistossomose. Fizeram um banquete com os moluscos recolhidos das águas dos rios e lagos chineses. Erradicaram a doença num sonho gastronômico. Que lindo! País sério este!&lt;br /&gt;E no Brasil, como é feita a coisa? Eu sei: os rios correm vagarosos, assoreados e sujos e neles os caramujos proliferam despreocupadamente. Lajeiros imensos são palcos de exposição desses caramujos que, ao banharem-se, continuam mandando cercárias passear nas águas do rio e estas sempre acham os Zezinhos dos beira-rios que deviam estar nas mansões dos atletas da saúde, aqueles que freqüentam os gabinetes políticos luxuosos e que podem decidir pela erradicação dessa doença miserável conhecida entre nós pela alcunha de xistose.&lt;br /&gt;Uma liderança forte que possa convocar a população das áreas infestadas por esses caramujos para se construir um banquete à brasileira, não creio que haja sob o céu brasileiro. Em lideranças comprometidas com um trabalho mais prático e sério do que teatral, também não acredito.&lt;br /&gt;O que conheço mesmo, e dá dó, são velhos cientistas da melhor estirpe, aposentados e tristes por não estarem participando de tantos banquetes possíveis de serem feitos e, com isso, erradicando as mazelas que cronificam doenças nos corpos inocentes dos nossos legítimos cidadãos, para que grandes interesses escusos possam vender ao país, cada vez mais e por muitos anos, drogas caríssimas que embriagam os caramujos da vida mas não matam as cercárias do dia-a-dia. Sabem o porquê? Por que Zezinho não pode morar fora das margens do rio e ter uma casa saneada. A saúde do Brasil, falo da saúde política, bem que merecia acabar com os “zezinhos” dos gabinetes luxuosos, para deixar viver os verdadeiros Zezinhos que, nos prenúncios de seus gemidos, aguardam com dor o presente que um dia possa torná-los  verdadeiros cidadãos, de peles róseas e barrigas batidas, como atletas da cidadania.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614234086382091?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614234086382091/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614234086382091&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614234086382091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614234086382091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/zezinhos-e-zezinhos.html' title='Zezinhos e zezinhos'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614192775953762</id><published>2006-12-14T15:55:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T16:18:47.783-08:00</updated><title type='text'>A cruz da dançarina</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/25972/dancarina4.gif"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/797331/dancarina4.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Era uma sexta-feira comum como  qualquer outra e, extraordinariamente, eu estava, pela manhã, no meu consultório. Um amigo me ligou e fez um pedido: queria que eu atendesse a uma dançarina de uma banda sertaneja que, segundo ele, estava mal e em uma péssima situação financeira. Atendi-o prontamente e o orientei a levá-la às dez horas, ao consultório.&lt;br /&gt;_Mande entrar a cliente.&lt;br /&gt;Entrou na sala uma mulher muito jovem, cabisbaixa, com o corpo em posição de defesa para tudo o que via à sua frente. Vestida num tailleur cinza, lábios bem pintados com um batom discreto, cor bege, cabelos um tanto descuidados.&lt;br /&gt;_Bom-dia, doutor.&lt;br /&gt;_Bom-dia. Sente-se. Vamos conversar. O que lhe trouxe até aqui?&lt;br /&gt;Passei aproximadamente uma hora em anamnese com aquela jovem, o suficiente para saber que nada sei ainda das cruzes que pesam nos ombros do povo do mundo. Profissão: dançarina; idade: vinte e seis anos, nome do pai?&lt;br /&gt;_Doutor, eu não tenho pai.&lt;br /&gt;_Como não tem? Você é um clone?&lt;br /&gt;_Não. Explico: minha mãe tinha dezoito anos quando foi estuprada por um jovem violento. Morto pela polícia, ela nem teve tempo para identificar seu cadáver. Não sei quem era nem onde morava e quem são seus parentes. Minha mãe tornou-se alcoólatra e eu procuro vencer a minha solidão profunda, dançando. Já tentei matar-me, mas na hora H não achei a coragem. Danço para afastar o medo que tenho de minha existência.&lt;br /&gt;_Mas, você está aqui com alguma queixa, não é?&lt;br /&gt;_Sim, Claro! Tive uma crise de epilepsia enquanto dormia e cortei um pedaço da língua. Não estou conseguindo dançar nos shows do cantor que acompanho. Sinto câimbras nas panturrilhas. Ganho quarenta reais por cada show que faço. Se não os fizer, vou morrer de fome. Estou aqui para que o senhor me tire essa inchação nas pernas e uns tremores no corpo que venho sentindo ultimamente. Estou deveras debilitada.&lt;br /&gt;Uma jovem bonita, corpo atlético, carregando um fácies de sofrimento, cruz pesada que um dia a vida lhe ofereceu. Queria tão pouco de mim, tinha tanto amor no peito dolorido recém-maltratado pela perda de um grande amor que lhe valera para esconder sua tristeza por mais de dois anos. Ele era dançarino no mesmo grupo e hoje estava de caso amoroso com outra amiga também dançarina.&lt;br /&gt;A vida nos é por demais esquisita, cheia de mistérios poucos sondáveis, anteparada por uma cortina grossa e fosca; jardim para uns, deserto para outros. A felicidade tem ponteiros vagarosos que vez por outra param e não nos adianta dar-lhe corda para funcionar. Pára, fere e, só no caminhar da cruz, cede, algumas poucas vezes, para nos aliviar, quando parecemos estar já tão perto da morte.&lt;br /&gt;Não sei como as pessoas que não têm Deus dentro de si conseguem sobreviver a esses pesadelos horrendos. E quando necessitam dançar com a cruz nos ombros? A dançarina X é um bom exemplo dessas criaturas. Veio à procura da salvação, mesmo sabendo que a sua grande cruz, dada pela mácula feroz de ser ela a filha de um estupro, não lhe deixaria jamais de pesar ao ombro. Olhei-a emocionado ao fim da consulta e lhe perguntei:&lt;br /&gt;_Diga-me dez passagens boas em sua vida. Alguns momentos felizes que você teve.&lt;br /&gt;_Será que acho dez deles, doutor?&lt;br /&gt;_Diga-me então, cinco.&lt;br /&gt;_Vou ver se acho tudo isso.     &lt;br /&gt;E ainda conversamos por uns vinte minutos e vi a jovem sorrir pela primeira vez quando me falou da felicidade que teve quando, no seu primeiro show sobre o tablado de um caminhão, foi aplaudida efusivamente após terminar um número de dança. Falou de um grande amor que teve e do choro feliz que sempre tem quando abraça a mãe, alcoólatra, nos poucos dias em que está lúcida e choram juntas agradecendo a Deus por estarem vivas dentro de uma mesma história.&lt;br /&gt;Olhei-a no fundo dos olhos que me reverberavam sofrimento e tristeza e encontrei, não sei como, estranhas palavras para consolá-la:&lt;br /&gt;_Talvez, querida, sem esse estupro que tanto a machuca no seu dia-a-dia, você não tivesse vivido esses momentos felizes que você acabou de contar-me. Dizem que todo mal traz um bem. Aprenda a tirar sua cruz dos ombros, ao menos enquanto estiver no palco a dançar ou abraçando sua mãe nos seus poucos momentos de sobriedade. Compreenda que são tantos os que carregam cruzes pesadíssimas, que a sua pode tornar-se pequenina diante delas. O que notei em você é que parece que não tem amor por você mesma. Quando a gente não gosta da gente, é somente a cruz que gosta e aí, pesa tão profundamente que faz calo até na alma e o médico não pode curá-la sozinho. Eis aqui alguns exames para você fazer. Retorne-me com eles&lt;br /&gt;_Mas eu não tenho dinheiro para fazê-los.&lt;br /&gt;Liguei para um amigo querido e ele se prontificou a atendê-la gratuitamente. E feito tudo isso, senti que minha cruz estava levíssima nos ombros, por dois simples motivos: conhecia meus pais e era eu quem a estava ajudando. É bom aliviar o peso da cruz alheia,quando achamos dentro de nós essas forças misteriosas que só podem nos chegar, vindas de um Deus protetor e vivo que parece habitar sobre nuvens doiradas do mais puro amor. Sobra-me tanto fôlego ainda, não porque a minha cruz seja tão leve, mas porque meu coração é uma alavanca cheia de sentimentos bons que me dão forças para suportar as dores alheias que porventura cruzam o meu caminho, também cheio de dor.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614192775953762?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614192775953762/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614192775953762&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614192775953762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614192775953762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/cruz-da-danarina.html' title='A cruz da dançarina'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116614051791816900</id><published>2006-12-14T15:40:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T15:55:17.936-08:00</updated><title type='text'>A família</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/887572/INCESTO6.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/578669/INCESTO6.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Conversa puxa conversa e a gente termina falando do que deve e do que não deve. Você sempre me envolve com suas frases pré-fabricadas. Não posso esconder o quanto o admiro. Meus olhos por si só denunciam esse sentimento. Pecam demais quando olham para seu corpo muito embora cresçam quando encontram os olhos de sua alma e com eles navegam em busca dos nossos belos momentos.&lt;br /&gt;_Mas eu sou o culpado por tudo.&lt;br /&gt;_A culpa, toda ela, atrela-se a nossos preconceitos. O que é bom ou certo para nós nem sempre o é para os outros.&lt;br /&gt;_É desculpa sua. Você não quer que a coisa morra. Entre nós isso é navalha afiada que corta até o vento.&lt;br /&gt;_Navalha atrevida e louca!&lt;br /&gt;_Mas não deixará de ser navalha, nunca, meu amor.&lt;br /&gt;_Desejo-o assim mesmo. Amo-o: seus olhos, sua carne e sua alma. Não se culpe por isso.&lt;br /&gt;_Uma família é um monumento à tradição. Um povo recolhe-se sob a força de sua figuração social. É dela que tiramos a essência de nossa convivência. Quando saímos de casa, um pedaço de sua sombra fantasmagórica nos acompanha. A família é um grude que nos endereça ao convívio social das ruas e das outras casas. A nossa parece ser a mais forte de todas as outras que já conheci. Meu pecado é ver você com outros olhos que nunca pude entender onde os encontrei. Você afia minha navalha e me corta com ela como se eu fosse um bêbado que nunca bebeu o espírito do vinho.&lt;br /&gt;_Amir, o pior pecado que poderemos encontrar dentro de nós é aquele que não pode ser guardado em nossas almas como bom para você e para mim. O que gostamos de fazer é o que nos faz bem. Se é ruim para os outros, paciência; é bom para nós. Para eles é um pecado? Pouco me importa!&lt;br /&gt;_Maria, a concepção que temos até de nós mesmos é como a navalha que cremos ser: corta com as duas faces, onde deve e quando não deve. Conceitos são feitos no arranjo dos discursos. O limite do que podemos é tênue ou extenso a depender dos nossos preconceitos. Não posso continuar alimentando esse nosso romance!&lt;br /&gt;_Mas eu o amo, Amir, como nunca fi-lo antes. Dependo de suas entranhas suculentas. Vou morrer, sem tê-lo. Sua alma é quem dá a cor e o cheiro de seu corpo. Seu perfume é agridoce como eu sempre o desejei. Nossos corpos são um do outro. Nossa cama é farta de nós e não cabe mais ninguém que não nós dois. Não se importe com o que somos.&lt;br /&gt;_Você faz o seu próprio furor. Tenho medo de sua alma. É corrente que amarra até as palavras do meu silêncio.&lt;br /&gt;_É porque descendemos de um mesmo tronco de sangue. A irmandade faz essas coisas existirem.&lt;br /&gt;_Tenho medo, mana.&lt;br /&gt;_Mas não se esqueça da força dessa mulher que há em mim. Possuo armas terríveis!&lt;br /&gt;_Sou um homem frágil, fisgado por seus olhos valentes e audaciosos.&lt;br /&gt;_Mais sensual do que isso que você me disse nesse instante, nunca ouvi antes, creia. Não me deixe só.&lt;br /&gt;_Valente, mais que tudo. Você é quanto maior quiser ser.&lt;br /&gt;_Por quê?&lt;br /&gt;_Porque inusita e fere, beija e morde, dá-me de beber da água fervente do seu corpo. Fico com a boca aftosa do seu veneno fumegante. Não sou mais eu somente. Você preencheu até meu fôlego. Acho que já me basta viver.&lt;br /&gt;_Não o deixo morrer. Não respondo por ninguém. Não somos mais corpos e almas. Somos sombras perdidas nos desejos. Provar um ao outro, na prima vez foi nossa maior ousadia. Adoecemos depois de termos feito.&lt;br /&gt;_Por quê?&lt;br /&gt;_Porque, meu irmão, a vida é isso também. Desviamo-nos desacertadamente ou enxergamos o que cega outrens.&lt;br /&gt;_Nossa família ruiu!&lt;br /&gt;_Para mim cresceu. Nossos pais são os que vivem a defender. O que menos me importa hoje é uma religião. Meu Deus é de carne, macio, sem ossos. Gosto de pensar nele como um vulcão em insônia constante. Suas lavas são meus goles de desejo. Amo-o quando em franca erupção. Tenho medo dele, também. É poderoso.&lt;br /&gt;_Você não tem medo sequer de ter medo. Há muito exagero nos seus sentimentos. É furiosa, urra para esfregar seu corpo noutro.&lt;br /&gt;_Não! Serve-me apenas o seu. Sou sua loba. Quero-o meu filhote faminto para mamar até nos meus dedos e nunca envelhecer.&lt;br /&gt;_Eu preferiria ficar com a força de nossa família.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;_E da navalha dela, não tem medo?&lt;br /&gt;_Nunca tive. Você me fez perder um bom pedaço de minha auto-estima.&lt;br /&gt;_Não recue, Amir: eu mato você!&lt;br /&gt;_Já morri faz tempo. Só os vermes incestuosos desses nossos sentidos é que me ressuscitam diante dos seus olhos.&lt;br /&gt;_Nosso orgasmo é diferente, eu sinto isso.&lt;br /&gt;_Ele é feroz, isso sim.&lt;br /&gt;-         Irmão sente o que os estranhos sentem entre si. Se não nos conhecêssemos, nada do que quer me impedir agora, existiria.&lt;br /&gt;_Você se esquece de que participamos de uma sociedade cheia de regras.&lt;br /&gt;_Até nós as temos. Quando fazemos amor, só nos serve a escuridão da noite. As estrelas nos catucam. O vento não passa entre nossos corpos e nossas almas são foliãs astutas que desvendam as magias do Cupido. Somos diferentes de todos. Não vejo o porquê de você preocupar-se com a censura diferenças dos estranhos.&lt;br /&gt;_Maria Nilza, não a quero mais como amante.&lt;br /&gt;_Então, sendo assim, dar-lhe-ei o que minha vontade manda. Não quero deixar de ser possessiva. Prefiro bater, muito embora apanhar também possa vir a ser o meu forte: é só escolher outro irmão, diferente de você.&lt;br /&gt;_Não se precipite, mana...&lt;br /&gt;_Eis o que você merece há séculos.&lt;br /&gt;Era uma sexta-feira. Chovia fino e a tarde estava escura. O Sol havia se apressado para esconder-se no céu e por isso a Lua apontava no firmamento antes que a noite descortinasse com as estrelas para lhe fazer um fundo de palco perolado e cintilante.&lt;br /&gt;Amir não foi necropsiado. O dinheiro dos Carvalho comprou a dignidade e a técnica de que precisou. A família enlutou-se num falso suicídio e ficou dele a lembrança errada de alguém que nunca fora frágil, mas enfrentou a morte e até nela foi incompreendido.&lt;br /&gt;Maria chorou por dois lutos na igreja matriz. Suas lágrimas eram bicolores. Suas mãos trêmulas e sua vergonha contida entre elas falavam sem achar olhos que pudessem ouvir os seus gestos denunciantes de sua primeira miséria realizada.&lt;br /&gt;Onze anos depois eu e meus pais soubemos que ela havia degolado nosso irmão caçula, Jorge, e que tinha sido presa em flagrante delito. Só minha mãe foi ter com ela à época. Nunca mais a vimos, nem atrás das grades justas que, sem bocas, falavam as verdades que não ficaram em sua alma. Maria nascera para ser diferente. Do presídio foi ao nosocômio judiciário e lá morreu aos trinta e nove anos, enforcada por uma companheira de cela.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116614051791816900?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116614051791816900/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116614051791816900&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614051791816900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116614051791816900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/famlia.html' title='A família'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116613958421160787</id><published>2006-12-14T15:31:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T15:39:44.216-08:00</updated><title type='text'>A primavera dos cegos</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/395943/cego.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/268201/cego.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Numa calçada fria, suja e desolada, vi um cego a pedir esmolas a anjos e demônios que mais pareciam desfilar em passarelas perfumadas de fartura. Quão fria e desumana era essa calçada na qual havia um homem sem a permissão de ver o Sol nem a Lua, nem o claro o escuro nem um vulto sequer. As moedas que caíam na cuia eram escassas. Alegrava-se quando tiniam algumas delas. Ao apanhá-las, por seu peso ou tamanho, sabia seu valor exato e as escondia no bolso fundo do paletó esfarrapado, único ser que ainda o abraçava.&lt;br /&gt;Possuía raros fregueses, desses que nunca se esqueciam de pôr algumas delas, às vezes até em suas mãos. Conhecia alguns pelos nomes. Um deles, Abraão, sempre lhe dava um bom-dia forte. Mesmo sem enxergar o seu rosto, via que seu coração estava sorrindo satisfeito com a vida, quando lhe dava esmolas. Diariamente cruzava a mesma calçada e o cego lhe sentia o cheiro gostoso, os passos mansos e ritmados. Nunca lhe disse quem era ou o que fazia.&lt;br /&gt;Lembro-me de que certa vez reclamou que até as esmolas estavam escasseando. A miséria estava em recessão. Não lhe respondi nem que sim, nem que não, mas ficou comigo o compromisso com a solidariedade humana e me fui. Passaram-se duas semanas até que pressentisse o meu retorno. Nesse intervalo, misteriosamente, as esmolas se multiplicaram. Cá comigo eu me perguntava o porquê do acontecimento extraordinário.&lt;br /&gt;Indaguei-lhe sobre a mudança e ele falou que ela iniciara após Abraão ter-lhe trocado a tabuleta onde havia escrito cego de nascença. Ao perceber que a nova situação tinha se mantido, dirigiu-se a alguém que lhe deu esmola.&lt;br /&gt;_Senhor, podes ler o que existe neste papelão que seguro firme à minha frente?&lt;br /&gt;_Pois não!&lt;br /&gt;_Então diga-me, o que ele quer dizer!&lt;br /&gt;_“É uma pena que não posso ver as flores da primavera”.&lt;br /&gt;_E foi isso então?&lt;br /&gt;_Isso o quê, ceguinho?&lt;br /&gt;_Nada. Deus o acompanhe, assim como acompanha aquele regador de jardim que, todos os dias, põe água no galho seco de meu coração, que só hoje passará a abrir seu botão de amargura, para que, vendo-o, outros pensem nas flores de uma primavera que dela nunca nem sequer me lembrei. Como deve ser ajardinada a alma desse ser tão benevolente que me visita e que até na sua ausência me enriquece duplamente! Acho que ele carrega n’alma as quatro estações da vida, e seu sorriso nada mais é do que um arco-íris escancarado de brilho e de amor.&lt;br /&gt;Cada cego pode ter, dentro de si, quantas primaveras quiser. Uns são botões, outros galhos secos, outros flores vingadas, outros pétalas murchas, mas todos eles podem ter jardins floridos dentro de suas almas. Basta apanhar a água da vida, sorrir para o dia e aguardar que a felicidade chegue com a primavera que nunca se esquece de preceder o verão.&lt;br /&gt;Os olhos do ceguinho, embora murchos, podiam ter todas as primaveras que quisesse. A verdadeira esmola que recebera, foi poder enxergar com o coração a primavera adormecida por trás de sua cegueira que só conseguia ver o valor das moedas que lhe eram oferecidas como esmola.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116613958421160787?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116613958421160787/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116613958421160787&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613958421160787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613958421160787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/primavera-dos-cegos.html' title='A primavera dos cegos'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116613902580038876</id><published>2006-12-14T15:25:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T15:30:25.820-08:00</updated><title type='text'>À espera de um amor</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/236959/mulher.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/305727/mulher.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;As coisas da vida, as cenas românticas das quais ouvimos sempre falar parecem estar sempre bem distantes de nós. Nunca acreditamos que possam acontecer conosco. Mas o senhor destino, mestre das implacáveis cenas da vida, presenteia-nos com certos dramas, às vezes sacralizados por nossos sentimentos, outras vezes mortais. Clara foi vítima desse senhor. Sorriu e chorou numa longa espera que lhe trouxe tantos dissabores e um fim muito pior que o começo e o meio de tudo.&lt;br /&gt;_Alô? Adalberto?&lt;br /&gt;_Oi, Clara, tudo bem com você?&lt;br /&gt;_Agora sim! Notícia boa? Quando vem à Maceió? Estou morrendo de saudade de você.&lt;br /&gt;_Não sei, querida. A notícia não é lá tão boa. Estou viúvo! Elma se foi e tão rápido.&lt;br /&gt;Adalberto e Clara haviam se gostado platonicamente durante a infância. Na adolescência, com a permissão dos pais, chegaram a namorar-se. Parecia que o destino não se interessava pela união dos dois e ele viajou para fazer sua vida em São Paulo. Ela ficou guardando o carinho que tinha por ele.&lt;br /&gt;Passados vários anos ele lhe escreveu mais uma vez afirmando o seu carinho especial por ela, porém informando-lhe que havia se casado novamente. Clara, mesmo entristecida com a notícia, resolveu esperá-lo no futuro. Acreditava que um dia o teria como companheiro. Não o esquecia. Adalberto era o seu príncipe encantado, brotado dos legítimos contos de fadas e que tinha que estar dentro do final da história que dormia enraizada no seu inconsciente. Ele viveu pouco tempo com sua esposa. Perdeu-a em um trágico acidente automobilístico. Quando ela soube da notícia da sua segunda viuvez, esperançou-se ainda mais em tê-lo. Ele veio a Maceió, esteve com ela, chorou em seus ombros, mas retornou a São Paulo. Talvez ainda não fosse o momento exato para os dois. Águas ainda haveriam de correr em suas vidas.&lt;br /&gt;_Meu Deus, já vi que nasci para sofrer na busca de um grande amor. Adalberto de novo casado! Por quê? Eu não lhe sirvo como esposa? Por que não me diz? O pior é que não consigo esquecê-lo. Vou esperá-lo mais. Não lhe desejo outra viuvez, mas vou regar minhas esperanças de ainda ser sua esposa. O outro casamento havia acontecido. Seu sonho estava mais longe ainda. Mas ela o amava muito.&lt;br /&gt;Clara sempre falava com ele. Escrevia-lhe cartas românticas que eram endereçadas a uma caixa postal quase secreta. Ele as lia e as destruía para que sua esposa na soubesse de Clara.&lt;br /&gt;Ainda ia fazer dois anos de casado quando Adalberto enviuvou pela última vez. Clara soube. Uma semana após o acontecido, ela lhe telefonou: Queria-o muito.&lt;br /&gt;_Beto? Alô? Beto?&lt;br /&gt;_Oi Clara, sou eu. Já soube de tudo, não foi?&lt;br /&gt;_Sim. E você? Muito triste? Que azar esse seu, meu querido...&lt;br /&gt;_Estou voltando para Maceió, querida.&lt;br /&gt;_Quando?&lt;br /&gt;_Ainda este mês. Vou morar na casa de mamãe. Quando eu chegar procurarei você para conversarmos sobre nós.&lt;br /&gt;_Eu estou lhe aguardando, Beto. Pessoalmente falaremos melhor. Que bom você vir morar aqui...&lt;br /&gt;Clara sentiu-se quase sua esposa. Não séria possível que agora ela não o tivesse. Moraria na casa de sua mãe, ao lado da dela. Não o deixaria escapar do seu laço. Agora sim! Sentia-se quase sua esposa, mesmo.&lt;br /&gt;No entanto nada disso aconteceu. Amargurada, ela desabafou com uma amiga:&lt;br /&gt;_Eu olho para o céu estrelado em noites de lua cheia e vejo perderem-se os meus sentimentos. Fogem como qualquer cometa que se perde no universo. As estrelas cadentes que impregnam minhas retinas lembram-me como foi longa minha espera. Adalberto retornou de São Paulo, passou a morar na mesma casa, vizinha a minha, com sua mãe, e nós nos falávamos todos os dias. Em menos de três meses que havia chegado, casamos. Vivi este casamento com uma força tão grande, como se nunca acreditasse pudesse existir. Havia-o perdido várias vezes. Agora, não, isso não aconteceria. Era meu, só meu. Não corria nenhum risco. Engano. Quando pensei que o tinha e que o meu paraíso era ao seu lado, enviuvei. Não posso dizer que foi um sonho lindo que se foi. Era muito mais do que isso. Minha vida tornou-se um pesadelo e eu morri, quase toda, com sua perda. A tristeza havia me laçado fortemente. Que pena, nunca havia tido tempo de ser feliz ao seu lado. Eu era sua viúva, na última curva que  a vida havia permitido a ele, fazer. Contornou-a e morreu. Levei a vida, amando-o, desde antes, muito embora não o tivesse fisicamete. Deixara viúva sua última esposa. Preferia sempre tê-lo ao longe, viúvo, do que ser sua viúva mais poder amá-lo. Queria-o vivíssimo, mesmo que com outras. Meu amor por ele suportaria bem tudo isso.&lt;br /&gt;Todos os anos, na data de sua morte, Clara manda celebrar uma missa festiva para sua alma. A igreja escolhida, sempre a mesma, é enfeitada com flores naturais, excessivamente. Ela nunca conseguiu esquecê-lo. Lembrá-lo é como viver ao seu lado. Ela o põe dentro da alma e envolveu-o de beijos e de lágrimas; pelos anos lembrados e pela saudade de sua perda física. É como se sua história, ao seu lado, ela houvesse posto numa moldura colorida e luzidia. Sempre estava vendo-a, admirando-a,  endeusando-a, até.&lt;br /&gt;Parece não querer esquecê-lo jamais. Isso é o que falam os seus gestos nas celebrações que faz nos aniversários de sua morte. Quando fala sobre ele, enfeita-se com uma saudade quase heróica que demonstra sentir. Quem a vê passar nas ruas, parece acreditar que desfila. Impecavelmente limpa e bem trajada, aquela mulher guarda uma esperança que nunca pôde viver sossegada dentro dela. Sua religiosidade forte, talvez tenha lhe proibido tornar-se deprimida. Sublima nas sucessivas celebrações que faz há mais de quinze anos, sua doce dor amarga que nunca a deixou viver na plenitude de seus sentimentos de mulher, ou de esposa que fora por tão pouco tempo. Mulher das esperanças que nunca pode ser intensamente. Mulher recheada do encanto do matrimônio. Mulher da cerimônia cheia de vazio dual, da cor descolorida, do alegre que soube lhe trazer lágrimas esquisitas de uma viuvez quase solteira e de uma morte muito viva. Uma mulher, afinal, cheia da idolatria do lar que desfez-se como uma criança, da parturição não existida, da comunhão dos sexos pouco consumada, do casamento que o vento levou. Uma mulher triste e alegre, vivendo em um eterno cerimonial de uma lembrança viva. A eterna esposa viúva da vida e de uma solidão forte e eternizada noutra forma de casar-se, dessa vez com  a lembrança triste.&lt;br /&gt;_É uma pena que você não me possa falar com palavras agora. Dentro da covardia fria dessa sepultura, nada brota de feliz ou de vivo. Só a lembrança da tua ida desavisada para a morada dos anjos, talvez. Queria você aqui, ao meu lado, mesmo que nossa cama não fosse muito freqüentada por nossos corpos quase sem desejos. Meu amor por você foi e sempre será, mais espiritual do que qualquer outra coisa. Até o ano que vem quando eu retornar a este lugar tão triste. Vou à igreja rezar e cantar, por nós. Espere-me no céu ou em qualquer outro lugar, que um dia estaremos juntos. Espero que nesse lugar não estejamos nós seis, mas só você e eu. Meu ciúme não suportaria entregar-te novamente para outros braços que não os meus. Livre de qualquer outro amor, mesmo noutras vidas ainda desconhecidas por mim. Para elas, só orações e para você, muito amor além delas.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116613902580038876?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116613902580038876/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116613902580038876&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613902580038876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613902580038876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/espera-de-um-amor.html' title='À espera de um amor'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-116613787831361352</id><published>2006-12-14T14:57:00.000-08:00</published><updated>2006-12-14T15:11:18.330-08:00</updated><title type='text'>O menino travesso</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/1600/946036/menino%20triste.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/7949/3309/320/457017/menino%20triste.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#6600cc;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem me preocupei com a queda do moleque. Estava acostumado com as suas travessuras e por isso mesmo achei que se levantaria do chão e sairia correndo para aprontar uma nova. Mas foi diferente o resultado. Minha consciência doeu ao saber do desfecho de sua triste história.&lt;br /&gt;Belzinho era sacristão do padre Amaurílio. Aos domingos, na missa, lá estava ele bem paramentado e quieto. Exercia suas funções religiosas perfeitamente bem. Na igrejinha do vilarejo era um garoto exímio. Não me lembro de ter ido à missa dominical e não tê-lo visto ajudando ao padre.&lt;br /&gt;Como criança saudável, sempre aprontava as suas. Não podia ver o alto-falante da torre da igreja evangélica começar a tocar e logo apanhava pedras e o acertava sob os aplausos e os risos dos seus coleguinhas de rua. O pastor calmamente saía do templo e, dirigindo-se a ele, pedia-lhe:&lt;br /&gt;_Belzinho, comporte-se. Aqui é a casa do mesmo Deus de sua igreja. Ele fica triste com tudo isso que você faz. Vá brincar. Se você quiser assistir ao culto, entre. Você e seus coleguinhas.&lt;br /&gt;Ele, sacudindo a cabeça e sem querer atender ao pastor, acalmava-se um pouco e saía dali à procura do que fazer diferente do já feito. À tardinha chegava em casa suado e cansado de tanto correr.&lt;br /&gt;_Por onde andava, filho?&lt;br /&gt;_Lá na praça, mãe, brincando...&lt;br /&gt;_Com quem, meu filho?&lt;br /&gt;_Com os meninos, mãe.&lt;br /&gt;_Vá tomar seu banho para depois jantar e ir dormir.&lt;br /&gt;_Deixe eu sair à noite, mãezinha...&lt;br /&gt;_Não! A noite é tempo para se dormir. Quando você crescer, eu deixo você sair à noite.&lt;br /&gt;E a noite chegava. O menino cansado de antes, agora pensava deitado na cama. Maquinava as peripécias que aprontaria no próximo dia. Não demorava muito o sono a chegar. Adormecia feito um anjo e, às vezes, o pesadelo era a única forma de remoer as passadas gravadas no inconsciente. Gritava, sorria, chorava, tudo durante o mais profundo sono.&lt;br /&gt;Belzinho também tinha o seu lado meigo, belo e inocentemente feliz. Não podia ver nenhum garoto passar à sua porta com roupas velhas e rasgadas que não corresse ao seu armário, tirasse alguma das suas e a desse. Quando dona Aurora, sua mãe, dava-se por conta da falta de alguma roupa sua, gritava-lhe e às vezes até lhe batia.&lt;br /&gt;Às sextas-feiras dona Aurora sempre oferecia pão e farinha de mandioca aos dez primeiros pedintes que lhe chegassem ao portão de casa. Quando as dez ofertas da promessa de sua mãe se acabavam, ele catava na dispensa o último alimento que era doado a quem nada recebera. Sob forte advertência e calado, ouvia a reclamação da mãe sobre o exagero de esmolas. Não se importava. Na outra sexta-feira não séria diferente e tudo aconteceria de novo, com ou sem os gritos da mãe.&lt;br /&gt;Na escola, as notas oscilavam muito. Mês eram razoáveis, mês eram fracas. Ele não se cansava de levar bilhetinhos da diretora do colégio para sua mãe. Esta, pacientemente, vinha ao colégio, desculpava-se pelas artes que o filho aprontava e, em casa, devolvia-lhe o recado corretivo com palmadas e gritos. Nada intenso.&lt;br /&gt;_Ai, mãe, tá doendo.&lt;br /&gt;_Tá não, safado. Só perco a palmada que não bate no seu lombo. Isso é pra você aprender a estudar e um dia, quem sabe, ser alguém na vida.&lt;br /&gt;_Ai, mãezinha, não dê mais não, pelo amorzinho de Deus, viu? Dê não, mãezinha.&lt;br /&gt;Ela ouvia-o e tinha clemência. Na verdade as palmadas não eram lá essas coisas. Ele chorava por um ou dois minutos e pronto. O garoto parecia esquecer-se rápido do corretivo e em seguida voltava às travessuras de sempre.&lt;br /&gt;Mas o destino lhe foi traiçoeiro. Parecia avisá-lo de que fosse bastante traquino. Seu tempo de menino e de gente deveria durar muito pouco. Calaram-se a força da travessura e a ineficiência na escola. As missas dominicais seriam agora diferentes das de antes. Seu silêncio atravessaria a cidade deixando um vazio esquisito e inexplicável. Suas travessuras não encheriam mais o vilarejo, e o pastor perderia a esperança de conquistar para sua igreja aquela almazinha tão forte.&lt;br /&gt;Soube, após quase duas horas, que aquele garoto travesso que tanto ajudava o padre nas missas aos domingos, estava morto. Suas mãe havia sido alertada pelo médico do posto de saúde de que se Belzinho não tomasse seu remédio diário contra a epilepsia, fatalmente morreria. Dona Aurora sabia bem dos riscos. Havia se cansado de ir até o posto médico do município atrás do dito remédio e nunca o encontrava.&lt;br /&gt;Sua situação financeira andava precaríssima. Seu marido, um desempregado da construção civil, diante do desprezo social em que vivia, afogava-se na bebida o dia todo e todos os dias. Ela, com o minguado salário que recebia como gari, tirava a metade de seus proventos e comprava uma caixa com vinte comprimidos do remédio do filho. Mas acontecia que um mês tinha alguns dias a mais e o tratamento do garoto era sempre incompleto.&lt;br /&gt;Naquele justo dia, quando Belzinho saltava feliz enchendo os ares da praça do coreto, foi acometido subitamente por uma de suas maiores crises e morreu. Ninguém quis acordá-lo. Alimentavam o triste tabu de que, através de sua saliva, pegava-se o mal.&lt;br /&gt;Na calçada da praça, estavam ele e seu anjo da guarda, um morto para sempre e o outro preparando a viagem da alma que não precisaria de remédios para sobreviver, nem tampouco dos benéficos de um governo irresponsável que não aprendera a tratar seus cidadãos decentemente. Eu posso lhes dizer, caros leitores, que a praça, o coreto, o vilarejo, as missas, tudo ficou entristecido com sua morte. Dentro de suas travessuras estavam imersos a força da vida e o brilho intenso de uma criança que vivia com um Deus vivíssimo dentro de si. Enquanto pulava, ensinava-nos a força da vida e, quando ajudava ao pároco, produzia as centelhas do divino. Para sua mãe, uma simples criança do mundo; paro o pároco, um aprendiz das coisas de Deus; para o pastor, uma esperança de conquista de mais uma alma; para mim, o ressonante enredo iluminado com uma porção de coisas que vi e tive quando criança, exceto o grande mal que o levou cedo à casa de Deus. Este menino viveu dentro de mim em quase tudo que fez. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-116613787831361352?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/116613787831361352/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=116613787831361352&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613787831361352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/116613787831361352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/12/o-menino-travesso.html' title='O menino travesso'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115909990115019320</id><published>2006-09-24T04:59:00.000-07:00</published><updated>2006-09-24T05:11:41.170-07:00</updated><title type='text'>O Féretro e o Poeta.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/eeee.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/eeee.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querida alma, com louvores este meu corpo te escreve, entusiasmado com os sonhos duma encarnação. Sei que sonhei, sem me restarem lembranças. Há um féretro que contém um corpo desalmado que  antes tanto chorou para não  ir embora para lugar incerto, tão cheio de bruma e obscurantismo. Eis  que te dou “poema de vida” feito por um outro corpo ainda cheio de alma: faz-me esse outro como o meu, para que não me reste, ao ouvir a minha voz, saber que há nessa cidade apenas um poeta velho. Meus versos são loucos pelos versos do poeta morto. Se apenas restar-me a desesperança, lerei para o outro corpo que ainda festejam nessa sala de choros, não como as carpideiras, mas um declamador; a alma que, deixando o corpo, ainda se segura no cerco do luto dos parentes, bem que me ouvirá ela, declamando os versos que fez, por mim tão admirados. Quero falar contigo, alma sem corpo; para isso empresto-te o meu.&lt;br /&gt;Não me deixes louco, alma sem boca, silenciada frente a minha dor; esse poeta que morreu, saibas, era o meu grande amor: fazíamos versos engraçados e eu sorria para assim alegrar-te, ó alma desgarrada, para quem agora falo quase morto também. Alma contra alma se pede. O féretro  não pode guardar poemas de amor porque já nasceu triste e isolado, para mais ainda isolar-se no fundo d’uma sepultura esquisita, onde os  vermes habitam, sem possuir as  palavras.&lt;br /&gt;Eis meu primeiro verso:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;Alma de algodão,&lt;br /&gt;ó leve duma bendita,&lt;br /&gt;mortos, teus versos não gritam,&lt;br /&gt;tua boca morreu.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;Lembrei-me que possuem um livro de poemas que ele editou. Nada morreu do que ficou, mas eu indago: e os que ainda estavam sendo pensados? Estão frios, desacumulados; nem sobejo de rima há neles;  então eu sei que morreram versos, e onde estão? Vou procurar o lugar onde os poetas mortos enterram seus  versos, os que não conseguem publicar. &lt;br /&gt;Choravam vozes – o único vozeirão era mesmo o dos meus versos –, menores do que a minha solitária, triste, refutando o luto, querendo readquirir a poesia do que ainda não havia sido lido por ninguém; estava apenas com a alma fugidia – antes de um corpo que sonhava, sonhava, sonhava...&lt;br /&gt;Chegado o padre, quis declamar, lembrou as coisas da alma e pouco olhou para o corpo frio. Alguns irrequietos se entreolharam, xingavam o calor e, disfarçadamente, o relógio.&lt;br /&gt;Ó  alma impiedosa – a que chamo  ou uma outra que porventura me ouça – traz-me a alma dos versos, os versos da alma: tudo. É apenas perto de meu que esse corpo chora, ri e goza, se tua alma novamente chega a ouvir-me declamando.&lt;br /&gt;A noite se perdeu no escuro desluarado. As tristes estrelas do céu foram embora também, só suas  lágrimas candentes choravam para se ver outros menos tristes que eu, que nem mais choravam. Declamei  meu grande estoque de versos decorados  à espera que a alma voltasse – tarde era, e escuro – e ela não me veio poetar.&lt;br /&gt;Quando o orvalho já havia chorado na terra, o sol declamou o primeiro verso do dia. A vela ao lado do féretro mudo, bruxuleava quase  finda. Nas faces das raras pessoas que ali estavam, não se viam nem as marcas dos caminhos das lágrimas.&lt;br /&gt;Dou-te, ó alma sumida, um segundo verso triste, quase desesperançado: pois o sol  que  sobe a arder lá, quase no fim deste horizonte, fala-me de uma hora triste: a triste hora em que os que não têm mais, enterram os que nada são, os mortos. Lembrei-me do estrume que os   corpos viram, temperados pelos besouros da terra que vivem nas profundezas escuras das valas de tristeza.&lt;br /&gt;Ó alma ingrata, volta para este corpo tão frio que nos deixou  tanto sofrimento! Para que serve a um féretro  guardar um corpo de um poeta mudo que não mais viverá?&lt;br /&gt;Ó alma impiedosa, donde és?  Ingratidão  não declama – a poesia é a voz da vida – dá-me outra vez  viver,  ouvindo dessa boca surda seus versos que tanto me falavam, tanto me diziam.&lt;br /&gt;O sol alto queimava minha fronte e agora, de lábios secos, voz guardada num nó na garganta, levaram o féretro escuro, abafando o corpo do poeta, para  o buraco cruel em  que ponho o  ponto final no soletrar da morte.&lt;br /&gt;_Quem morreu?&lt;br /&gt;_Um poeta!&lt;br /&gt;_O que fazia ele em vida?&lt;br /&gt;_Escondia-se de você, ó burro desvalido – inseto da vergonha, alma da escória do mundo.&lt;br /&gt;_Eu sou apenas um coveiro. Apenas um coveiro...Nada mais disso que o senhor acabou de falar.&lt;br /&gt;Passei a fazer versos novos e lembrar-me dos versos dele. A estrela havia se apagado cedo –  meu amor morreu de sede de amor, encontrou a morte e se foi para onde não  acham mais os que versejam. Cá me ficaram dois livros finos, desbotados  já, como se quisessem morrer também de desgosto.&lt;br /&gt;Olhei para trás ainda quando os portões do cemitério se fechavam. O homenzarrão achou o olhar triste dos meus versos que também possuíam olhos. Levantou-me a mão direita, acenou  descabidante, porque eu lhe havia dito fortes palavras; disse-me:&lt;br /&gt;Não fique triste. O poeta que morreu não morrerá mais. Tenho um velho jornal do ano passado que me fala dele. Agora me lembrei: era Mundano Castigo: não podia viver para sempre.&lt;br /&gt;Levantei-lhe a mão sem conseguir mostrar a voz; triste e trêmulo, além de envergonhar-me, apressei meus passos. Fui embora fazer meus versos para a vida. O coveiro nunca mais saiu de minhas idéias, apenas da frente dos meus olhos. Quem sabe  não sou eu um féretro que nunca soube disfarçar a morte que carrega de olhos marejados, voz triste, olho descuidado a não ler os maiores versos da vida?&lt;br /&gt;Ó cemitério, o que guardas além do corpo e do féretro? Até quando hás de ser assim, desse jeito, sem saber fazer versos? Perdi um grande amor, mas um luto passa. Não : pô-lo-ei em meus versos tristes, para nunca deixar de amá-lo. Serei doravante um poeta- féretro, guardador de versos alheios para minha maior felicidade.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115909990115019320?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115909990115019320/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115909990115019320&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909990115019320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909990115019320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/o-fretro-e-o-poeta.html' title='O Féretro e o Poeta.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115909916332933380</id><published>2006-09-24T04:53:00.000-07:00</published><updated>2006-09-24T04:59:23.333-07:00</updated><title type='text'>A Princesa da ilha do Sal.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/ilha%20do%20sal.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/ilha%20do%20sal.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma deusa que habitava uma linda ilha isolada do mundo, no meio de um infindável oceano desconhecido. Alimentava-se de seus súditos – os peixes – normalmente pequenos, multicoloridos e numerosos. Ao vê-los belos sentia uma profunda tristeza ter que devorá-los para se alimentar e continuar vivendo isolada e feliz na ilha do sal.&lt;br /&gt;A deusa, à noite, quando as estrelas coloriam o céu negro sobre a imensidão das águas, sentava-se numa grande pedra-de-sal e punha-se a olhá-las, admirada, triste e alegre.&lt;br /&gt;Às vezes passava a noite acordada, pensativa, até a chegada do sol ardente. Aí deixava a pedra porque era a hora de apanhar os mansos peixinhos multicoloridos, entontecidos, próximos ao vai e vem do bailado da marola. Queria chorar mas não fazia lágrimas. Nunca havia derramado alguma.&lt;br /&gt;Certo dia resolveu lavar o sol para destruir dentro de si certa dúvida cruel que lhe dissera um velho antepassado seu em um alvíssimo dia de verão – ele garantira-lhe que, como ela, o sol também não chorava; apenas conseguia entristecer-se vendo a água da chuva cair sobre o oceano e a ilha, e ele involuntariamente secá-la, chegando a rachar a terra e matar as pouquíssimas flores que resistiam viver ao lado da pequena deusa, enfeitando a ilha.&lt;br /&gt;Ela pediu a um superior seu que lhe desse poderes para voar do sola da ilha do sal até o Sol sem ser queimada e que ela pudesse levar consigo um montão de água do oceano e lavá-lo carinhosamente.&lt;br /&gt;Passaram-se anos, e a deusa  não retornou à ilha. Os peixinhos multiplicaram-se tanto que atraíram outros maiores, doutras  cores e semelhantes e foi criado um vai-e-vem infernal na briga cotidiana da sobrevivência, alguns alimentando-se de tantos outros. Em pouco tempo chegaram os tubarões, depois as baleias gigantes. Eram os novos moradores das águas da ilha, antes tão mansas, hoje agitadíssimas.&lt;br /&gt;A deusa conseguiu realizar seu sonho:  lavara o Sol que, agradecido, chorou de alegria porque havia recebido, em sua eterna isolação, o único visitante em toda sua vida.&lt;br /&gt;Quando de seu retorno à ilha, a deusa, pretendendo realizar um bom pouso, diminuiu o bater de suas asas – como linda borboleta nascida  de algum arco-íris e, antes mesmo  que atingisse o solo salino da ilha, foi perigosamente atacada por um imenso peixe, chegando a perder parte de uma de suas asas.&lt;br /&gt;_Que horror! Esta não é a ilha que deixei, lugar manso e fraterno onde moramos eu e minha alma. Cadê  a brisa suave, meus peixinhos pequeninos e multicoloridos? O que terá acontecido?&lt;br /&gt;Entristecida ela pediu uma outra vez ao seu superior que a permitisse retornar ao sol. Atendida, quando lá chegou, encontrou-o alegre a sorrir. Generosamente ele diminuiu o calor ao seu redor; lá em baixo o frio aumentou, choveu muito, a maré cresceu demais e o tempo ficou diferente.&lt;br /&gt;_Veio visitar-me novamente, linda princesa?&lt;br /&gt;_Desta vez, apavorada com o que vi lá em baixo no meu retorno.&lt;br /&gt;Após ouvi-lo demoradamente, dele recebeu de presente uma batuta iluminada, capaz de, atendendo á sua voz, alertar os vulcões e pô-lo, qualquer deles, mesmo adormecido há milênios, de volta à erupção, quando assim desejasse.&lt;br /&gt;E ela, ainda na casa do sol, usando o presente recebido, fez enfurecer os vulcões da ilha. Voltou radiosa, mas apreensiva. Ao chegar à ilha, as cinzas e as pedras deixadas pelas erupções de tantos vulcões dorminhocos dos quais nem sabia, dificultaram-lhe o pouso. As dunas de sal macio não haviam mais. O mar ao redor virara pequenas ilhas pétreas e sem vida. Triste, ela nunca mais pôde ver os pequeninos e inocentes peixes de que se alimentava para poder ver o sol cálido que vinha de cima do céu e a chuva que diluía o sal do oceano e brincava de derrubar as dunas salgadas, mais da solidão da ilha do que mesmo do sal deixado pela evaporação da água, esquentada pelo sol do Sol.&lt;br /&gt;Pensamos pelas pernas e pelos passos do mundo, como se deuses da vida fôssemos. Há de existir os engolidos e os engolidores e jamais podemos esperar as lágrimas do sol, nem privar que a natureza, para ser-nos bela, tenha que fazer o que queremos. Cada homem tem dentro de si tubarões imensos e peixinhos inocentes e multicoloridos. Viver carece ordem, posicionamentos, aptidões e, acima de tudo, grande gestos de amor: é por isso que criei esta lenda cheia de sol e de sal, tudo para nos alertar sobre o que de imprestável fazemos com o mundo, quando usamos de nosso egoísmo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115909916332933380?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115909916332933380/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115909916332933380&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909916332933380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909916332933380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/princesa-da-ilha-do-sal.html' title='A Princesa da ilha do Sal.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115909877300718860</id><published>2006-09-24T04:47:00.000-07:00</published><updated>2006-09-24T04:52:53.013-07:00</updated><title type='text'>Pai e Amante.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/edipo.0.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/edipo.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Escrevi ao vento, todo o silencio precisei que de mim, viajasse rapidamente e apenas lá na frente, bem lá na frente, onde já se enxerga a distancia consumida pelos passos dados, voltasse tudo o que havia escrito antes e, agora, remoído pela reflexão, não me permitisse mais escrevê-lo de novo. É que, às vezes, a emoção vence os músculos da mão e a gente fala nas palavras escritas o que nosso coração queria apenas sentir guardado. Fazemos o que não nos é permitido fazê-lo.&lt;br /&gt;Remôo a tristeza da palidez de certas tempestades infelizes que aparecem vez em quando, como se quisessem molestar nossos momentos felizes. Chegam-me ansiosas, incongruente agarradas, avassalado, no pó da estrada, as marcas das pegadas, destorcendo as rotas, desequilibrando o corpo. O coração fica contido a sentir o  indesejável sendo desejado perigosamente.&lt;br /&gt;Mas a gente cresce, evolui espiritualmente e aprende a distinguir os abraços fiéis, os sorrisos saudáveis. Outrora, já enfrentei velhas e barulhentas tempestades de areia, ventos endemoninhados, paragens de extremas rudezas, largos caminhos cheios de espinhos entre as pedras dos abrolhos de mares salgados demais para os meus olhos. Se ainda me resta sentir o cheiro nauseoso do mal redondilhando à casa da memória, minha alma, agora forte e vivida, transforma tudo o que chega em mansos ventos – brisas transformadas – , que não me sufocam mais.&lt;br /&gt;Ainda não me é finito o cansaço que me assolou mais fortemente ontem, quando me imaginei o rei do mundo, único dono dos sonhos que sonhei acordado antes de achar sequer o quarto onde devia deitar-me para o repouso e a reflexão.&lt;br /&gt;Meu amor era o teu amor de forma diferente; gostosa brisa mansa, cheia do perfume de campo, gostoso de sentir-se no fim de tarde, quando apenas o cansaço do laborão diário  nos permitia, sentados um ao lado do outro, falar um pouco de nós – tão pouquinho que o dia já se escurecia e nossa conversa acabava. Aí íamos correndo ao pecado dos outros, tão natural para nós dois sem o mundo por perto.&lt;br /&gt;Lembro o velho sobrado onde morei – no planalto do engenho, quase em frente ao dos teus pais. Tu eras belíssima com tuas tranças bem apertadas, juntas em circulo, sem se achar delas, cabeça ou ponta. Comecei a admirar-te nesses dias, olhando apenas teus cabelos. Depois vi teus olhos pretos, fugidíos dos meus, medrosos como as ágeis andorinhas que cobriam os fios no fim das tardes de verão. Nosso amor ainda seria repatriado e eu nem podia sofrer; continuei a desejar-te minha, só minha, a viver entre os dois casarões dos engenhos. Teu destino estava traçado, teu lugar não me caberia junto, nosso amor ainda era apenas um belo conto de fadas.&lt;br /&gt;Lembras o primeiro beijo que te dei? Minha mão direita não pôde ser lavada por toda aquela noite e o resto do dia seguinte. Imaginei que não poderia cruzar em nossas vidas qualquer dificuldade e que o labirinto de antes agora estava desfeito – havias me aceito como teu amado, quase amante.&lt;br /&gt;Não te imaginei como mulher, como amante, como filha, mas apenas como um sonho demorado que se iniciava. Eu alimentava uma vontade profunda de ser teu – tu seres&lt;br /&gt;minha – duma forma diferente,  porém ainda mal definida dentro dos meus sentimentos. Nem sabia direito o que queria de ti, quem eras àquela altura dos fatos.&lt;br /&gt;Era uma sexta-feira chuvosa quando tua mãe morreu. Sempre esperei enviuvar primeiro, porque, quando nos casamos, ela era mais velha que eu quatorze anos. Foi um escândalo. Teu tio Jorge não queria jamais que isso nos acontecesse. Mas quando nasceste – minha linda primogênita – , ele aquiesceu os ânimos e passou a falar comigo e com a irmã. Tua mãe ficou feliz; o jantar que ela deu para teu tio foi farto. Refeitas as amizades, restava-nos curtir teu crescimento, ensinar-te os primeiros passos, admirar-te.&lt;br /&gt;Como a vida dá voltas complicadas, desestrutura o que é constituído  socialmente, as convenções! Eu me lancei sobre a labareda da fogueira viva; queimei toda a família comigo, risquei o comum de se ver, não prestei atenção à vida do outro lado dos meus sonhos.&lt;br /&gt;Tu cresceste faceira. Aos nove anos já tinhas corpo de moça grande, preparada para o casamento. O casarão olhava para o outro. No maior deles apenas eu, tu a criadagem e os gordos morcegos bailarinos do finzinho da tarde. Foi quando comecei a sentir o mormaço do pecado vindo, pondo vozes aos meus ouvidos, encobrindo as regras, pedindo para que eu pecasse; quando eu te cobria com o mesmo cobertor, saltavam de mim múltiplas fagulhas obscenas que driblavam tua inocência para encontrar o teu corpo; e tu me abraçavas tão feliz e eu, loucamente apaixonado, desviava minha paternidade e jogava-me molhado às tuas costas quentes, cheirosas, como se o pecado entre nós pudesse ser alimentado naquele quarto, naquelas noites chuvosas e frias de inverno no engenho, sendo eu teu pai, tua mãe, teu amante...&lt;br /&gt;_Nunca notei esse seu assedio, Arsênio.&lt;br /&gt;Mas eu nunca te permiti me ver como pai nessas horas – apenas como um amiguinho...; não te digo, nada me parecia definitivo, mas apenas começado. Gostava de observar-te com teus treze aninhos – época do meu primeiro bote – correndo em frente à casa grande. À noite duplicava teus treze,e os vinte e seis me serviam sob o lençol. Lá fora ninguém podia pensar qualquer maldade. Gostavas do que eu te presenteava. Nunca assisti a repulsa sua. Por isso nunca te deixei chamar-me de pai.&lt;br /&gt;_Acostumei-me a esses tratos seus e não sabia  mais quem eu era. Deixei que tudo continuasse do jeito que estava. Não posso negar que achava bom o recebido. A consumação de tudo foi que  não aceitei e por isso gritei, corri de porta a fora e, quando tio Jorge correu para me acudir e perguntou-me acerca do acontecido – menti, única forma corajosa que encontrei dentro de mim para não lhe falar nossa verdade. O mundo cairia sobre nós e eu, sua cúmplice, trazia sobre os ombros muito peso. Eu me fiz de desentendida, respondi a ele com outra verdade.&lt;br /&gt;Hoje minha velhice contempla tua maturidade. Não para mais acompanhar teus passos, mas me alegro em ver que és como Esmeralda, fiel ao teu dono, solícita, guardiã, cuidadosa a zelar por teu pai, velho, amarelado, feito fruto de safra.&lt;br /&gt;_Não sei quem sou, meu velho; estou  no mesmo iniciozinho deste antigo labirinto. Desalmada, sinto que tenho uma alma bonita, opressa dentro de mim. Se disesse que conseguiria ser feliz longe de você estaria mentindo.&lt;br /&gt;_Logo, logo estarás livre desse pesadelo. Meus anos de vida correram mais apressados que os teus. O pecado de antes pesa demais aos ombros. Sinto que minha via-crúcis  me enterra na areia movediça de todo caminho que cruzo. Quando eu for embora, não&lt;br /&gt;deixe que  outros saibam o que fomos. Deixa que com o mundo fique a história de pai zeloso, da filha que abdicou de viver sua vida para zelar pela dele. Teu tio Jorge morreu e não soube. Mataria a  mim se  tivesse  sabido um dia.&lt;br /&gt;_Pai,  segredo não há para três. A nega Zefa sabe tudo dentro dessa casa. Ela nos olha por baixo envergonhada  como se não quisesse que soubéssemos que ela sabe muito de nós.&lt;br /&gt;Papai morreu seis meses depois. Velaram-no como se dentro do féretro houvesse um santo. Meu choro foi de arrependimento. Doei todos os bens para arquidiocese e quis envelhecer e esperar que a morte chegasse, nos confins de Minas Gerais, em um convento situado em um planalto que sempre enxergava  nos meus pesadelos. Parecia que conhecia aquele lugar como a minha própria casa. Quando sonho com ele, ainda me chega um forte prazer na carne. Nem sei o que ele foi melhor: se pai ou amante.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115909877300718860?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115909877300718860/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115909877300718860&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909877300718860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909877300718860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/pai-e-amante.html' title='Pai e Amante.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115909807892288086</id><published>2006-09-24T04:30:00.000-07:00</published><updated>2006-09-24T04:41:18.946-07:00</updated><title type='text'>A Sentinela.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/manguaba2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/manguaba2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;A Manguaba estava acesa pela lua cheia e lá íamosnós à sentinela do Ranílson, na casa da velha LimaSoares. Na descida, parecia que dos nossos passos,carregando nossos corpos, mandavam os olhosenxergarem a cidade lá embaixo, como quemisteriosamente subindo por entre o matagal verde que ciliava o pedaço de mata fechada entre os escassos casarios da chegada. Tudo parecia vir ao nosso encontro como se voando lento, simulando uma aproximação incrível. E paulatinamente íamos ficando mais perto dos telhados das casas, enxergando seus quintais, graças ao espetaculoso brilho do luar.&lt;br /&gt;Ainda estávamos a um bom pedaço de caminho para chegarmos lá, e já ouvíamos o som do palavrório, inentendivel ainda, mas característico pelos agudos e graves da algazarra fúnebre.&lt;br /&gt;Calhaus perdidos por entre a estrada nos faziam descer a serra em serpentina. Sabíamos, eram como festas engraçadas, já que em Pilar, às noites, não dispúnhamos de ofertas de lazer. Tempos idos, velhos tempos, diferentes dos de hoje em que me encontro com o outro tempo de rememória e escrevo este conto com vontade de eternizar a festa de mistérios acerca da celebração dos mortos nordestinos – a famosa sentinela.&lt;br /&gt;_Quem é o defunto?&lt;br /&gt;_Ranílson, pescador.&lt;br /&gt;_Morreu de que?&lt;br /&gt;_Cachaça muita no rabo!&lt;br /&gt;_Eita, essa bicha quase todo mês leva um pras terra dos pés juntos.&lt;br /&gt;Uma grande latomia. Na pequenina janela da frente, coberta de gente por fora e por dentro da casa, uns três comiam bolachas com café. Sentia-se o cheiro forte do álcool no oitão da casa; a aguardente era servida aos borbotões, como se o velório carecesse de seus efeitos para dissimular a tristeza que a morte traz. Essa não! Via-se era grande festa cheia do povo da vizinhança e uns tantos outros que vinham até de longe. Bebia-se e comia-se sem dó do morto que, frio e lívido, estava longe dos sentidos dos vivos. Um só não se via ao lado da urna. Sempre estavam por perto vários presentes, um encobrindo o medo do outro, coisa que talvez fizessem inconscientemente.&lt;br /&gt;_Ele era tão bom pra mim, meu Deus..., o que será de mim agora..., sozinha, sem ninguém, pobre de Jô...?&lt;br /&gt;_Num grita não, mãe, precisa isso não. Histeria da gota!&lt;br /&gt;_Respeita teu pai, menina, choco e frio aí dentro dessa desgraça de caixão ...&lt;br /&gt;A noite era curta e fria. A alegria dos convidados espontâneos fechavam-na com a alegria de sempre. Chegada a hora do enterro, apanhavam a tampa do caixão encostada na porta de entrada da casa. A latomia aumentava, e o antes controlado choramingo de repetição se fazia gritos alardeadores. Dali e de acolá ouviam-se os berros. Era um Deus nos acuda tremendo.&lt;br /&gt;Eu já estava bêbado de sono, doido que já enterrassem o defunto para retornar, tomar um bom banho e dormir até umas horas. Descansar! Estava realmente cansado. Os olhos não respondiam mais à minha vontade de manter-se na vigília.&lt;br /&gt;Fecharam o esquife. A viúva desmaiada era socorrida pelas filhas. Ouvi quando Genésio falou:&lt;br /&gt;_Essa fia do Ranílson é boa feita a peste.&lt;br /&gt;E a jovem elegante, se triste ou não, após ouvir o elogio, descuidou-se um pouco da mãe e voltou-se para o autor das palavras jogadas ao vento como se a quere agradecer-lhe, com um discretíssimo sorriso.&lt;br /&gt;Ladeira abaixo levaram o esquife nas alturas dos ombros seis fortes homens. Foram apressados. A casa do defunto ficara para trás, imunda de pó de bolachas e copos e xícaras, além dos tambores dispersos pelo terreiro. Contei uns oito deles. Canecas e copos passavam de dúzia. Alguém varria a passos curtos da cozinha para a sala – direção obrigatória na crença mística do povo pilarense, quando se varria a casa de um defunto.&lt;br /&gt;Quando a noite chegou, novamente cedo a lua imensa deitou-se no espelho d’agua lagunar. Um espetáculo absolutamente diferente do outro.Fez-se uma poesia à lua, à noite, à lagoa e a um bagre viçoso encantado nas águas que vez por outra pulava dela talvez lutando para sobreviver das garras doutro peixe maior ou, quem sabe, querendo beijar a lua linda que faroleava nas águas da Manguaba. Nada de funeral agora. Alguém acreditou na serenata e, lá na casa de Glorinha do senhor Herculano, sob a primeira janela alta do casario, viam-se os três rapazotes enamorados, um deles sem se saber ao certo qual, apaixonado pela filha do dono da casa. E a lua sorrindo acompanhava de perto a outra alegria, diferente, bem diferente da outra, lá da sentinela.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115909807892288086?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115909807892288086/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115909807892288086&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909807892288086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115909807892288086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/sentinela.html' title='A Sentinela.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115850202382815267</id><published>2006-09-17T06:57:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T07:07:03.830-07:00</updated><title type='text'>Um Acidente.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/pedinte-1.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/pedinte-1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Os pneus frearam bruscamente e o carro arrastou-se freado, gritando muito, até o fim do quarteirão. Acho que andou assim por mais de cem metros. A rua escura, brumada, tão escura que não se via bem alguém a poucos metros de distância. Eu não vi o mendigo dormindo sob um grosso cobertor escuro, do outro lado da calçada, sob a marquise duma loja de calçados. Parecia morto.&lt;br /&gt;Na rua não havia ninguém mesmo; deserta e silenciosa; silêncio quebrado apenas pela freada exagerada do automóvel no asfalto.&lt;br /&gt;Desci do automóvel, meio atônito com a pancada que o carro havia dado, não em mim, mas no pedestre apressado que tentou cruzar a rua.&lt;br /&gt;Olhei lá para os lados do corpo e nada vi direito. O álcool ainda embaçava meus olhos e não sentia firmeza nos passos. Os dois plantões noturnos seguidos que havia dado na clínica, junto à bebida tragada, os dois, creio, deixaram-me assim. Os faróis do carro  permaneciam acesos e sua porta dianteira, do lado do motorista, aberta. Apressei os passos no que pude, até chegar e ver o corpo agonizante de um homem de meia estatura. Escondi-me por trás de uma pilastra grossa de uma loja; é que ouvi outros passos apressados vindos da calçada da rua perpendicular à que estava. Passos secos de alguém curioso que talvez tivesse ouvido o grito da freada brusca. Sem saber quem era o tal, preferi esconder-me por um instante, até os passos passarem e seu dono não me alcançar com o olhar.&lt;br /&gt;Um homem alto, alvo, macérrimo, parecia preocupado com algum acontecimento recente que tivesse presenciado. Meu coração disparou, como se quisesse sair pela boca; a pressão arterial subiu. Senti pelo calor que me atingiu a face. Quieto permaneci a tudo ver.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;_Mataram o coitado!&lt;br /&gt;O corpo ainda tinha vida e o homem só veio notar quando, de cócoras, ao apanhar a mão do acidentado, ouviu seu gemido de socorro.&lt;br /&gt;_Coitado ..., não morreu ...&lt;br /&gt;O homem se debruçou a ajudar a vítima, tão entretido que eu pude deixar o local sem ser visto por ninguém. Quando entrei no carro e liguei o motor, pela distância e pela cerração da rua, não pôde reconhecer mais a placa. Voei até meu apartamento.&lt;br /&gt;Setenta e duas horas depois do acidente, estava dentro de minha rotina de médico plantonista, ouvindo o colega que saía e passava casos clínicos para mim. Havia vários leitos vagos. Deveria ter um plantão tranqüilo. E foi quando ouvi:&lt;br /&gt;_Esse coitado foi acidentado por um carro em alta velocidade, dirigido por um sujeito embriagado, próximo aqui à clinica.&lt;br /&gt;_O que sofreu?&lt;br /&gt;_Fraturas expostas, perdeu o olho direito e tiveram que amputar a perna esquerda. Mas parece que apanharam a placa do carro do bêbado.&lt;br /&gt;_Como pegaram?&lt;br /&gt;_Um mendigo que dormia sob uma marquise, fingiu ressonar e, de olhos bem abertos, conseguiu ver o motorista do carro e anotar a placa.&lt;br /&gt;_Estou frito!&lt;br /&gt;_Como? O que você falou?&lt;br /&gt;_Nada ..., é que estou muito cansado e os poucos internos deverão dar-me bastante  trabalho no plantão.&lt;br /&gt;_Que estranho! Você se comportou como se ...&lt;br /&gt;_O que você está pensando?&lt;br /&gt;E assim me foram passados os onze prontuários dos internos. Daquele instante em diante não consegui mais raciocinar. A noite me foi outro barulhento acidente.&lt;br /&gt;Quinze dias depois do dito plantão, quando retornei para mais um deles, haviam dado alta ao acidentado. Senti uma vontade estúpida de ir ter com o mendigo da marquise da loja, e à meia noite, quando troquei o plantão, fui até lá.&lt;br /&gt;_Boa – noite, senhor ..., não está com frio?&lt;br /&gt;_Tô não. Já me enrolei. O senhor é quem parece está mais enrolado!&lt;br /&gt;_Por quê?&lt;br /&gt;_Quase matou o coitado do homem.&lt;br /&gt;_Eu? O que o senhor está me dizendo?&lt;br /&gt;_Só não lhe entreguei para a polícia porque senti dó do senhor também.&lt;br /&gt;_E o senhor me conhece?&lt;br /&gt;_Quando estive interno por coma alcoólico lá na clínica das Palmeiras, você é quem me recebeu em quase todas as vezes. Tratou-me bem. É um sujeito bom.&lt;br /&gt;_Meu Deus!&lt;br /&gt;_Fique tranqüilo: dei a placa errada e a marca do carro também.&lt;br /&gt;_Quanto lhe devo, bom mendigo?&lt;br /&gt;_A mim, nada,  mas ao acidentado, a esse sim: sabe a verdade.&lt;br /&gt;_Quem? Sabe o quê?&lt;br /&gt;_Ele é um coitado que nem eu. Naquele dia tinha ganho a roupa completa de um homem que havia morrido na semana passada. A viúva gostava de nós. Coitado! Quase embarcou. Ele é um mendigo como eu. A família vai lhe procurar. Sem estardalhaço. Mas, seu carro, ao menos, isso eles vão querer ficar. Agora vá. Vou dormir. Estou com sono.&lt;br /&gt;_Mas o senhor ..., que eu pensei que tivesse sido bonzinho comigo...&lt;br /&gt;_Preferi ser com o colega, o outro. Precisa muito mais do que o senhor, doutor Reinaldo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;_E sabe o meu nome?&lt;br /&gt;_Não durmo vinte e quatro horas por dia e sou seu cliente, se esqueceu?&lt;br /&gt;_Que mendigo mais esperto!&lt;br /&gt;_Também!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115850202382815267?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115850202382815267/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115850202382815267&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850202382815267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850202382815267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/um-acidente.html' title='Um Acidente.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115850143371418729</id><published>2006-09-17T06:49:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T06:57:13.716-07:00</updated><title type='text'>Homens Diferentes.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/7396003_Homembomba.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/7396003_Homembomba.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Atravessei o longo corredor entre tantos blocos de edifícios; trazia comigo o mistério revelado e nada estava errado. Passei na residência de Abdulah e ele, já na porta, me esperava sorridente porque sabia que nossa missão era, além de nobre, santa.&lt;br /&gt;Éramos seis. No local e hora marcados, chegamos com exatidão. Para não causar qualquer espanto às autoridades, nos separamos, mas sempre próximos um do outro e do local.&lt;br /&gt;Lembrei-me do filme que havia participado junto aos meus pais e minha irmã. Meus outros três irmãos já haviam viajado após cumprir a mesma missão para a qual estávamos prontos. Eles me abençoaram e me desejaram sucesso.Não houve choro; sabiam que nós nos encontraríamos mais à frente. A bandeira que defendíamos era bem maior do que todos nós reunidos.&lt;br /&gt;Quando faltava meia hora para o meio dia, notamos que a cidade barulhava bem mais do que na hora em que lá chegamos. Os transeuntes corriam de um lado para o outro como máquinas. A polícia atenta olhava para os quatro cantos da imensa praça – uma das principais da cidade. Os últimos acontecimentos nela observados exigiam cuidados redobrados com a segurança.&lt;br /&gt;Entre trocas de olhares, nos reunimos outra vez. Mochilas às costas, o livro sagrado às mãos, firme propósito de acertar e muito pouco nos faltava. Checamos tudo e decidimos nos afastar um do outro. Adib foi para a estação norte, eu para a saída do metrô sul e assim, um a um, tomamos nossas posições estrategicamente.&lt;br /&gt;Faltavam ainda alguns minutos e já estávamos longe um do outro. Todos felizes, apenas Nagib parecia triste. Como esse sentimento não podia nem sequer aproximar-se de nossas almas, não quis acreditar no que meus olhos viam. Deixei-o ir como se estivesse com o mesmo sentimento que o resto do grupo. Éramos seis voltados para uma única causa.&lt;br /&gt;Ao meio dia – apenas um minuto para a hora exata, houve cinco grandes explosões. Quase oitenta mortos, centenas de feridos, sirenes gritando na histeria do rastro que o terror havia deixado. Missão cumprida! A praça virara um inferno.&lt;br /&gt;Sob a pequenina árvore em frente à igreja da praça, Najib havia deixado seu colete carregado de explosivos. Não sentira firmeza em ser o sexto homem bomba a defender Alah. Menos ruim. Haviam se salvado um corpo e uma consciência. Cinco tolos se destruíram para destruir inúmeros inocentes.&lt;br /&gt;Até à noite o movimento na Trafeguar Square não parou: apenas diminuíra. A polícia fechara todos os acessos a ela. A revista aos transeuntes nas suas redondezas havia se multiplicado por dez. Londres vivia o terror, agora não o do IRA, mas de mulçumanos programados para morrer e matar em nome da guerra santa. Pobres homens adormecidos da verdade. Lutavam em vão; nada lhes sobrava de bom.&lt;br /&gt;As famílias se vangloriam de seus homens-bombas, tidos como seus heróis. Acreditam que, agora como mártires, eles vão interceder junto a Alah pelos seus. Sujos de pólvora?&lt;br /&gt;A igreja estava aberta na hora das explosões. Nagib, ao livrar-se dos explosivos, a escolhera para, adentrando, esconder-se da multidão em pânico. Dirigiu-se a um dos vértices escuros laterais ao altar-mor. Encontraram-no de cócoras, ensangüentado e morto. Cortara os pulsos. Envergonhado por não ter cumprido a promessa feita ao grupo, resolveu tirar sua própria vida, às escondidas, mas livrando outras tantas da morte. Deveria ter detonado as bombas no interior da principal estação de metrô da praça, local de maior concentração de passageiros àquela hora.&lt;br /&gt;Os pais de Nagib foram morar no Irã. Envergonhados pela atitude do filho, viajaram dois dias depois das explosões. Não era pai de um mártir, mas de um fracassado da fé.&lt;br /&gt;Como cristão, agradeço a Deus ter deixado tão frágil a fé de Nagib e, com isso, poupado a vida de tantos inocentes. A praça continua amedrontada, só não podemos dizer até quando.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115850143371418729?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115850143371418729/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115850143371418729&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850143371418729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850143371418729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/homens-diferentes.html' title='Homens Diferentes.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115850093503748117</id><published>2006-09-17T06:39:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T06:48:55.040-07:00</updated><title type='text'>Surpresa Ingrata.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/morte.gif"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/morte.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vim morar em Maceió, senti profundamente ter deixado para trás, longe daqui, lá para as bandas do sul, meu grande amigo Renan. Vim aceitando um convite da universidade para lecionar uma determinada matéria no curso de graduação em Psicologia.&lt;br /&gt;Chegando, a primeira pessoa que conheci fora justamente um dos professores da cadeira de psicologia, doutor Everton. Sujeito humilde, muito culto, solícito e que logo conseguiu ambientar-me no novo núcleo de amizades a que tive acesso.&lt;br /&gt;Renan e eu mantivemos um bom fluxo de correspondência. Certa vez, ele, de férias na Paraíba, ligou-me; era o finalizinho do ano e estávamos todos nos preparativos para o reveillon.&lt;br /&gt;_E aí, amigão, passaremos ou não a virada do ano juntos?&lt;br /&gt;_Eh ..., está em cima da hora....&lt;br /&gt;_Não senhor! Arrume tudo e venha. O hotel, nós dividiremos aqui. Veja aí papel que vou dar-lhe o endereço. É onde já estou hospedado. Aguardo você .&lt;br /&gt;Tive um problema de certa forma desagradável com meu amigo Everton. Ele queria ir comigo e eu, infelizmente, não o  pude levar. Era final de ano, família reunida, ele não conhecia Everton. E assim  eu fui sozinho. Tivemos uma boa estada na Paraíba e pudemos matar a saudade acumulada. Nossas famílias eram bastante unidas.&lt;br /&gt;Aproximadamente dois anos após essa data, recebi Renan em Maceió; já estava morando melhor e fiz questão de hospedá-lo. Aproveitei para apresentar a ele o outro amigo. Fizeram uma boa amizade. Passaram a corresponder-se também regularmente, como ele e eu. Estreitaram a amizade e entre nós três, agora, havia apenas uma trindade amiga.&lt;br /&gt;Ouvi Renan jogar muitos elogios a Everton. Sempre me dizia que ele era um sujeito muito bom, preparado para a vida, além de culto e um psiquiatra de mão cheia.&lt;br /&gt;Estive aqui em novo ninho de amizade e de convivência e iniciei a cata de outras novas amizades e não posso queixar-me das tantas que fiz. Minha amizade com Renan sempre arrumava motivos para se fortalecer ainda mais.&lt;br /&gt;Lembro-me de que era setembro quando recebi o telefonema. Soube que a mãe de Renan havia morrido e iria ser enterrada em Erechim. Providenciei passagem aérea, transferi compromissos e arrumei a mala de viagem. Lembrei-me de ligar para Everton e contar-lhe do acontecimento.&lt;br /&gt;Se eu pudesse iria com você até o Rio Grande do Sul. Mas não posso. Diga-lhe dos meus sentimentos e que estarei catando um dia de folga para ir vê-lo. Iremos juntos.&lt;br /&gt;Estive com Renan entre lágrimas emergidas de profunda tristeza. Achei-o meio abatido,cor enxofrada, certo cansaço ao articular as palavras. Perguntei-lhe sobre sua saúde e não me acrescentou muita coisa.&lt;br /&gt;_Estou bem, amigo,apenas triste com o luto.&lt;br /&gt;Retornei dois dias após o enterro e prossegui com o laborão  diário. Convenci Everton de que deveríamos fazer, no final do ano, uma viagem de férias por uma semana até Erechim. Um mês depois de tudo acertado, recebi a  feliz notícia do próprio Everton de que ele estaria indo morar na cidade pernambucana de Bonito. Que bom! Gastaríamos menos tempo e  dinheiro para passarmos o reveillon com ele e sua família.&lt;br /&gt;Fomos de carro primeiro até Recife, onde nos hospedamos. Em vinte e nove de dezembro resolvemos que seria melhor se avisássemos a ele sobre nossa decisão. Não seria bom chegarmos nós, duas famílias, e encher sua casa. Como a cidade era pequena, temíamos que não houvesse hotel ou pousadas para nos abrigar.&lt;br /&gt;Pedi a ligação telefônica. Do outro lado, a linha nada de desocupar-se. Tentamos muito até que conseguimos falar.&lt;br /&gt;_Alô, é da residência do doutor Renan?&lt;br /&gt;_É! Quem fala?&lt;br /&gt;_Amigos dele.&lt;br /&gt;_Pode deixar o recado comigo que passarei à esposa dele.&lt;br /&gt;_Diga-lhe que é de Maceió. Chame-a!                  &lt;br /&gt;Ela está sem poder atender ligações.&lt;br /&gt;_Quando lhe disser que é o Dilmar, atenderá.&lt;br /&gt;_Queira aguardar,senhor.&lt;br /&gt;Sua voz estava chorosa,sem a costumeira gargalhada de felicidade de quando falávamos ao telefone. Algo deveria ter-lhe acontecido. O quê?&lt;br /&gt;_Eveni?&lt;br /&gt;_Dilmar  querido!&lt;br /&gt;_Como vai?&lt;br /&gt;Senti-a mais triste ainda. Era estranho.Estava chorando, pude crer pelo barulho que fazia ao limpar o nariz e alguns soluços silenciosos que ouvi. Sentia alguma forte dor em sua alma.&lt;br /&gt;_O que houve, amiga? Estou indo até aí, passar o reveillon com vocês. Tudo bem ?&lt;br /&gt;_Enterrei Renan ontem. Vocês não sabiam?&lt;br /&gt;Postergamos o reveillon para alguma outra data, dessa vez no além, sem ventos ou tempestades, onde todos nós possamos estar reunidos em torno de uma grande amizade. Afinal, nem tudo costuma acontecer como nós queremos ou programamos. Restou-nos um final de ano enlutado, sem direito a qualquer lembrança alegre. Nosso amigo era uma jóia rara de achar-se.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115850093503748117?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115850093503748117/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115850093503748117&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850093503748117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850093503748117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/surpresa-ingrata.html' title='Surpresa Ingrata.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115850035415758969</id><published>2006-09-17T06:31:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T06:39:14.160-07:00</updated><title type='text'>Diva.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/diva.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/diva.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher, velha e carinhosa, ousava no seu cotidiano demorar-se assentada à porta de seu casebre por horas, a entrelaçar linhas multicoloridas, tecendo peças bonitas de desenhos arcaicos; tantas calosidades nas mesmas mãos a que, antes fidalgas, não  caberia o repuxo do exercício forçado da sobrevivência, mas apenas beijos e afagos. A mulher estava a viver agora um outro tempo bem diferente do de outrora.&lt;br /&gt;Pai rico, filho nobre, neto pobre. Não me lembro de quem  disse essa frase antes, mas sei que a disseram e já faz tempo; eu, quando menino, cansei de ouvi-la sair por entre os lábios de papai, como se fora uma simples lição para se guardar firmemente na alma.&lt;br /&gt;Diva preparou-se para casar. Seu baú continha as preciosidades raríssimas que só as prendadas moças da vila podiam ter. Ajuntavam-se ao seu redor espólios de palavras e  pequenas fortunas; Diva mais que uma diva, dama o era de infeliz espera, acoitada nos abraços de perversa solidão.&lt;br /&gt;Os velhos cansaram de esperar pelo futuro dela; casaram-se os seis outros filhos varões; Diva permaneceu aquietada e triste a cumprir as ordens castradoras cultivadas pela sociedade da época. Vestido longo, meias de seda, terço às mãos, missa aos domingos; sorrir só junto dos seus, nas raras festas de fim de ano, quando se acreditava que o respeito nascia e morria  entre os familiares; lá fora, nas estradas do mundo, rondavam os perigos do desvirginamento e da sedução demoníaca, o que se devia evitar a ferro e brasa.&lt;br /&gt;Por que não posso ir a Recife cursar Odontologia, papai?&lt;br /&gt;Filha minha não se presta a isso, Diva. É lugar longe, cheio de perigos para uma donzela.&lt;br /&gt;Restou-lhe o seminário no Colégio Sacramento. Neste, consumiu sua infância, mocidade  e parte de sua vida adulta. Saiu dali com um minguado curso pedagógico e fora direto para a fazenda dos pais,  no longínquo interior de União dos Palmares, ensinar no grupo escolar mantido em meias partes por seu pai e o prefeito da cidade.&lt;br /&gt;Quando os anos de desesperança romperam a linha de certo horizonte e os velhos, adoentados, mudaram-se para a cidade, a fazenda foi tomada pelos irmãos em feroz  gesto mesquinho. Restou-lhe cuidar dos cacos de pais, assentados agora numa pequenina casa à Rua do Cangote, esquecidos do fulgor do passado, perdidas as grandes amizades – morando em um mundo diferente do que lhes era merecido.&lt;br /&gt;Va chamar o padre Clóvis, minha filha.Seu pai quer vela. Sua alma já está soluçando de agonia, morre já. Cuida, cuida e vai!&lt;br /&gt;E meus irmãos, mãe?&lt;br /&gt;Se os encontrar por aí, faça o favor de avisá-los; talvez  queiram partilhar do valor do féretro. Nós  teremos que nos endividar para cumprir com esse último gasto. Há um certo destino que escreve tudo.&lt;br /&gt;Ai, mãe, que família diferente de outrora...&lt;br /&gt;A vida nunca deixou de pôr atalhos entre as boas estradas; o desejo dos homens é labirinto perigoso que os leva a perderem até suas próprias almas. É assim..., nosso velho tem nós duas ainda.&lt;br /&gt;A unção dos mortos foi dada, e o coronel Batista pôde ser levado de favores por vizinhos e dois dos seis filhos varões. O féretro balançou leve entre os quadris dos generosos que, de chapéus à mão, contavam pedaços das histórias da vida vivida pelo corpo esquelético morto  que agora, como jamais desejara, era apenas servido. O remorso dos filhos os emudeceu e, a passos secos e iguaizinhos aos dos demais, cumpriam a última e piedosa missão que  os vivos devem fazer  para com seus mortos.&lt;br /&gt;Esse velho foi um homem sério, ajudou a muita gente, elegeu muitos políticos que só vinham à sua procura em época de eleição. É isso mesmo! A gente morre e torna-se o defunto mais miserável do mundo.&lt;br /&gt;Não havia mais do que vinte acompanhantes no enterro. Diva e sua mãe, as únicas chorosas, profundamente tristes. Do cemitério, os dois solicitaram a bênção da mãe e se foram. Apenas elas permaneceram no mesmo cantinho dos últimos dias onde o velho coronel Batista viveu, pobre e desprestigiado, apenas mastigando ardosa solidão que o matava a cada dia, pingo-a-pingo.&lt;br /&gt;Dois anos depois morreu a velha. Para ela, as vizinhas da rua se reuniram para rezar um terço comprido que varou a noite, até que a alma saisse do corpo da matriarca. Diva alisava-a conformada com a idade cheia de amor de sua mãe, mas sentida pela qualidade de seu fim – últimos dias cheios de pobreza, quase miséria: o que antes não se pensava, o destino ser-lhe-ia capaz de doar.&lt;br /&gt;Quando eu passo à frente da casa cento e dezesseis da ruazinha estreita daquela cidade, lembro a história do velho coronel Batista, homem influente, valente, generoso, cheio de vida. A história lhe reservou apenas esse conto singelo.&lt;br /&gt;Diva lhe sucede: sentada na velha cadeira de balanço feita de palhinha; no colo, dois ou três rolos de lã; entre os dedos, um tricotear ágil para ter de findar o dia com mais uma peça feita e poder sustentar-se de tudo. As mãos, magras e lisas, não escondem, antes mostram as dobras virgens de uma pele que nunca pôde levar aos braços os frutos da maternidade que poderiam ter-lhe saído do ventre.&lt;br /&gt;Soube por uma sobrinha velha de Diva que, antes de ela morrer,  teria dito: “Resta-me, quando chegar ao&lt;br /&gt;céu, cuidar do menino Jesus.” E virou-se para o outro lado do leito de morte, como se envergonhada do mundo onde viveu as dores das diferentes injustiças a que podem estar submetidos homens e mulheres. Diva faleceu aos oitenta e seis anos, lúcida, calada e triste, sem nunca haver perdido a esperança de algum dia encontrar o matrimônio.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115850035415758969?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115850035415758969/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115850035415758969&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850035415758969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115850035415758969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/diva.html' title='Diva.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115849988927178347</id><published>2006-09-17T06:25:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T06:31:29.276-07:00</updated><title type='text'>Outra Viagem.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/viagem.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/viagem.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi seguir meus passos, calmamente, deixando o sono manso adentrar minha carne preguiçosa que queria dormir. Lembro-me de um longo horizonte à frente dos meus olhos, ainda no intervalo inter-sono, rumo a sonhos tantos: um horizonte metafórico que queria correr atrás de mim, bem longe da vigília fria, porém, ainda cá, antes de sonhar profundamente. Meu espírito andou à frente de tudo. Ficava um e se ía sei lá quem!&lt;br /&gt;Escolhi acreditar e passei a não mais me ouvir, coisa assim como se me houvessem desprogramado e mandado embora deste mundo para um outro diferente. Pois então não me eram mais minhas as velhas palavras. A voz de ontem estava agora numa espécie de revelação, coisa estranha de entender-se, mas eu achava aquilo natural, o que não  deixava de ser mais estranho ainda: não era corpo nem alma: um sonho andante talvez, um caminho enveredado pela morte.&lt;br /&gt;Havia um tempo, sim, santamente disposto para, além de eqüidistar-me do real e palpável aos olhos, assegurar-me de que tudo era perfeito como um vôo que vence as mais altas altitudes e depois pousa manso  em lugar conhecido e pré-concedido. Achei graça no lendário viver, na musicalidade dos passos algodoados que certo dava sobre  nuvens que não eram as nuvens que faziam chover e brumavam o céu, e escondiam  até a lu- cheia.&lt;br /&gt;Minha hercúlea garganta apenas sussurrava. Uma gota aveludada de saliva morna desprendida de minha admiração caiu a misturar-se ao pó do limpíssimo ar que cortava o sonho sem barulhar muito. Quando o crepúsculo chegou, já me haviam travado todas as palavras na garganta e a apenas meus olhos era permitido dizê-las. Havia acabado de descobrir que meu sonho acontecia à noite e eu não era mais o mesmo de antes.&lt;br /&gt;Entre príncipes, fui pássaro voador, dos que sonham e gostam de sonhar. Meu corpo estava silencioso, deitado sobre o leito desforrado do quarto de Daniel. Vi que, naquele ambiente, nada me havia pertencido. Tudo era dele – confirmando-se ao olhar-se a moldura com seu retrato grudado atrás do vidro. Ele ainda era muito jovem quando o acidente aconteceu. Na noite de seu enterro, não consegui dormir sozinho no quarto. Fui dormir com mamãe, cheio de medo de vê-lo amarrado e ensangüentado pela fúria descomunal do automóvel que  havia se chocado com o trem veloz.&lt;br /&gt;A gente, quando sonha com essas coisas, continua a possuir uma sombra estranha. Juro que não encontrei o sol que, pondo-me em anteparo, pudesse criá-la. Mas o chão era sim um grande espelho quase dourado, cheio de brilho e cores as mais diversas.&lt;br /&gt;Descalço, sobre a  estrada de plumas, continuei a andar. Vi os primeiros pedaços de carne dele; sabia que eram seus , sem ter visto ainda sua face morta, adormecida no mesmo lugar por onde andava desassustado mas esquisitamente curioso para saber até onde chegaria. Ele havia sumido do mundo bem antes que eu.&lt;br /&gt;_Heitor?&lt;br /&gt;Talvez tenha sido a vez mais feliz que tenha ouvido o meu nome. Reconhecia quem era e isso fora a suficiência de minha feliz alegria: eu estava onde meu irmão estava também. E aí, eu havia morrido com ele? Mas não pude ver seu rosto: apenas sua voz próxima aos meus ouvidos atentos ao entendimento. A cama desforrada do seu quarto eu não a via mais: era o pretérito que  se achava dentro desse tal sonho, dentro dessa tal morte: tudo apenas uma viagem quase mágica.&lt;br /&gt;_Daniel, onde estamos?&lt;br /&gt;E ouvi então o vento falar por nós dois, dando  rajadas fortes – pressenti que a sua fúria era a proibição de nossa aproximação. Nossas almas não estavam preparadas para se abraçarem ainda. Mas o que eu havia visto eram pedaços de carnes desgrudadas de ossos, de cor  viva, sem cheiro, agarradas nos horizontes que corriam a atingir até minhas retinas curiosas.&lt;br /&gt;Chorei; chorei desmensuradamente. Olhei para baixo e avistei uma imensa mesa cheia de cadeiras, todas ocupadas por pessoas que nunca  havia visto antes. Nem imaginei onde poderia estar. O salão estava tomado por forte névoa alvíssima. Todos estavam cabisbaixos. Havia uma aura de paz e de sossego.&lt;br /&gt;Fui descendo de certa altura e aproximando-me do primeiro deles, justamente o que ocupava a única cadeira da cabeça da mesa. Quanto mais me aproximava, mais chorava a criatura. Era  como se eu houvesse entrado em um grosso tubo energizado, assim me vi sumir dentro do seu corpo. A partir desse momento reconheci os que estavam ali – era minha linda família. Eles não conseguiam ouvir-me, mas o senhor que, como um irmão, havia me sugado para dentro de si, pensava exatamente como eu e eram minhas as palavras que ele pronunciava ao ser indagado por todos. Éramos dois em apenas um corpo.&lt;br /&gt;_Ele está me dizendo que já se encontrou com seu irmão.&lt;br /&gt;_Estão bem?&lt;br /&gt;_Heitor, sim!&lt;br /&gt;_E Daniel?&lt;br /&gt;_Ele disse-me que havia encontrado sua voz, pedaços do seu corpo e o barulho forte de certa ventania que os separou.&lt;br /&gt;Quando desencarnei, mamãe ainda estava chorando. Eu, do outro lado, quando tentava aproximar-me dela, sentia que chorava ainda mais; consegui alisar-lhe a face – foi  quando desmaiou e eu fugi dali    remorsado de  certa culpa que ainda não conseguia entender.&lt;br /&gt;Acordei-me de mim, mas sem retornar para casa. Ouvi alguém falar-me que precisava ir. Para onde? Caminhos tão estranhos, sem casa, sem flores, sem água; foi quando me lembrei que desde o acidente acontecido vinte seis dias atrás, não havia comido nada.&lt;br /&gt;O vento retornou forte, o tempo brumou-se ainda mais e eu senti uma vontade forte de rezar. Se soubesse que tudo mudaria tão esplendidamente, rezar ser-me-ia a primeira coisa a fazer. Senti que o perdão é um amor vigoroso, que cura, que aninha, que carrega os melhores valores. Disseram-me:&lt;br /&gt;_Vamos aprender?&lt;br /&gt;E sem carecer contestar, deixei-me ser levado para uma alameda bastante linda. Até entrar no galpão grande de pé do vale, sabia  que havia morrido em um triste acidente. Após alguns anos, passei a ser capaz de visitar reuniões mediúnicas, aconselhar desencarnados apavorados e ainda a sentirem a dor da morte e fazer tantas outras coisas.&lt;br /&gt;Hoje já habito a oitava estação de luz. Já me é muito difícil saber quem é João ou Maria, Antônio ou Carlos. Estou na estação-liberdade, cheio de asas poderosas, mas desinteressado por pequenos vôos. Não tenho mais pais, apenas sou o pai e a mãe de tantos que, desgrudados das mentiras mundanas, chegam até nós, quase desalmados, carregados de tanto desamor, à procura de luz e de caminhos.&lt;br /&gt;Sou um sonhador decano. O pesadelo esteve em minhas festas do ontem; já não careço do sono; agiganto-me a sonhar. A oração é  o único veículo que me eleva a luzes fabulosas onde, já percebo pela fé,que  há nos meus novos olhos; é a casa de Deus, pai de Jesus, donos de todas as almas.&lt;br /&gt;Quando consigo lembrar-me de coisas muito antigas, ligadas aos bens que possuía, às imagens que me rodeavam e enchiam meu mundo carnal, sinto um estranho mormaço de instabilidade que nutre uma fuga enganadora e pareço estar com sono. Mas a pertinácia das almas iluminadas é  fecunda, e aí me lembro das orações e agiganto-me e vou ajudar  pares e ímpares, em soma infindável de cuidados. Toda oração ainda é-me  pouca.&lt;br /&gt;Depois que eu li esse relato numa  curiosa visita que fiz a um centro espírita, passei a ler mais sobre o Evangelho segundo o Espiritismo e me interessei. Não me é mais lógico ser agnóstico: é necessário caçar as palavras que ainda permanecem emudecidas no que devemos crer. A vida tem guardado para nós presentes tão perfeitos que, se andarmos sobre orações fortes e fazendo o bem, podemos alcançar. Continuo a crer que os céus não possuem limites entendíveis apenas pelas coisas da carne. Os homens devem procurar os caminhos reveladores do bem e passar a acreditar no que lhes chega mais dogmático do que real. Há, dentro de nós, certos fantasmas delinqüenciais, sem poder para criar juízos benévolos que, provindo de onde quer que seja, só querem nos presentear com a solidão ignorante dos que nada buscam de novo na verdade e conseguem nascer quase mortos. A encarnação deve ser suficientemente santa para ensinar ao espírito, em suas múltiplas e vindouras reencarnações, que apenas Deus é a absoluta verdade e está em todo o bem. Os caminhos, bons ou ruins, estarão à frente de nossos olhos, empurrados  por nossos corações, que, a depender do instinto selvagem ou da benevolência das traduções da alma, levar-nos-ão a esses ou aqueles lugares;  A reencarnação é a possibilidade que Deus nos dá para reconsertarmos nossas cruzes  e edificarmos o significado do nosso amor próprio, aquele que geramos com nossas obras, nossas dádivas verdadeiras. Desconhecemos referenciais puros que, às vezes, estão tão próximos de nós, e nossas almas, tão longe e desviadas deles.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115849988927178347?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115849988927178347/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115849988927178347&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115849988927178347'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115849988927178347'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/outra-viagem.html' title='Outra Viagem.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115849949053229788</id><published>2006-09-17T06:20:00.000-07:00</published><updated>2006-09-17T06:24:50.550-07:00</updated><title type='text'>Na Hora do Grito.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/tribunal.0.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/tribunal.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#000099;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente que alguém poderia fazer-lhe algum bem; sua vida não parecia, mas era o próprio pesadelo. Noites infernais a atormentavam. Herdar uma fortuna quase incalculável duma hora para outra, sem se ter a menor experiência, constituía um desafio nem tão sereno: de indiozinho a grande cacique numa taba numerosa e ativa. Que metamorfose!&lt;br /&gt;_E esse meu  tio-avô, como conseguiu esconder-se de nós por duas gerações?&lt;br /&gt;_Meu raciocínio não me deixou concluir, ainda, como tio Heitor pôde exercer tão fascinantemente  essa arte. Talvez tenha se escondido n’alguma ostra.&lt;br /&gt;_Mamãe, como era a personalidade dele?&lt;br /&gt;_Não sabemos muito sobre ele. Viveu a vida inteira numa imensa fazenda paraguaia; de resto, o que me chegou aos ouvidos foi que fazia, sempre nos meses de dezembro, uma viagem de trinta dias à Suíça, onde, além de repousar o corpo, abastecia-se de um bom trocado.&lt;br /&gt;_Sua fortuna, de onde proveio?&lt;br /&gt;_Não sabemos; parece que andou traficando jóias preciosas de Minas Gerais para Berna. A vida de seu tio foi ensombreada, desnoticiosa, cheia de esquisitices. Um homem estranho, pronto!&lt;br /&gt;_Formou-se n’alguma profissão?&lt;br /&gt;_Que sabemos, não!&lt;br /&gt;_E agora, como vamos  comportar- nos com essa fofocada toda?&lt;br /&gt;_Não temos dinheiro nem para comprarmos os bilhetes e avionarmos até a Suíça; emprestado não aceitarei; tomara que nos venha de lá certa ajuda.&lt;br /&gt;_E se não vier?&lt;br /&gt;_Aqui estaremos descompromissadas e vivendo a mesma vidinha de sempre: eu a dar aulas na Universidade e você a torrar meu último tostão e  o resto de minha paciência. Assim é que devemos ficar. Não é  assim nossa vida?&lt;br /&gt;-         Você pensa pequeno, mãe, por isso não tem conseguido muita coisa. Não cobra nem suas aulas particulares, dá a esses vagabundos que a procuram com a certeza da cumplicidade de sua generosidade. Vai estar sempre a marcar passos e regar uma extrema simplicidade de vida. Não admito. É-me pouco demais!&lt;br /&gt;_Minha alma vive muito bem abastecida de Literatura, minha filha. Sonhei com isso a vida inteira; seus suspiros de ambição fazem-me sangrar de desgosto. Por que abandonou a sua faculdade de engenharia civil?&lt;br /&gt;_Estou noutra, mãe: a grana, nela é que tenho pensado. Essa é que tem me interessado. Fará tudo por nós. Mudará nossas vidas: seremos ricas e felizes.&lt;br /&gt;Viajaram para Berna uns quarenta dias depois. Nadir e sua mãe se prepararam para assistir à abertura do testamento deixado pelo milionário. A jovem é quem parecia apresentar maior ansiedade. A rapidez com que Nadir havia conseguido os bilhetes aéreos impressionara sua mãe. Mas assim mesmo  voaram sobre nuvens até chegar à friorenta Berna:  uma ansiosa, a outra feliz.&lt;br /&gt;Toda pompa acompanhou a cerimônia de abertura do testamento. Elas duas, as únicas parentes achadas pelo serviço de inteligência suíço, já que se tratava de um milionário famoso e  um dos homens mais ricos da Europa. Feita a leitura introdutória  numa língua que as duas não dominavam, houve a necessidade de uma tradução para o Português, o que o tribunal tratou de fazer  à risca.&lt;br /&gt;Um homem alto, magro e  de expressão rude começou a fazer a leitura do texto testamental, pausadamente e motivado pela científica frieza de quem já há anos cumpria os ritos de ofício.&lt;br /&gt;“Reconheço Djalmira Serse de Lima e Nadir, sua filha, as duas únicas herdeiras vivas de minha fortuna. Deixo, então, tudo o que possuo, até o último suspiro de vida, para elas, não que possam usar em proveito próprio, mas promovendo a memória dos nossos familiares mortos, principalmente a minha, para quem reservo a metade dessa fortuna aqui evidenciada neste testamento. Nenhuma despesa das duas, de qualquer ordem, poderá ser paga com o dinheiro aqui deixado por mim neste documento. Que conste dele claúsula única, onde isso seja proibido indiscutivelmente.”&lt;br /&gt;Escutou-se um grito enorme na sala. Nadir, inconformada com o que acabara de ouvir, lançou-se furiosa contra as autoridades presentes e teve que ser presa. Sua mãe, sem dinheiro e experiência para resolver em uma situação  incomum, apesar dos apelos maternos molhados pelas lágrimas reticentes, Djalmira só pôde ficar em Berna, de favores concedidos por um  zelador do prédio, por mais treze dias. Retornando ao Brasil, despertou-lhe uma fortíssima motivação para romancear esta história, o que a fez vitoriosa e, após três anos, pôde retornar à Suíça e resgatar da prisão sua filha que, vestida às cores da fama da época, naquela comunidade, pôde assistir à  belíssima noite de autógrafos de sua mãe, com o romance “O grito”. Seu livro, alado, sobrevoou e pousou nas melhores livrarias européias e elas duas nunca mais retornaram ao Brasil, nem mesmo a passeio. A fortuna, não admitiram administrá-la da forma deixada pelo velho, conforme escrito no testamento. O best-seller levou-as às raias da vida pomposa sob bajulações constantes.&lt;br /&gt;Na hora do grito, Nadir apanhou uma garrafa de licor argelino e quebrou-a no ombro do oficial do cartório. Quando deu por si, o grito acabado, pôde sentir que lesar na Europa é bem pior do que matar em Maceió.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115849949053229788?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115849949053229788/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115849949053229788&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115849949053229788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115849949053229788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/na-hora-do-grito_115849949053229788.html' title='Na Hora do Grito.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115715387472616022</id><published>2006-09-01T16:29:00.000-07:00</published><updated>2006-09-01T16:37:54.730-07:00</updated><title type='text'>O Contador de Estrelas.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/eueueu.png"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/eueueu.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Era sempre assim quando Pagacho tinha que resolver algum problema seu. Desse jeito ele achava suas soluções. Seu modo de vida estava repleto de filosofia. O problema parecia evaporar-se e um sorriso singelo sempre o trazia de volta para casa.&lt;br /&gt;Uma noite enluarada era-lhe um prato cheio. Contava as estrelas uma a uma até ter seus problemas longe de si, talvez diluídos entre as estrelas do céu.&lt;br /&gt;Magnólia havia acabado o namoro de onze anos. Começaram a namorar ainda novinhos. Ele, bastante apaixonado; ela, distraída do amor, quase insensível às coisas da vida. Vestia-se muitíssimo bem, passeava muito, mas pouco admirava o mundo. Era como uma autômata. Vivia para engolir, vencendo o tempo.&lt;br /&gt;_Não há mais nenhuma maneira de você voltar atrás, Maga...?&lt;br /&gt;_Não há, Pagacho. Não tolero nem mais um pouco este amor. Acabou mesmo! Procure outra que admire as estrelas como você. Sou doutro mundo.&lt;br /&gt;Na solidão do pós-romance, ele lembrou-se de procurar as estrelas do céu da ilha. Lá, enebriava-se, encantava-se ao vê-las e ao ouvir os sons repetidos que as ondas do mar faziam. Deitou-se na areia branca que a noite pintara de escuro e olhou o céu. Viu, na imensa tela desse céu magnífico, sua vida estampada. Lembrou-se de tudo, lá do iniciozinho de seu namoro. Preferiu lembrar-se com alegria, não construir nenhuma lágrima. Queria descobrir uma nova maneira de viver sem Magnólia e não ficar triste. Achou esse desafio entre as estrelas cintilantes que admirava. Olhou mais firmemente para o céu, abriu bem o seu coração e sentiu-se como um cometa. Foi aos ares com o pensamento, buscou caminhos encantados e enfeitiçou-se com a musicalidade do luar. Tornou-se um pensador entre os astros.&lt;br /&gt;Ficou esparramado na praia até muito tarde. Teve que retornar. Seus pais estavam ansiosos com a sua demora.&lt;br /&gt;No caminho de volta que fez, enfrentou o velho tapete de pedras que cobria a areia do vilarejo. A Lua alta no céu era o seu farol. Guiava-o sem erros. Ninguém estava nas ruas. A noite fria falava na força do vento e aqui e acolá enxergava-se uma janela iluminada. Por uma luz bruxuleante.&lt;br /&gt;Esse gesto, esse caminho, Pagacho fez por longos anos. Esqueceu-se de lembrar de Magnólia. Sua vida tomou o rumo das estrelas e ele apenas as via no céu, quando admirava as noites enluaradas e estreladas. Ela, por sua vez, envolveu-se com outras estrelas diferentes das suas. Meteu-se com droga e prostituição. Certa noite, quando ele admirava o céu e contava as estrelas, deitado na praia da ilha do Espanto, recebeu a companhia de Magnólia. Sem vê-lo, deitou-se na praia e pôs-se e injetar drogas em suas veias; ela e uma  outra companhia estranha.&lt;br /&gt;Pagacho não deu bola para as duas. Continuou a contar estrelas e sonhar acordado com a imensa Lua que brilhava  no céu, no fim do horizonte que tinha à sua frente, quase se molhando nas águas longínquas do mar-oceano.&lt;br /&gt;Era tarde. Ela viu alguém, reconheceu-o e gritou:&lt;br /&gt;_Pagacho, meu amor, não quer ficar numa boa comigo? Venha, eu lhe dou um punhado de estrelas que o meu pó me faz ver. Venha...&lt;br /&gt;_Depois eu irei, Magnólia, é que tenho de fazer algo antes.&lt;br /&gt;_O quê?&lt;br /&gt;_Contar as estrelas deste céu maravilhoso.&lt;br /&gt;_Contar as estrelas? Então você está louco!&lt;br /&gt;_Não..., estou são!&lt;br /&gt;_Mas elas são tantas que você não conseguirá contá-las nunca.&lt;br /&gt;_Será? O que é mais difícil: sonhar sempre contando as estrelas que vemos ou ter as outras estrelas nas mãos só enquanto vivemos a orgia das drogas? O que lhe parece mais real?&lt;br /&gt;_As que eu vejo, doidona, são mais bonitas que as suas.&lt;br /&gt;_Então deixe-me admirar as minhas reais. Elas são tão belas que não me permitem admirar mais nada. Eu prefiro vir para esta praia todas as noites e jamais terminar minha contagem. A sua, acho que não demorará a ter um fim. Deixe-me então quieto.&lt;br /&gt;E assim, o jovem aprendeu a entender e respeitar a súmula do sofrimento estrelado dos outros e contentar-se com as estrelas e as noites escolhidas para admirar. Ela, por sua vez, encantou-se com a morte ainda cedo e não pôde freqüentar mais muitas noites aquela praia onde as estrelas do céu e o contador de estrelas viviam sempre de mãos dadas, um a reverenciar a beleza do outro. O pó que cabia entre eles era só a areia alva da praia da ilha e nenhum outro. Ela perdeu-se no firmamento infiel que coube nos seus sentimentos e não pôde viver feliz ao lado do contador que tanto lhe amava.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115715387472616022?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115715387472616022/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115715387472616022&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715387472616022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715387472616022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/o-contador-de-estrelas.html' title='O Contador de Estrelas.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115715336787100740</id><published>2006-09-01T16:21:00.000-07:00</published><updated>2006-09-01T16:29:27.876-07:00</updated><title type='text'>O Menino e o  Mal</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/menino.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 142px; CURSOR: hand; HEIGHT: 108px" height="82" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/menino.jpg" width="142" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#996633;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Nem me preocupei com a queda do moleque. Estava acostumado com as suas travessuras e por isso mesmo achei que se levantaria do chão e sairia correndo para aprontar uma nova. Mas foi diferente o resultado. Minha consciência doeu ao saber do desfecho de sua triste história.&lt;br /&gt;Belzinho era sacristão do padre Amaurílio. Aos domingos, na missa, lá estava ele bem paramentado e quieto. Exercia suas funções religiosas perfeitamente bem. Na igrejinha do vilarejo era um garoto exímio. Não me lembro de ter ido à missa dominical e não tê-lo visto ajudando ao padre.&lt;br /&gt;Como criança saudável, sempre aprontava as suas. Não podia ver o alto-falante da torre da igreja evangélica começar a tocar e logo apanhava pedras e o acertava sob os aplausos e os risos dos seus coleguinhas de rua. O pastor calmamente saía do templo e, dirigindo-se a ele, pedia-lhe:&lt;br /&gt;_Belzinho, comporte-se. Aqui é a casa do mesmo Deus de sua igreja. Ele fica triste com tudo isso que você faz. Vá brincar. Se você quiser assistir ao culto, entre. Você e seus coleguinhas.&lt;br /&gt;Ele, sacudindo a cabeça e sem querer atender ao pastor, acalmava-se um pouco e saía dali à procura do que fazer diferente do já feito. À tardinha chegava em casa suado e cansado de tanto correr.&lt;br /&gt;_Por onde andava, filho?&lt;br /&gt;_Lá na praça, mãe, brincando...&lt;br /&gt;_Com quem, meu filho?&lt;br /&gt;_Com os meninos, mãe.&lt;br /&gt;_Vá tomar seu banho para depois jantar e ir dormir.&lt;br /&gt;_Deixe eu sair à noite, mãezinha...&lt;br /&gt;_Não! A noite é tempo para se dormir. Quando você crescer, eu deixo você sair à noite.&lt;br /&gt;E a noite chegava. O menino cansado de antes, agora pensava deitado na cama. Maquinava as peripécias que aprontaria no próximo dia. Não demorava muito o sono a chegar. Adormecia feito um anjo e, às vezes, o pesadelo era a única forma de remoer as passadas gravadas no inconsciente. Gritava, sorria, chorava, tudo durante o mais profundo sono.&lt;br /&gt;Belzinho também tinha o seu lado meigo, belo e inocentemente feliz. Não podia ver nenhum garoto passar à sua porta com roupas velhas e rasgadas que não corresse ao seu armário, tirasse alguma das suas e a desse. Quando dona Aurora, sua mãe, dava-se por conta da falta de alguma roupa sua, gritava-lhe e às vezes até lhe batia.&lt;br /&gt;Às sextas-feiras dona Aurora sempre oferecia pão e farinha de mandioca aos dez primeiros pedintes que lhe chegassem ao portão de casa. Quando as dez ofertas da promessa de sua mãe se acabavam, ele catava na dispensa o último alimento que era doado a quem nada recebera. Sob forte advertência e calado, ouvia a reclamação da mãe sobre o exagero de esmolas. Não se importava. Na outra sexta-feira não seria diferente e tudo aconteceria de novo, com ou sem os gritos da mãe.&lt;br /&gt;Na escola, as notas oscilavam muito. Mês eram razoáveis, mês eram fracas. Ele não se cansava de levar bilhetinhos da diretora do colégio para sua mãe. Esta, pacientemente, vinha ao colégio, desculpava-se pelas artes que o filho aprontava e, em casa, devolvia-lhe o recado corretivo com palmadas e gritos. Nada intenso.&lt;br /&gt;_Ai, mãe, tá doendo.&lt;br /&gt;_Tá não, safado. Só perco a palmada que não bate no seu lombo. Isso é pra você aprender a estudar e um dia, quem sabe, ser alguém na vida.&lt;br /&gt;_Ai, mãezinha, não dê mais não, pelo amorzinho de Deus, viu? Dê não, mãezinha.&lt;br /&gt;Ela ouvia-o e tinha clemência. Na verdade as palmadas não eram lá essas coisas. Ele chorava por um ou dois minutos e pronto. O garoto parecia esquecer-se rápido do corretivo e em seguida voltava às travessuras de sempre.&lt;br /&gt;Mas o destino lhe foi traiçoeiro. Parecia avisá-lo de que fosse bastante traquino. Seu tempo de menino e de gente deveria durar muito pouco. Calaram-se a força da travessura e a ineficiência na escola. As missas dominicais seriam agora diferentes das de antes. Seu silêncio atravessaria a cidade deixando um vazio esquisito e inexplicável. Suas travessuras não encheriam mais o vilarejo, e o pastor perderia a esperança de conquistar para sua igreja aquela almazinha tão forte.&lt;br /&gt;Soube, após quase duas horas, que aquele garoto travesso que tanto ajudava o padre nas missas aos domingos, estava morto. Suas mãe havia sido alertada pelo médico do posto de saúde de que se Belzinho não tomasse seu remédio diário contra a epilepsia, fatalmente morreria. Dona Aurora sabia bem dos riscos. Havia se cansado de ir até o posto médico do município atrás do dito remédio e nunca o encontrava.&lt;br /&gt;Sua situação financeira andava precaríssima. Seu marido, um desempregado da construção civil, diante do desprezo social em que vivia, afogava-se na bebida o dia todo e todos os dias. Ela, com o minguado salário que recebia como gari, tirava a metade de seus proventos e comprava uma caixa com vinte comprimidos do remédio do filho. Mas acontecia que um mês tinha alguns dias a mais e o tratamento do garoto era sempre incompleto.&lt;br /&gt;Naquele justo dia, quando Belzinho saltava feliz enchendo os ares da praça do coreto, foi acometido subitamente por uma de suas maiores crises e morreu. Ninguém quis acordá-lo. Alimentavam o triste tabu de que, através de sua saliva, pegava-se o mal. Deixaram-nos: ele e a morte expostos.&lt;br /&gt;Na calçada da praça, estavam ele e seu anjo da guarda, um morto para sempre e o outro preparando a viagem da alma que não precisaria de remédios para sobreviver, nem tampouco dos benéficos de um governo irresponsável que não aprendera a tratar seus cidadãos decentemente. Eu posso lhes dizer, caros leitores, que a praça, o coreto, o vilarejo, as missas, tudo ficou entristecido com sua morte. Dentro de suas travessuras estavam imersos a força da vida e o brilho intenso de uma criança que vivia com um Deus vivíssimo dentro de si. Enquanto pulava, ensinava-nos a força da vida e, quando ajudava ao pároco, produzia as centelhas do divino. Para sua mãe, uma simples criança do mundo; paro o pároco, um aprendiz das coisas de Deus; para o pastor, uma esperança de conquista de mais uma alma; para mim, o ressonante enredo iluminado com uma porção de coisas que vi e tive quando criança, exceto o grande mal que o levou cedo à casa de Deus. Este menino viveu dentro de mim em quase tudo que fez.  Éramos tão próximos um do outro que sua dor também doía dentro de mim. De sua pobreza  material, na parede de sua casinha, sequer um retrato à parede ficou para evocarmos com mais força suas lembranças, do lado de cá da moldura, quando a saudade se lembrasse de juntar-nos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115715336787100740?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115715336787100740/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115715336787100740&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715336787100740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715336787100740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/o-menino-e-o-mal.html' title='O Menino e o  Mal'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115715285836000432</id><published>2006-09-01T16:09:00.000-07:00</published><updated>2006-09-01T16:20:58.400-07:00</updated><title type='text'>As duas Mulheres</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/g.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 150px; CURSOR: hand; HEIGHT: 153px" height="124" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/g.jpg" width="117" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;Maria, por mais bela que fosse, era muito mais simples do que sua beleza natural. Envaidecia-se com sua simplicidade, bem como com seus limites e desejos conhecidos e tolerados.&lt;br /&gt;Viver era seu pré-requisito básico, e bem, se Deus lhe permitisse.&lt;br /&gt;Havia estudado até a segunda série primária. Não encontrando nos estudos uma saída viável para seu crescimento espiritual, deixou-o e cuidou de aprimorar-se nas tarefas do lar, como preparando-se para algum casamento.&lt;br /&gt;Era belíssima. Seu corpo convidava à aproximação do instinto do sexo oposto. Andava como se desfilasse numa enorme passarela. Mas não sabia falar socialmente. Era um desastre. De sua boca via-se sair o feio, o inimaginável.&lt;br /&gt;Sua beleza física não a deixou muito tempo sem um pretendente. O filho do major Sapucaia, encantou-se com Maria e a pediu em casamento a seu pai, um homem também simples do campo, agricultor de mãos calosas e ásperas, desconhecido, como a filha, do banco da escola. Sua esposa, dona Bertulina, - além de deseducada, quase não falava. Era tímida ao extremo. Seu sorriso foi a única forma de denunciar sua satisfação com aquele pedido de casamento. Leopoldo era riquíssimo, estudado, deveria melhorar as posses da família de Maria. Talvez o pai do noivo fosse o homem mais rico do Vale do Paraíba.&lt;br /&gt;Tinha muitas fazendas e incontáveis cabeças de boi. Leopoldo era um moço de feições grosseiras. Em virtude de sua imensa fortuna, não o achavam horrível de rosto. Mas era feio sim! Horrível, podia-se dizer sem receio de errar.&lt;br /&gt;_Leopoldo, você vai mesmo casar-se com essa tal de Maria, meu filho?&lt;br /&gt;_Vou, pai. Ela é linda. Vai ser minha esposa.&lt;br /&gt;_Eu também acho ela bela. E suas letras são boas? Você é um homem culto, viajado...&lt;br /&gt;_Não tem nada não, pai; eu porei professores para ela. O importante é que Maria é a moça mais bonita do vale. Isso me basta.&lt;br /&gt;_Meu filho, beleza não é tudo sobre uma mulher. Você poderá gastar toda a sua herança e não se tornar feliz ao lado dela. Você não alcançou isso ainda, não foi?&lt;br /&gt;_Nisso eu não penso! Vou casar-me no próximo mês. Quero uma festa incomum, pai!&lt;br /&gt;_Está bem, meu filho, eu lhe farei o que me pede. Vamos à luta. Não é isso o que você quer?&lt;br /&gt;No dia sete de outubro, se casaram. A festa foi inesquecível. Durou dois dias e foi lembrada por longos anos como um esplendor de festa. Foram morar na capital onde ele tinha que ficar à frente dos negócios da família. Eram entrepostos de venda e compra de cereais. Possuía enormes galpões abarrotados dessas mercadorias, e Leopoldo era quem comandava tudo.&lt;br /&gt;As núpcias foram seu primeiro desgosto com o casamento. Maria, muito tímida, se afastou dele e deu-lhe trabalho para ser desvirginada. Ele suou, literalmente falando. Ela passou oito dias sem querer olhá-lo no rosto e isso o entristeceu muito. Ela lhe implorou e conseguiu dormir nesses dias em camas separadas. Ele, por sua vez, lembrou-se do que seu velho pai havia-lhe alertado. A imensa diferença cultural entre os dois era dramática e fizera-lhes um grande fosso. Passaram-se seis meses do casamento e nada daquela situação modificar-se. Ele recorreu ao prostíbulo local para satisfazer sua necessidade fisiológica e alimentar seu machismo. Seus pais não haviam sido avisados de nada. Preferiu assim.&lt;br /&gt;Antonietta, a outra mulher de Leopoldo, chegou em sua vida de mansinho, numa dessas obras do acaso que acontece de cem em cem anos e sem mistérios. Do seu olhar aos seus trajes havia uma enorme viagem de aculturação. Formada em filosofia em Paris, com mestrado em Berlim, era mulher viajada e culta. Uma dama exemplar aos olhos do mundo e uma fêmea fogosa e voraz aos olhos de Leopoldo. O quarto de dormir era a mais fiel platéia expectante de suas fantasias sexuais. Nele exibia seus excessos e os de seus companheiros.&lt;br /&gt;Na mesa, quando ainda se servia do desjejum para ambos, a consciência lhe inibiu até a fala.&lt;br /&gt;_O que há com você, Leopoldo? Calado..., com cara de quem comeu e não gostou...&lt;br /&gt;_Não é nada, Antonietta. É que não me acostumei ainda com seus hábitos liberais. Quando estamos vivendo nossa intimidade, só penso que o que você fez comigo, já o fez com outros mais. Será?&lt;br /&gt;_Será! O que nos importa é que não o faço mais! Hoje, sou só sua. Nenhum homem me tocará; só você.&lt;br /&gt;_Quando ando com você na rua e alguém me olha, logo penso que quer dizer-me algo de sua vida. Por quê?&lt;br /&gt;_São os fortes resquícios dessa mazela que ainda o devora, chamado machismo. Livre-se dele!&lt;br /&gt;Ele vivia entre as duas almas e os dois corpos. De Maria, preferia-lhe a alma; de Antonietta, gostava mais do seu corpo formoso e cheiroso a rosas do campo. Mastigava uma e tragava a&lt;br /&gt;outra. Desfilava com uma e escondia-se do mundo quando estava com a outra.&lt;br /&gt;Esse seu dilema manteve-se. Sua família soube tudo. Seu pai vangloriou-se do filho, e sua mãe condenou seu jeito. Sua fortuna fez a sociedade suportar e entender seu modo estranho de viver maritalmente com as duas desigualdades. Era um adultério, sim, porém socialmente bem tolerado.&lt;br /&gt;Havia dois quartos: um calado e quieto onde Maria estava mergulhada e satisfeita, e um outro, cheio dos prazeres da carne e envernizado pelo denso efeito cultural da outra que tantos outros loucos romances vivera.&lt;br /&gt;Falava-se das duas. Maria era tida como a legítima, comportada e quieta; a outra, mais amante que esposa. De Maria vinha o vínculo institucional da família da época, e da outra, o esplendor da virilidade e o óleo erótico que massageava o machismo de Leopoldo.&lt;br /&gt;Inconscientemente ele bebia das duas vertentes doces que lhe chegavam à boca, com a chegada da noite. Amava Maria e queria Antonietta. Qualquer uma das duas que lhe faltasse quebraria sua paz conjugal. Resolvera viver a vida dessa forma. Elas não ignoravam nada.&lt;br /&gt;_ Maria, você é a minha legítima.&lt;br /&gt;_E por que você não se desfaz dela, Leopoldo?&lt;br /&gt;_Porque você nunca aprendeu a me dar o que ela me proporciona.&lt;br /&gt;_Só se eu for aprender com ela.&lt;br /&gt;_Não! Você é pura. Continue assim. Essa outra coisa é só para ela. Você é uma mulher séria!&lt;br /&gt;_Mas você não está cumprindo com seu dever de homem. Prefere a outra, deslealmente.&lt;br /&gt;_O quê, Maria? O que você está me dizendo?&lt;br /&gt;_Faz oito meses que não faz sexo comigo. Eu tenho me agüentado porque sou forte.&lt;br /&gt;_Eu pensava que você não gostava de fazê-lo!&lt;br /&gt;_E por acaso eu sou doente? Eu não sei fazê-lo bem, porque nunca me educaram para ser Antonietta, mas só Maria. Nem ao menos sei ler bem para poder comprar revistas eróticas e aprender tudo isso que a outra faz e lhe encanta tanto. Sou uma mulher desletrada.&lt;br /&gt;_Maria, não quero ouvir esse discurso seu. Mudemos de assunto. Você não é disso.&lt;br /&gt;E levantando-se, saiu de casa. Foi até a casa trinta e seis da rua Wenceslau Braga. Ali havia alguém à sua espera, talvez até semidesnuda e cheirosa, enchendo a lingerie florida.&lt;br /&gt;É..., tudo isso ele encontrou e muito mais. Deliciou-se com o desjejum do corpo e da alma, massageou seu ego e foi aos seus armazéns negociar alegre. Fartara-se com muito fôlego.&lt;br /&gt;Soube, após quatro anos de casado com Maria, que ela parira uma bela criança na qual ele pôs o nome de Maria Antonietta de Adonir Gonçalves. Só não sei se o destino as quis dividindo o amor dele por muito mais tempo. A união tão desejada e apreciada por ele dera o nome à filha. As duas qualidades que pensava poder a pequenina ter algum dia para ser mais feliz que os três, foram entregues assim a ela. Mas acontece que os sentimentos e os desejos não moram nas palavras, andam por caminhos que a própria natureza desconhece. Leopoldo nunca soube que a pequena Maria Antonietta nunca fora sua filha biológica. Onde há tímidas Marias, há fumaça e há fogo!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115715285836000432?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115715285836000432/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115715285836000432&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715285836000432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115715285836000432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/09/as-duas-mulheres_115715285836000432.html' title='As duas Mulheres'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115404145307726640</id><published>2006-07-27T15:55:00.000-07:00</published><updated>2006-07-27T16:04:13.083-07:00</updated><title type='text'>Algemas e Rosas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/casa.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/casa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;E a noite chegava, o barulho ensurdecia e, sem dormir bem, ele se ia ao trabalho novamente cansado, olheiras profundas, apanhando condução a condução e tendo por fim que andar quase dois quilômetros de uma estrada barrenta; chegava à dita casa antes das sete da manhã. Um homem pobre caminhava à mansão onde laborava. Havia dentro dele duas almas.&lt;br /&gt;Feito uma minhoca sonolenta, punha-se a mexer com as mãos desluvadas na terra preta do jardim imenso. Iniciava pela área da frente da mansão. Retirava as folhas das roseiras, ainda pouco amareladas, dias antes que caíssem a sujar o gramado , empurradas pela ventania que chegava forte e imperdoavelmente arrebatava as murchas.&lt;br /&gt;O tiro não foi lá de tamanho assustador; ouvi um estampido sem estardalhaço. A casa continuou silenciosa até quase o meio-dia, quando eu resolvi ver de perto o que havia acontecido. Por trás, fui à cozinha, lugar onde sempre meus passos tiveram intimidade: não havia ninguém nela, nem sinal de desarrumação. O fogão estava limpo; tudo em seus devidos lugares; nem cheiro de comida se sentia no ar, de tão limpa estava; era como se os seus moradores estivessem de férias há meses e alguém mantivesse seus cômodos em perfeita limpeza. Eu estranhei o que vi.&lt;br /&gt;Mas eram sete os que ali moravam. O casal de velhos, nem tanto, não se mostrava aos ares do lado de fora do casarão; tinha tempo de dormir, resmungar com dores e tomar remédios quase que de hora em hora. Patrícia saía para o conglomerado de lojas com seus pais, antes das nove da manhã. Ismar e Milton, esses sim, eram os verdadeiros problemas da família Ucesi: iam dormir lá pelas dez e só despertavam no finalzinho da tarde; Boates, badalações, festas e mais festas enchiam as cabeças vagas dos dois.&lt;br /&gt;Invadi a casa, cômodo-a-cômodo, sem encontrar o menor sinal de anormalidade, além, é claro, da ausência de gente.&lt;br /&gt;No primeiro andar, no quarto do casal: porta fechada, trinco quebrado e um som esquisito que dava para o lado de trás da casa. Desci as escadas às pressas e me dirigi ao lado leste do imóvel. Olhei para cima e pude encontrar os dois na varanda, cabisbaixos, com suas cabeças escoradas no parapeito de metal da varanda. Gritei pelos dois jovens.&lt;br /&gt;_O que está acontecendo que ninguém desceu até essa hora?&lt;br /&gt;Milton tentou levantar a cabeça e foi impedido pelo irmão. Ficaram como estavam.&lt;br /&gt;_Patrícia, onde está?&lt;br /&gt;Não obtive respostas. Demorou menos de um minuto e vi que alguém andava em direção à varanda: era ela, Patrícia, também triste, meio desfigurada. Falou-me com a voz trêmula, cheia de medo, esquisita. Não estava como nos dias comuns.&lt;br /&gt;_Vá para sua casa, Herculano; hoje não lhe é necessário ficar aqui. Amanhã! Amanhã basta vir mais tarde um pouco. Estamos descansando. Agora vá. Não se preocupe com o jardim.&lt;br /&gt;O jardim do casarão era, na geografia de tudo, o lugar mais cuidado e exigido. Eu não me conformava com o que ouvia. Estava acontecendo algo de estranho.&lt;br /&gt;_Seus pais, onde estão?&lt;br /&gt;_Não nos incomode mais. Já lhe falei que estamos repousando.&lt;br /&gt;- Hoje é segunda-feira!&lt;br /&gt;- Mesmo assim. Estamos todos bem. Faça-nos o favor de retirar-se daqui! Até amanhã.&lt;br /&gt;- Houve outro disparo. Ainda extasiado, eu vi quando os pais de Patrícia correram até a varanda assustados, mas sem falar qualquer palavra. Minha ansiedade aumentou.&lt;br /&gt;_Doutor Hildo, o que está havendo? Onde estão seus pais?&lt;br /&gt;_Herculano, ouça minha filha e vá para sua casa.&lt;br /&gt;_Vou chamar a polícia!&lt;br /&gt;E aí os disparos foram muitos. Os cinco viraram para trás como se assistissem a um espetáculo de morte. Corri gramado afora, alcançei o portão e me encaminhei até a delegacia mais próxima. Dei de cara com a autoridade e dela solicitei ajuda. Quase não pude falar.&lt;br /&gt;_O que está havendo, senhor?&lt;br /&gt;_Um assalto. Família Ucesi. Estão todos presos no andar de cima. Os velhos já estão mortos. Muitos disparos, muito sangue..., só agonia. Por favor, ajude-me.&lt;br /&gt;Distava pouco dali o casarão formoso, centrado em amplo terreno gramado, cheio de rosas. Seus muros altos diziam da fortaleza que a arquitetura havia feito, quase centro de São Paulo, quase interior. A polícia voou até o endereço e o invadiu apressada. Canto por canto e chegaram ao primeiro andar.&lt;br /&gt;Na cozinha, a cozinheira e suas duas ajudantes trabalhavam normalmente; os dois rapazes foram acordados e, assustados, não entenderam o que estava acontecendo. Patrícia já havia saído com seus pais e os velhos assistiam a um programa de televisão matinal, comum à rotina de ambos.&lt;br /&gt;Abordados todos, não restou ao comandante do policiamento requerido senão solicitar suas desculpas aos que estavam em casa e foram incomodados por sua visita inesperada.&lt;br /&gt;A queixa, ficada para trás, exigiu dele a procura do outro. Como a justificar a ida do jardineiro até a delegacia? Cadê o homem? Era a hora de ajustar as contas; polícia não é brinquedo para estar de mão em mão, sem uma justa causa para ser chamada à ação. O tempo é ouro.&lt;br /&gt;De ferramentas em mão, Herculano cortava os galhos amarelados por entre o roseiral, tranqüilo, como se o mundo ao seu lado não lhe oferecesse qualquer risco. Indagado pelo policial que comandava o grupo, sorriu-lhe e, retirando uma linda rosa branca, lha ofereceu.&lt;br /&gt;_Não é linda?&lt;br /&gt;_O senhor está preso!&lt;br /&gt;_Não..., estou livre, ajeitando o jardim..., meu laborão diário. O que pensam que eu fiz?&lt;br /&gt;Saiu dali algemado, ele, sua jovem esquizofrenia que havia, justamente entre flores, se manifestado diante do desconhecimento alheio. Teve um surto rápido do traste; a doença, mesma, veio-lhe alguns meses depois, para nunca mais deixá-lo cuidar das lindas rosas do roseiral da família Ucesi. Que pena! Que mal fez a doença às rosas, ao jardim e aos homens de dentro e de fora da casa!&lt;br /&gt;Levaram-no ainda com as mãos sujas de terra, mas a segurar entre os dedos a dita rosa branca rejeitada pela autoridade, que murchou dias antes de ele ir até a outra prisão: o nosocômio judicial. Diferente da psicose, dela, ele livrou-se já quase totalmente despetalada.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115404145307726640?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115404145307726640/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115404145307726640&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115404145307726640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115404145307726640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/algemas-e-rosas.html' title='Algemas e Rosas'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115404093074939729</id><published>2006-07-27T15:51:00.000-07:00</published><updated>2006-07-27T15:55:30.756-07:00</updated><title type='text'>O Andarilho</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/ande.0.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 208px; CURSOR: hand; HEIGHT: 231px" height="201" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/ande.jpg" width="208" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;Era uma vez eu que saí por aí a passear sem tempo para retornar. Queria ser feliz – haveria de encontrar a felicidade escapulida de minhas mãos há tempos; por isso resolvi sair deste jeito: meio extrovertido, descompromissado, livre, deixando-me ser levado por uma ventania que me havia visitado sem marcar tempo e hora. Posso dizer que uma dita ventania branda me levou mundo afora.&lt;br /&gt;A casa da gente é palco e trampolim para nossos passos. Nela vê-se o inviso, o retratado e a rudeza da realidade que muitas vezes não nos é agradável ver.&lt;br /&gt;Saí por aí em uma tola segunda-feira de abril, época de quaresma, bem próximo da páscoa. Nem me lembrei de levar comigo o terço que vivia esquecido nas pontas da cabeça de minha cama de solteirão. Preferi não me ajuntar às tralhas ou pedaços preciosos de que vivia arrodeando-me. Queria deixar mesmo tudo para trás e apenas levar-me comigo: afinal, corpo, alma e coração tinham que estar juntos nesses desenhados passos que havia resolvido dar, num rebento de coragem ou broto de desmedida loucura. Saí de casa fantasiado de corajoso; não me interessava olhar para trás e ver a mesmice do cotidiano que deixava. Saí mesmo!&lt;br /&gt;A primeira parada deu-se longe de casa, sob o abrigo da sombra fresca duma amendoeira frondosa. Sentei-me entre duas de suas raízes grossas, descobertas, na terra acinzentada e morna. Recostei em seu tronco, olhei para o horizonte à frente, pedi para mim mesmo que esquecesse o passado e descansasse para entender em que porta deveria bater e pedir comida e água. Meus olhos não conseguiam trazer às retinas qualquer imagem de gente ou de lugar habitado. A zoada do vento soprando as largas folhas da árvore, umas contra as outras – a única voz que me barulhava mansamente aos ouvidos.&lt;br /&gt;Retirei as alpercatas, alisei os pés, a essa altura doloridos; estava a uns trinta quilômetros de casa; o sol queria ir-se, porque no horizonte uma faixa alaranjada escapulia por trás d’umas montanhas longínquas a chamar a lua. Esta já estava no céu, apagada, numa crescente vontade de aparecer mais viva na escuridão da noite, o que só se daria dali a horas. Dormir com fome não me seria vantajoso. A amendoeira proveu. Quando a noite caiu, morcegos atarantados, vindo de todas as partes, arrancavam os frutos dela e, na confusão da teia dos vôos, um e outro caíam; Limpava-os, como se estivesse os descontaminando e rapava com os incisivos centrais as lâminas encarnadas de sua escassa polpa. Eram doces, de tamanho médio, algumas delas não conseguia limpá-las de toda a areia encontrada em suas entranhas que, de tão moles da maturação, se espragataram com a queda. Foi assim que enfrentei o frio moderado da noite, até ver no relógio de pulso que já se aproximava o raiar de um novo dia. Levantei-me às quatro e segui a viagem rumo ao desconhecido.&lt;br /&gt;Era uma vez eu que havia saído de casa rumo a Belém, sem menino nenhum avistar; sem rei ou presentes. Mas no céu havia muitas estrelas douradas de esperança; saber qual era delas, eis que me fora o maior dos suplícios. Minha manjedoura era o chão nem sempre protegido por sombras hospitaleiras. Não eram sertão, não eram deserto os chãos por onde cruzei em busca de cada nada que pensava estar pensando, sem certeza de alguma coisa achar comigo mesmo. Ia-me apenas no mundo e sem mundo ter.&lt;br /&gt;_Dê-me uma esmola, dona...&lt;br /&gt;_Arrume um emprego, vagabundo. Um homem tão novo!&lt;br /&gt;_Os novos sonham e sentem fome. Água, a senhora tem coragem de me dar?&lt;br /&gt;_Isso não se nega nem a um cachorro!&lt;br /&gt;_Pronto, está aí: faça de conta que eu sou um deles; é animal de minha estimação. Fiquei satisfeito com a comparação.&lt;br /&gt;O sol havia se escondido por trás de algumas nuvens no meio do céu. Ventava pouco. Levei a mão à testa, retirei o excesso de suor deslizando o indicador curvado e rente à pele; caíram-me poucas gotas dele. A água que a velha me havia dado não era lá de boa qualidade: senti-a meio salobra. Fora-me dada e isso me proibia reclamar de seu gosto. Os roncos do intestino revolto também haviam sido me dados mas por uma fome miserável, natural para quem já estava há mais de doze horas sem se alimentar.&lt;br /&gt;Saí por aí sem medir o peso de um passeio espontâneo e despreparado, como o que eu havia escolhido. Livre, a andar sem rumo certo, senti que estava preso às minhas faltas. Ao pedir água ou outra coisa qualquer, compreendia que essa dependência me fazia escravo de mim e dos outros: outros eram tentados a dar-me o que não me era meu.&lt;br /&gt;Pensei: era uma vez um homem infeliz que comia tudo, possuía uma casa e vivia entre familiares exigentes, alguns rudes, outro chatos! A maior estrada que conhecia era a que existia entre meu quarto e a escola secundária: trezentos metros. A bicicleta me levava. O que faz um homem jovem sair de casa à procura de nada?&lt;br /&gt;Eu saí de casa sem ter casa para morar, ouvidos para ouvir. Pedir esmolas foi-me o único ofício aprendido em umas horas de caminhada – perversa fuga –, não pensei que o mundo era tão inóspito e insensato. Da casa onde eu morava, não avistava o mundo que eu não conhecia. Eu era o único mundo em minhas idéias.&lt;br /&gt;_Era uma vez um homem que voltou para casa; um outro homem, bem diferente de mim, aquiescido das loucas idéias: um homem a valorar as pequenas coisas do dia-a-dia.&lt;br /&gt;Não posso relembrar quantos sóis eu vi nascer, quantas luas eu vi estampadas nas noites mal dormidas ao relento. Muitas coisas se passaram à minha frente: esqueci umas, provei outras, trouxe comigo apenas as suportáveis de serem regadas e tomadas como lição de vida. Elas aceitaram acompanhar-me na volta.&lt;br /&gt;Outra vez em casa, no quarto, sobre a velha cama bem forrada, emagrecido e cansado, após banho e roupas limpas a cobrir o corpo, deitei para dormir. Sonhei com as misérias da viagem que havia feito. Acordei-me no outro dia, lá para as tantas da tarde, enfadado de nada ter caminhado pela manhã trocada pelo sono. Ouvi uma voz carrasca furtando o silêncio da casa.&lt;br /&gt;_Malandro, chega da vadiagem e desaprende a acordar-se.&lt;br /&gt;_Desculpe-me.&lt;br /&gt;Eu também estava com raiva de mim mesmo; podia ter mudado condutas enquanto sofri pelos oito meses em que estive perambulando por terras estranhas. Tanta gente boa conheci! Não posso negar que na casa onde estivera, a mesma para onde voltei ontem, nela, nunca havia passado fome. E a alma? Essa vivia em polvorosa, atormentada pelas cobranças infernais. Eu nem sei o porquê de ter decidido voltar. Acho que dessa vez voltei sem mim mesmo. Deixei-me lá fora e resolvi entrar não sei com que resto de mim. Coitado desse andarilho solitário, órfão de casa mas dono do mundo! E o mundo presta? Minha casa, descobri apenas aos vinte e dois anos, faz parte do mundo também! É melhor continuar fugindo fora de mim, dentro de casa e ao lado do mundo. Meus padrastos têm também seus sofrimentos, suas dores, e não me podem carregar nos braços porque pesam talvez bem menos que eu!&lt;br /&gt;Papai morreu em setembro de um mil novecentos e oitenta e dois; mamãe casou-se três anos após. Não sei como a esposa de meu padrasto deixou que eu continuasse a morar com eles, sem ser-lhes um filho, sem lhes ser nada. O que deles tenho recebido são esmolas, apenas esmolas, e nem me toquei que nessa casa sou apenas um andarilho com casa, com mundo, sem sorte e sem nada: órfão até dos meus mais puros desejos. Resta-me agora oferecer a mim mesmo um bom retorno e uma ótima reprogramação de viagem. Agora que conheci o mundo, ganhei um novo quarto de dormir, para sonhar. Esses mundos continuam a viver sob os meus pequeninos passos de criança que jamais quis ser adulto.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115404093074939729?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115404093074939729/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115404093074939729&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115404093074939729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115404093074939729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-andarilho_115404093074939729.html' title='O Andarilho'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115403985660235187</id><published>2006-07-27T15:32:00.000-07:00</published><updated>2006-07-27T15:37:36.620-07:00</updated><title type='text'>O Féretro e o Poeta</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/feretro.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/feretro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querida alma, com louvores este meu corpo te escreve, entusiasmado com os sonhos duma encarnação. Sei que sonhei, sem me restarem lembranças. Há um féretro que contém um corpo desalmado que  antes tanto chorou para não  ir embora para lugar incerto, tão cheio de bruma e obscurantismo. Eis  que te dou “poema de vida” feito por um outro corpo ainda cheio de alma: faz-me esse outro como o meu, para que não me reste, ao ouvir a minha voz, saber que há nessa cidade apenas um poeta velho. Meus versos são loucos pelos versos do poeta morto. Se apenas restar-me a desesperança, lerei para o outro corpo que ainda festejam nessa sala de choros, não como as carpideiras, mas um declamador; a alma que, deixando o corpo, ainda se segura no cerco do luto dos parentes, bem que me ouvirá ela, declamando os versos que fez, por mim tão admirados. Quero falar contigo, alma sem corpo; para isso empresto-te o meu.&lt;br /&gt;Não me deixes louco, alma sem boca, silenciada frente a minha dor; esse poeta que morreu, saibas, era o meu grande amor: fazíamos versos engraçados e eu sorria para assim alegrar-te, ó alma desgarrada, para quem agora falo quase morto também. Alma contra alma se pede. O féretro  não pode guardar poemas de amor porque já nasceu triste e isolado, para mais ainda isolar-se no fundo d’uma sepultura esquisita, onde os  vermes habitam, sem possuir as  palavras.&lt;br /&gt;Eis meu primeiro verso:&lt;br /&gt;Alma de algodão,&lt;br /&gt;ó leve duma bendita,&lt;br /&gt;mortos, teus versos não gritam,&lt;br /&gt;tua boca morreu.&lt;br /&gt;Lembrei-me que possuem um livro de poemas que ele editou. Nada morreu do que ficou, mas eu indago: e os que ainda estavam sendo pensados? Estão frios, desacumulados; nem sobejo de rima há neles;  então eu sei que morreram versos, e onde estão? Vou procurar o lugar onde os poetas mortos enterram seus  versos, os que não conseguem publicar. &lt;br /&gt;Choravam vozes – o único vozeirão era mesmo o dos meus versos –, menores do que a minha solitária, triste, refutando o luto, querendo readquirir a poesia do que ainda não havia sido lido por ninguém; estava apenas com a alma fugidia – antes de um corpo que sonhava, sonhava, sonhava...&lt;br /&gt;Chegado o padre, quis declamar, lembrou as coisas da alma e pouco olhou para o corpo frio. Alguns irrequietos se entreolharam, xingavam o calor e, disfarçadamente, o relógio.&lt;br /&gt;Ó  alma impiedosa – a que chamo  ou uma outra que porventura me ouça – traz-me a alma dos versos, os versos da alma: tudo. É apenas perto de meu que esse corpo chora, ri e goza, se tua alma novamente chega a ouvir-me declamando.&lt;br /&gt;A noite se perdeu no escuro desluarado. As tristes estrelas do céu foram embora também, só suas  lágrimas candentes choravam para se ver outros menos tristes que eu, que nem mais choravam. Declamei  meu grande estoque de versos decorados  à espera que a alma voltasse – tarde era, e escuro – e ela não me veio poetar.&lt;br /&gt;Quando o orvalho já havia chorado na terra, o sol declamou o primeiro verso do dia. A vela ao lado do féretro mudo, bruxuleava quase  finda. Nas faces das raras pessoas que ali estavam, não se viam nem as marcas dos caminhos das lágrimas.&lt;br /&gt;Dou-te, ó alma sumida, um segundo verso triste, quase desesperançado: pois o sol  que  sobe a arder lá, quase no fim deste horizonte, fala-me de uma hora triste: a triste hora em que os que não têm mais, enterram os que nada são, os mortos. Lembrei-me do estrume que os   corpos viram, temperados pelos besouros da terra que vivem nas profundezas escuras das valas de tristeza.&lt;br /&gt;Ó alma ingrata, volta para este corpo tão frio que nos deixou  tanto sofrimento! Para que serve a um féretro  guardar um corpo de um poeta mudo que não mais viverá?&lt;br /&gt;Ó alma impiedosa, donde és?  Ingratidão  não declama – a poesia é a voz da vida – dá-me outra vez  viver,  ouvindo dessa boca surda seus versos que tanto me falavam, tanto me diziam.&lt;br /&gt;O sol alto queimava minha fronte e agora, de lábios secos, voz guardada num nó na garganta, levaram o féretro escuro, abafando o corpo do poeta, para  o buraco cruel em  que ponho o  ponto final no soletrar da morte.&lt;br /&gt;_Quem morreu?&lt;br /&gt;_Um poeta!&lt;br /&gt;_O que fazia ele em vida?&lt;br /&gt;_Escondia-se de você, ó burro desvalido – inseto da vergonha, alma da escória do mundo.&lt;br /&gt;_Eu sou apenas um coveiro. Apenas um coveiro...Nada mais disso que o senhor acabou de falar.&lt;br /&gt;Passei a fazer versos novos e lembrar-me dos versos dele. A estrela havia se apagado cedo –  meu amor morreu de sede de amor, encontrou a morte e se foi para onde não  acham mais os que versejam. Cá me ficaram dois livros finos, desbotados  já, como se quisessem morrer também de desgosto.&lt;br /&gt;Olhei para trás ainda quando os portões do cemitério se fechavam. O homenzarrão achou o olhar triste dos meus versos que também possuíam olhos. Levantou-me a mão direita, acenou  descabidante, porque eu lhe havia dito fortes palavras; disse-me:&lt;br /&gt;Não fique triste. O poeta que morreu não morrerá mais. Tenho um velho jornal do ano passado que me fala dele. Agora me lembrei: era Mundano Castigo: não podia viver para sempre.&lt;br /&gt;Levantei-lhe a mão sem conseguir mostrar a voz; triste e trêmulo, além de envergonhar-me, apressei meus passos. Fui embora fazer meus versos para a vida. O coveiro nunca mais saiu de minhas idéias, apenas da frente dos meus olhos. Quem sabe  não sou eu um féretro que nunca soube disfarçar a morte que carrega de olhos marejados, voz triste, olho descuidado a não ler os maiores versos da vida?Ó cemitério, o que guardas além do corpo e do féretro? Até quando hás de ser assim, desse jeito, sem saber fazer versos? Perdi um grande amor, mas um luto passa. Não : pô-lo-ei em meus versos tristes, para nunca deixar de amá-lo. Serei doravante um poeta- féretro, guardador de versos alheios para minha maior felicidade&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115403985660235187?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115403985660235187/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115403985660235187&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115403985660235187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115403985660235187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-fretro-e-o-poeta.html' title='O Féretro e o Poeta'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115378762522676816</id><published>2006-07-24T17:30:00.000-07:00</published><updated>2006-07-24T17:33:45.230-07:00</updated><title type='text'>Minha História</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/auchwitz.3.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 352px; CURSOR: hand; HEIGHT: 268px; TEXT-ALIGN: center" height="178" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/auchwitz.1.jpg" width="314" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha apenas cinco anos quando meu tio Agnovitch me pôs no velho ônibus que nos tiraria de Varsóvia. Ao fim dessa viagem cheia de incertezas quanto ao destino, pensei, eu e tantas outras criancinhas, em desconhecida terra, incomum vilarejo. Eu deixei o curto convívio entre as outras e passei a morar nos fundos de uma velha adega de paredes escuras. Essa estranha morada que ganhei de estranhos deu-me a sobrevivência.&lt;br /&gt;Quando o tempo andou e eu estive pras bandas da adolescência, ouvi contarem pedaços separados de minha história familiar. Uma história diferente das tantas que se  costuma ouvir. Nela faltou-me o convívio normal a qualquer criança simples, e me sobraram pesadas lembranças do olho e do rastro da guerra.&lt;br /&gt;Meu pai chamava-se Vlon Steine; minha mãe, Ruth Ghost. Quando pressentiram os dois que Auchwitz lhes era inevitável, trataram de livrar-me dele e conseqüentemente da morte. Foi aí que fui posta nas mãos protetoras de tio Agnovitch. Levou-me após ouvir deles o que deveriam fazer comigo. Dois dias após ele me pôs num velho e surrado ônibus cheio de cruzes entre as cores vermelha e branca. Passei a ser protegida, até após a fronteira de Varsóvia, pela Cruz Vermelha.&lt;br /&gt;Mais tarde desembarcaria no Brasil. Iria morar longe do mar como assim preferiu meu tio, para que, nalguma investida nazista à nossa nova morada – chegar até ela, não lhes fosse tão fácil. Puseram-me em Ouro Preto, onde reiniciei minha história de vida, dividida entre o mar e a guerra. Longe dos dois, fisicamente, estive tão perto das lembranças pétreas que me contundiam os pontos da alma.&lt;br /&gt;Sempre esperei que um dia eles aparecessem à minha frente. Infelizmente, até mim, só chegaram as notícias da guerra, suas mortes. Mas, trouxeram-me relatos grandiosos de sua passagem por Auchwitz. Uma verdadeira história de amor ao próximo, à raça, à solidariedade humana. Passo a contá-la – um pedaço dela, apenas –, agora. Não posso nem devo calá-la na calmaria quase doentia do meu claustro memorialista. É que relembrar me dói muito...&lt;br /&gt;“Rose Marie não poderá sofrer, meu querido irmão. Pegue-a e ponha-a no carro 26 da Cruz Vermelha. Seu condutor já estará sabendo dela. Facilitará tudo. Já foi muito bem remunerado para essa tarefa. Eu não posso ir agora. Há muita gente precisando de mim. Vou ficar, ajudar a todos e, só após Auchwitz morrer, aí sim, poderei pensar em estar com vocês. Eu os acharei, estejam onde estiverem. Ouvi falar muito bem das terras brasileiras. Quem sabe não seja nosso novo horizonte?”&lt;br /&gt;Tantas vezes li esse pedaço de bilhete! Tio Agnovitch o conservava em seu poder com tanto carinho! O papel amarelado, suas letras já brancacentas, mas me era multicolorido e vivo diante do meu olhar recordador..., sua leitura me era além de catártica.&lt;br /&gt;Quando a terrível mortandade em Auchwitz estava atravessando seu mais alto ponto, papai prometeu a si mesmo que não arredaria o pé de lá, antes de fornecer aos seus companheiros de exílio forçado tudo o que pudesse. Como médico poderia aliviar a dor física e aliviou não apenas essa mas todas as outras formas dela que lhe chegaram à alma como suplício alheio.&lt;br /&gt;Eu soube por terceiros e quartos – aqueles que tiveram mais sorte que ele e escaparam da prisão –  que no fim de sua estada vivida naquele monstruoso lugar – negro campo onde a morte sorria festiva e farta – ,  ele entrou em um vasto galpão onde funcionava uma câmara de gás mortífero, de mãos dadas, ligando uma multidão de judeus injustiçados com a pena de morte. Quem esteve a vê-lo fez chegar a mim, embora muito tardiamente, essas suas últimas palavras: “Não é lícito a um judeu solidário ao seu povo, deixá-lo em polvorosa, mesmo que a separação deste lhe confira a sobrevivência. Não há judeus diferentes de judeus. Fomos escolhidos. A morte de hoje representará apenas um sono forçado. Amanhã cedinho Deus nos resgatará.”&lt;br /&gt;Fiquei sabendo que ele, minutos antes de morrer, teria recebido de um médico oficial nazista a permissão para se livrar da morte, caso aceitasse ajudar ao regime nazista em suas experiências com humanos. Soube também que, ao adentrar a câmara de gás, não deixou cair de seu rosto qualquer lágrima; ao contrário, enxugou as tantas frias dos que ao seu lado estiveram, aos que ele pedia para rezarem com fé, antes do martírio já tão próximo.&lt;br /&gt;Minha mãe dava-lhe força ao ajudá-lo nos serviços de enfermagem, o que lhe era impossível fazê-lo antes, dado o seu pavor de ver sangue derramado. Acho que o fez por amor a ele e ao povo judeu. Ele a chamava pelo carinhoso apelido de Dvorá, que em hebraico quer dizer abelha.&lt;br /&gt;Hoje, aos meus 65 anos de idade, sem filhos, possuindo a mesma profissão de papai, nenhum parente próximo vivo, é quando a guerra me fura mais profundamente. A família, para nós judeus, é, além de uma instituição,  um poço de santidade e sabedoria. Deixei de herdar da mama, tenho certeza disso, tantas lições de vida! Seu ventre fez-me ser judia como ela e poder representar a força singular de um povo escolhido por Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas solidões dentro de mim: a que começou com minha primeira separação física e essa de hoje que, apesar de me cercar de amigos, não me deixa esquecer as mazelas da diáspora que a guerra fez. Não cresci filha, não pude aninhar-me no colo de mamãe, não ouvi de papai as lições religiosas que, se não tivesse morrido tão cedo, certamente me teria ensinado. Como a guerra me roubou tudo!&lt;br /&gt;Mas o vento faz redemoinhos e leva a poeira e o papel para o alto de longínquos lugares, além das montanhas próximas do céu, e anjos lêem, e escritores sonham, e, acordados, escrevem contos que se contam até.&lt;br /&gt;Certo dia, após bondosa calmaria, caiu-me certo papel voador que trazia uma história bonita. Li-o e transformei-o nesta narrativa. Enquanto dormia, aprendi a história de Rose Marie. Em sonho pareceu-me ser uma bondosa mulher – alta, magra, sorriso feliz à face. Com a mão estendida disse-me: “Chamo-me Rita. Dou-te a essência de um conto, uma gêmula da narrativa que deverá nascer imensa de tuas mãos. Faze-a tu, como se fosse só tua.”&lt;br /&gt;Ainda hoje sei que essa judia mimosa continua morando em Ouro Preto, a falar diariamente com o seu passado, sem dele arredar nem o pé.&lt;br /&gt;Quando a mulher do sonho contou-me essa história, irrequieto me acordei e, com ele à memória, corri à escrivaninha e tudo escrevi. Hoje tenho dúvidas se não conheço Rita, porque a vejo quase que diariamente na face de Vera, uma velha amiga de faculdade que aprendi a admirar.&lt;br /&gt;Após tudo escrito, hoje publicado, lembrei-me de que sou cristão. Volto a enxergar-me como apenas um escritor, flor de uma emoção que passou, após deixar o seu cheiro e seu sabor registrados no meu peito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115378762522676816?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115378762522676816/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115378762522676816&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115378762522676816'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115378762522676816'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/minha-histria_115378762522676816.html' title='Minha História'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115308091615823893</id><published>2006-07-16T13:01:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T13:15:16.173-07:00</updated><title type='text'>Um Sonho.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/ratos.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 227px; CURSOR: hand; HEIGHT: 172px" height="136" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/ratos.jpg" width="227" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um cabaceiro-amargoso produzia muito. Sobrevivia fincado à terra dura em frente à casa velha da fazenda. Todos os anos se colhiam dele, frutos maduros, punham-nos para secar e depois guardar a farinha branca da mandioca da roça. Sob suas raízes moravam dois ratos enormes que falavam francês. Eram lindos. Gostavam muito de mim e eu deles. Coisa estranha, não?&lt;br /&gt;Certo dia de verão, sol bravo queimando a alma do vento, acordei para passear. Fui ao pote, dois gargarejos d’água fria fiz, andei até achar a mesa onde me sentei para em seguida comer dois pedaços de beiju duro com café frio sobrado da noite vencida.&lt;br /&gt;_Pra onde tu vai, Damião, já essa hora...&lt;br /&gt;_Dar uns passos, mãe. Ver o mundo quente lá fora.&lt;br /&gt;_Vai caçar preá pra gente comer que é melhor...&lt;br /&gt;_Matar os bichinhos...&lt;br /&gt;_Se não vai, então vou tocaiar aqueles ratos do pé de cabaceira.&lt;br /&gt;_Aqueles não! São gente como nós. Nunca pense nisso.&lt;br /&gt;_Só pra tu mesmo é que são assim aqueles nojentos. Destá! Eu ainda os vejo hoje. A soca-tempero tá cheia até a boca!&lt;br /&gt;_Mãe, tás doida?&lt;br /&gt;_Deixa de chamar tua mãe de doida, cavalo!&lt;br /&gt;Meus ratinhos cantavam o hino da França tão bem! Os meus avós paternos eram do sul da França. Falavam latim, misturado a um difícil dialeto provençal. Quando falavam, pareciam cantar.&lt;br /&gt;Naquele dia não saí. Tive medo de que mamãe matasse os dois. O que seria de mim sem eles? Não fui. Fiquei cabisbaixo sentado no batente da porta de entrada da casa, recebendo as baforadas do vento quente que vinha de longe, só não sei de qual fogueira acesa.&lt;br /&gt;_Damião?&lt;br /&gt;É ela. Quer que eu saia da porta, perca o olhar para o cabaceiro e ela, achando meus amiguinhos, detone a arma maldita contra eles.&lt;br /&gt;_Damião?&lt;br /&gt;Ela de novo. Meu Deus, que horror!&lt;br /&gt;_Tais mouco, peste?&lt;br /&gt;Vou responder, senão não terei mais sossego com sua latumia.&lt;br /&gt;_Diz, mãe!&lt;br /&gt;_Diz mãe, o quê, filho duma égua, venha cá com pressa!&lt;br /&gt;Ouvi a conversa de sempre. Devia arranjar dinheiro para ajudá-la nas despesas da casa, ou então pôr um roçado atrás de casa. Só se fosse eu doido e quisesse aguar a lavoura com a baba do sol. Eita serviço! Mamãe era demente para algumas coisas e agitada para outras. Falava pelos cotovelos. Eu tinha que estar sempre disposto a ouvi-la, senão...&lt;br /&gt;O dia passou, a lua chegou por trás da serra de pedra e iluminou tão bem a escuridão da noite que deu para ver as estrelas cintilando na alegria do céu. Eu estava atento aos movimentos  de minha mãe. Os ratos saíram da toca e se puseram a passear pelo terreiro da casa. Sentaram-se à minha frente, pediram grãos de milho. Tinham fome. Eu me levantei, apanhei uma xícara deles e lhes dei. Comeram todos os grãos, alisaram a barriga e perguntaram o que queria em troca.&lt;br /&gt;Vocês sabem cantar “La vie rose”?&lt;br /&gt;Cantaram melhor do que Edite Piaff. Eu me deliciei com as duas vozes. Que vozes!&lt;br /&gt;Mas a noite se foi, e os ratinhos amigos dormiram entre as brechas das raízes do cabaceiro-amargo. Eu também fui dormir. Sem sono, sem estar cansado, mas fui. Dormi um sono leve àquela noite. Ouvi as corujas chilrearem por cima da casa e o bacurau gritar sem medo da escuridão. No meu agrestão, quase sertão, já, era assim: a escuridão tinha uma boca grande que sabia cantar.&lt;br /&gt;Madrugada alta, quase nos pés do dia, ouvi um tiro vindo das bandas do cabaceiro. Pensei: mamãe matou meus ratos amigos. Levantei-me da cama, corri à porta da casa e saí. Estava no terreiro comprido. Olhei por seus lados e nada. Quase meia hora perdida procurando os dois corpinhos.&lt;br /&gt;O sol achou de sair. Vi-o pelegando numa mansa subida por trás do mesmo lado onde a lua saíra ontem. Estava frio ainda e não me era forte sua luz. Mas deu pra ver que, na aresta direita da casa, havia um corpo no chão.&lt;br /&gt;Mãe estava morta, caída sobre o chão duro, agora molhado de sangue. Do outro lado da casa, a soca-tempero no chão e, ao seu lado, imaginem os leitores, estavam os ratos do cabaceiro.&lt;br /&gt;_Quem a matou?&lt;br /&gt;_Nós dois.&lt;br /&gt;_Por quê?&lt;br /&gt;_Por você.&lt;br /&gt;_Por mim? Não entendo.&lt;br /&gt;Soube deles que ainda era tarde da noite e mamãe saiu com a arma e pensou alto e eles ouviram: “ Hei de matar meu filho para não ter que aturar sua loucura.”&lt;br /&gt;Foi aí que o rato macho mordeu o dedão do pé direito de mamãe, a arma caiu e eles dois, com muito sacrifício, puxaram o gatilho. Foi fatal o tiro.”&lt;br /&gt;Acordei apavorado, saltei da cama e gritei por mamãe. Minha irmã mais velha, Eliza, dirigiu-se ao meu quarto e me tranqüilizou:&lt;br /&gt;_Meu irmão, sonhou com mamãe?&lt;br /&gt;_Sonhei, mana. Sonhei que ela matava meus ratos.&lt;br /&gt;_Que ratos?&lt;br /&gt;_Os da cabaceira...&lt;br /&gt;_Menino, tu endoida! Os bichos que você matou nas raízes da cabaceira ontem foram dois preás. _Tá vendo, sujeito..., você ficar com pena deles, veja o que deu: sonhou com outros bichos. Vai dormir. Ainda é madrugada alta.&lt;br /&gt;E fomos dormir o inconsciente e eu. Se há uma língua que gostaria de saber falar, é o francês. Mamãe falava bem. Hoje faz três anos do aniversario de sua morte. O que mais há perto de nós é água. Moro na beira da praia, chove o verão todo, o apartamento não possui terreiro, mas eu continuo a duelar com o que não conheço. Por que a gente sonha com essas coisas esquisitas? Sei que não acharei mais sono. Vou ler. Apanhei a “Revolução dos Bichos” de George Orwell. Vai dar certo essa leitura.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115308091615823893?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115308091615823893/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115308091615823893&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115308091615823893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115308091615823893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/um-sonho.html' title='Um Sonho.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115307994230590495</id><published>2006-07-16T12:55:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T12:59:02.306-07:00</updated><title type='text'>O Poeta e o Assalto.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/ladrao%202.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 185px; CURSOR: hand; HEIGHT: 197px" height="142" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/ladrao%202.jpg" width="157" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;Lembro-me do ambiente no ônibus onde estava, sim, até o desmaio. O que escrevo agora foi contado por Laura, fiel companheira de viagens de trabalho.&lt;br /&gt;Naquele dia não fiz a costumeira homenagem ao crepúsculo. Acordei-me no quarto do hospital. Havia luzes estranhas sobre minha cabeça. Pensei houvesse morrido. Quando abri os olhos, lembro-me de que o que primeiro fiz foi bocejar. As mãos estavam amarradas a faixas de gaze. Tive vontade de abrir os braços mas não o fiz. Doeram-me as costelas e ouvi uma voz que dizia:&lt;br /&gt;Quieto..., psiu..., quieto.&lt;br /&gt;Não sei quem o era, mas lhe obedeci. Ainda sentia muito sono e preferi ceder e sonhei até a madrugada quando resolvi tentar lembrar o porquê de estar ali. É que havia despertado pela segunda vez.&lt;br /&gt;Disseram-me que, ao principiar o assalto, o ônibus parou. Eu levantei-me compulsivamente. Ali era a última parada. Laura estava na cadeira de trás e, apontado sobre sua cabeça, o revolver do bandido. Eu avancei sobre ele e consegui arrancar-lhe a arma, imobilizá-lo e, com Laura, descer no ponto de ônibus. Pensei que houvéssemos escapado de tudo.&lt;br /&gt;A estação rodoviária estava repleta de gente. Apanhei a mão dela e no limite do andar apressado, quase correndo, adentrei a multidão para ficar bem longe do perigo em que acabava de envolver-me. Ainda podia ouvir entre algumas pessoas comentários sobre o assalto. Uma senhora de meia idade chorava pela morte de uma sobrinha. Era consolada por uma filha, também emocionada. Ambas estavam no mesmo ônibus que nós.&lt;br /&gt;Quando eu já saía da estação rodoviária central, a fim de alcançar a estação do metrô, ouvi alguém gritar meu nome.&lt;br /&gt;_Manoel, está tudo bem contigo?&lt;br /&gt;Olhei ao meu redor e não reconheci quem gritava. A voz repetiu meu nome várias vezes até que, já bem perto de mim, vi quem o era. Abracei-o fortemente e, quando fui informá-lo de tudo, eis que ouvi o que um pai jamais desejaria ouvir algum dia:&lt;br /&gt;_Pai, gostou da minha performance no ônibus?&lt;br /&gt;_Que ônibus, filho?&lt;br /&gt;_O último onde nós estávamos.&lt;br /&gt;_E você por acaso estava nele?&lt;br /&gt;_Eu era o encapuzado.&lt;br /&gt;_O assaltante?&lt;br /&gt;_Sim.&lt;br /&gt;Até este momento eu me lembro de tudo o que ouvi e falei. A partir dali, escureceu-me a vista, no peito algo me apertou e só sei que tudo acabou na cama do hospital. Manoel nem pôde me socorrer. A polícia vinha ao seu encalce e o aprisionou. Algemado, foi conduzido para interrogatório. Faz dois anos que o procuro vivo. Não sei o que fizeram com ele. Se algum dia eu o encontrar com vida, vou apenas perguntar-lhe onde ele pôs os poemas que tanto declamei para ele, as bonitas lições de vida que lhe dei. Manuel não necessitava de nada. Era um jovem aparentemente feliz. Outras horas eu fico pensando se eu declamava bem os poemas. Eu exigia que me ouvisse declamá-los. Frente a frente, nas espreguiçadeiras do terraço vi-o sonolento. Eu insistia. Ele findava por dormir. Não me mostrava interesse em ouvi-los.&lt;br /&gt;Ninguém zela pelo que não gosta. Meu filho desejava sentir outras emoções diferentes. Pôs o revólver em minha colega de trabalho e não a feriu. Talvez, quem sabe, ao menos o excesso de maldade, meus poemas afastaram dele. Poderia tê-la matado. Não o fez. Por isso, continuarei a declamar para outros Manoéis, nas ruas, nos asilos, nos presídios, porque em cada um estará um pedaço dos poemas que escolher para ofertá-los. Quem sabe algum dia não serão todos poetas?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115307994230590495?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115307994230590495/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115307994230590495&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115307994230590495'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115307994230590495'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-poeta-e-o-assalto_115307994230590495.html' title='O Poeta e o Assalto.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115307893914492940</id><published>2006-07-16T12:33:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T12:42:19.156-07:00</updated><title type='text'>A Herança.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/ipe%202.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/ipe%202.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele andou vencendo a doce aléia guardada por ipês frondosos e silenciosamente belos, tão amarelos quanto o sol poente que, alto, encabeçava-os com a sombra criada. O cão rafeiro da tropa chegada ficara para trás horas antes, ainda na guia do gado, e de tão cansado que estava, arrastava a língua, quase rente ao chão sujo da estrada de barro vermelho. A luz molhada do candeeiro da soleira da janela principal da casa do engenho, apesar de nada alabastrina, cintilava. Tinha uma chama avermelhada que dançava frente ao sopro do vento do final da tarde.&lt;br /&gt;À frente da casa, um bom punhado de vaqueiros perfilados, à espera de que o coronel Falindo gritasse um boa-tarde. A rafanéia, silenciosa, apenas guardava a fala do velho. A boiada já estava presa no curral da quarentena, que ficava logo no  início do engenho, antes de chegar-se ao belo corredor dos paus d’arco.&lt;br /&gt;_Trouxeram tudo?&lt;br /&gt;_Das duas fazendas, coronel. Todo o gado veio.&lt;br /&gt;_Obrigado, Jacinto; era assim mesmo que devia ter sido feito o serviço. Deu muito trabalho?&lt;br /&gt;_Um pouco, coronel, mas veio!  &lt;br /&gt;_Desatrelem os animais, mande seu povo banhar-se no rio dos fundos e esperar na senzala velha. Vou mandar servir a janta pra eles. Quantos são?&lt;br /&gt;_Onze, coronel: eu e mais dez.&lt;br /&gt;_Vão pra lá. Comem já!&lt;br /&gt;O coronel, sequioso por ter por perto sua última grande boiada, olhou para a floração amarela da estrada da chegada do engenho, depois para o sol já semi- encoberto por trás da serra da Barriga, desistiu de fazê-lo àquela hora e entrou. Amanhã, ainda com o orvalho frio olharia os animais e faria suas anotações.&lt;br /&gt;As falas do vendaval, defendendo-se umas das outras, marcam limites e impedem trânsitos e atiçam olhares que não se distraem. E assim são histórias mal contadas. Os desejos transitam entre as almas.&lt;br /&gt;O avô do coronel Falindo era um português manso e trabalhador que havia chegado às terras de Santa Maria Madalena com uma família de portugueses ricos que logo se dispuseram a erguer uma grande cruz como símbolo da fé cristã nas terras do alto do povoado. Morrera ainda jovem de tuberculose pulmonar, trazida da cidade de São Salvador. O pai do coronel retornara para Portugal e não dera mais notícias ao filho, costume raro entre o povo que emigrava de lá para ocupar nossas terras daquém mar.&lt;br /&gt;O coronel era um homem que escondia sua melancolia e não se apartava de sorrisos gentis para todos. Fora ele o primeiro adepto – corajoso ser – quando se aproximaram os anos de abolição da escravatura, a defendê-la.&lt;br /&gt;Ouro não tinha mais. Pela estrada à frente da casa-grande do engenho saiu toda a fortuna herdada. A espreguiçadeira balançava seu corpo descansado, enquanto afilava o bigode ruivo, horas a fio. Os títulos passaram – não iam trabalhar para seu sustento. A Corte ruiu, e  amigos verdadeiros moravam longe demais um do outro.&lt;br /&gt;Vendi a penúltima parelha de boi de carro e a última jóia de Deolinda. Restam-me as flores dos ipês da aléia do engenho. Quero enterrar-me sob elas, em dia ensolarado onde mais cantarem os pintassilgos e os sábias. Desejo morrer triste em alegre dia de primavera. Avô rico, filho famoso, neto..., só não se foi a memória que tudo guardou para me doer até o último suspiro, esta, se também não tiver que vender...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115307893914492940?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115307893914492940/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115307893914492940&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115307893914492940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115307893914492940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/herana.html' title='A Herança.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115305829066772750</id><published>2006-07-16T06:53:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T06:58:10.680-07:00</updated><title type='text'>Lições de Pai.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/li??oes"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/li%3F%3Foes%20de%20pai.14.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Há dias nos quais amanhecemos com uma vontade incomum de relembrar o passado, as pessoas de quem tanto gostamos. Nesses dias eu aproveito para adentrar em um saudoso conto, não sei como, mas como personagem, narrador e autor – impossível para a teoria literária, mas bem possível para meus devaneios como escritor. Eis-me a contá-lo – apenas um de tantos queridos e guardados.&lt;br /&gt;A criança possui uma relação muito especial com a vida. Nossa mãe, um grande encanto; nosso pai – um amor que nos exige a imensa  força da ordem. O meu pai proporcionava instantes mágicos. Seus afagos – raros –  viviam escondidos n’algum lugarzinho, pouco achável, no seu peito. Saíam para mim meio que envergonhados, não totalmente fabricados; eram como seus abraços frouxos, sem o jeito especial dos de mamãe. Que me lembre, somente no dia de minha formatura é que recebi dele um abraço de homem para homem, apertado, molhado de lágrimas, só do meu lado. Atrás de minhas lágrimas vi-o sombreado e trêmulo. Ouvi sua voz que me dizia:&lt;br /&gt;_Não chore, meu filho, hoje é um dia de alegria.&lt;br /&gt;De fato o era, mas eu preferira chorar a sorrir – talvez uma outra forma de me ver alegre àquela hora. Um filme muito vivo saía da memória e se escondia entre nós dois e eu, mais que ele, o enxergava com seus sons e suas almas – seus fantasmas, deixava para possíveis e futuras sessões  de psicanálise.&lt;br /&gt;Costumava ouvir dele que:&lt;br /&gt;_ Se não te fizer chorar logo pelas tuas fraquezas, filho, eu é quem o farei amanhã por ti. Seu pai carece vencer as experiências dos anos comidos pelo tempo; saiba disso para ter paciência em esperar da vida suas aulas de sobrevivência. O pai olha esses erros e os enverniza com sua sapiência. A vida é mesmo assim. Só quando fores velho é que enxergarás o que hoje te parece ser maus-tratos, implicância minha, o que não gostas de ouvir.&lt;br /&gt;Meu pai foi um homem de valores, quase sempre atrelados às suas grandes amizades. Recebia-os com o melhor de sua generosidade.  Possuía mãos abertas, coração bondoso, gestos grosseiros, às vezes, de presentear a quem gostava. Era dele esse jeito característico; nada mais carregava nele que não fosse um gracioso gesto diferente de servir. É que, além de ter ficado órfão de pai, pequenino, a vida tinha lhe sido cruel. Como poderia ele ter aprendido a suavidade dos gestos de um bailarino russo ou de uma madrilhenha dançarina de castanholas? Era um homem docemente rude. Meu pai era assim... do jeito próprio que escolhera ser ou ter-lhe permitido a vida dura que teve.&lt;br /&gt;Jamais desejei que papai declamasse  para mim Shakespeare. Ele gostava de corrida de mourão, do ar telúrico das fazendas de gado, da troca e venda de grandes objetos, de viajar infrenemente.&lt;br /&gt;A ladeira era alta. O carrinho de minha irmã estava estacionado debaixo do frondoso cajueiro. Era um domingo quente. No  terraço estavam: ele, mamãe, minha irmã mais velha e a do meio – dona do Volkswagen bege. Quando ouvi o seu grito, estava encostado no carro. Lembro que lhe respondi. Fui ríspido com ele. Ouvi palavras árduas que nunca desejei sabê-las.&lt;br /&gt;_Moleque, me respeite, desço já daqui e você vai ver aí o que lhe faço!&lt;br /&gt;_Desça! Eu espero, desça!&lt;br /&gt;Minha alma dizia só para mim: não desça, eu te amo, não se enraiveça mais. Fique onde está.&lt;br /&gt;Olhei novamente a ladeira de barro escarlate, chamei minha irmã do meio e descemo-la entre falas de tristeza e mágoas. Nem olhamos para trás.&lt;br /&gt;Passei mais de dois anos envergonhado e fora de casa. Vivi com uma tia paterna preparando-me para abraçá-lo, quem sabe um dia outro, sem mágoas, sem ladeiras, sem barro...&lt;br /&gt;Eis que eu declamava Shakespeare para tantos e nunca para ele. Podia tê-lo transformado noutro homem, quem sabe ter sido seu pai..., seu amigo, talvez. Mas seus abraços, dali em diante foram todos diferentes. Sempre esperei um especial. Havia um vapor incandescente que brotava de seu peito na direção do meu que, apesar de boquiaberto, nada me falava.&lt;br /&gt;Acho que podia tê-lo ensinado a ser poeta como eu. Não sei...mas poeta não se faz, se é. Mas havia outras coisas que eu aprendera no banco da escola que podia ter-lhe passado. Não o fiz.&lt;br /&gt;Hoje, pensando nele e na vida que  levo, posso afirmar para mim mesmo que, além de não ter aprendido a ser filho, ainda pequenino, perdi-o para o além que sequer me escuta. Ele hoje não chora mais por mim. Por ele choro, eu na pressa do desvendamento do erro que nos coube separadamente juntos.&lt;br /&gt;_Meu filho, você ainda dirá – ó que saudade de papai...&lt;br /&gt;Hoje pela manhã acordei assim: triste, cabisbaixo, repetindo suas palavras. É por isso que as conto nesse conto. Quem me dera tê-lo aqui, agora, ao lado deste lápis e deixá-lo autografar este conto. A vida está sendo da forma como ele anunciou para mim. Nem uma vírgula a mais ou a menos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115305829066772750?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115305829066772750/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115305829066772750&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115305829066772750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115305829066772750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/lies-de-pai_115305829066772750.html' title='Lições de Pai.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115305447733994855</id><published>2006-07-16T05:45:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T05:54:37.353-07:00</updated><title type='text'>Um Sonho Quente...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/retirantes.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 194px; CURSOR: hand; HEIGHT: 193px" height="159" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/retirantes.jpg" width="194" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O sereno da noite, escondido dos olhos pela escuridão do final de tarde, esfriava o ar ainda morno. A ema correu sem muita pressa à frente da arapuca dos preás, próxima ao oitão de casa. Nem achei tempo para movimentar a soca-tempero e acertar aquele tesouro cheio de carne. Meus olhos ficaram se lastimando de sua fuga; permaneci quieto a vasculhar o horizonte da caatinga, interrompido pelos galhos secos desfolhados do término da estação seca. Até aquela ave solitária procurava à-toa o alimento da vida. Faltava apenas Graciliano, papel e caneta – sem Baleia – é claro, senão a ema não teria desfilado sem riscos. Mas fui eu quem a vi e quem ali estava e pronto!&lt;br /&gt;Os dias sempre são desiguais, não diante do tempo, impropriamente medido pelos homens, mas porque nem  toda manhã é igualmente desserenada, nos verões do sertão quente que, mesmo inóspito, esconde a vida para encher a sobrevivência de seus campos.&lt;br /&gt;Acordei atordoado. Meu quarto estava um forno. O pescoço molhado fingia fartura de água. Lá longe eu ouvi bater os pingos no zinco da  cisterna – talvez na calha troncha que, boquiaberta, esperava tão ansiosa que as águas descessem pelas entranhas das telhas e a enchessem. Quis até gritar de alegria – seria chuva mesmo? Quando esperamos por ela ao longo de seis verões seguidos, custa-nos acreditar que é ela mesmo que ouvimos. Até sonhando poderia estar. A zoada quem sabe, não seria a areia vomitada por algum redemoinho atrevido criado pela quentura do tempo.&lt;br /&gt;Pulei da cama e corri na direção da porta. Fui atrás da maior alegria do sertanejo – a água que cai do céu e devolve ao homem uma promessa de fartura e bom ano. Cadê zinco, cadê pingo, cadê chuva. Quando ultrapassei a porta, haja estrada à vista. Meu olhar ardia com  o beijo do sol quente.&lt;br /&gt;Cruzei seixo a seixo de veredas e estradas largas. Quando passava a procissão de miseráveis retirantes no lombo de velhos caminhões, a cortina de areia e barro não me deixava ver seus acenos. Ouvia apenas a algazarra que não representava em absoluto a alegria de uma fuga, mas a tristeza de não poder ficar-se onde se gosta, onde se ama, onde se quer ficar...&lt;br /&gt;Senti sede – que nunca havia sentido outrora. Lembro-me de que caminhei até a exaustão. Por instantes de cócoras, minhas canelas cederam ao peso do corpo e dos ossos que ainda pesavam por sobre os joelhos, e sentei-me no chão mormaçado sob a copa de um juazeiro teimoso, ainda verde, ainda vivo. Os olhos escureceram o tempo e nem estava ele perto da noite. Era a voz da fome persistente. Olhei para as folhas verdes da árvore e a boca salivou; não pela fome, mas pela mania matutina de escovar os dentes com a suculenta seiva de seu entrecasca ou com a cobertura de suas sementes. Não daria certo comê-las: seus frutos estavam imaturos.&lt;br /&gt;Quando o redemoinho passou, com a vista agora cinzenta e não mais negra, vi a briga de dois galos-de-campina. Pareciam trancafiados numa bola alvirrubra. Embolavam bem próximos aos meus pés. Mexi com o dedão do pé direito e vi quando apenas um alçou vôo. O outro, espantado, quase vivo e quase morto, aquietou-se a olhar-me. A ave queria morrer.&lt;br /&gt;Eu carecia dele para sobreviver, ele de mim para acudi-lo. Um de nós podia morrer; ele era o que estava mais próximo da morte. Avancei para ele sem pensar, retirei-lhe as penas, espremi o bucho, retirei-lhe as tripas quase secas e de um só golpe devorei-o. A digestão foi remorsiva e longa. Senti um nojo vindo da alma. Mas fazer o quê?&lt;br /&gt;O dia foi passando na calmaria do calor imenso que fazia. Nem cobra andava nas estradas anunciando chuva. Um passarinho na barriga me deixaria viver mais alguns dias. Pus-me semifarto e condenado a palitar os dentes e a olhar as pernas do dia – eram tantas.”&lt;br /&gt;Dessa vez era eu quem quase pulava da cama mesmo. Tudo para trás desse horizonte era sonho. De tanta fome que estava quando fui dormir, alisou-me esse pesadelo. Levantei-me, fui à porta, abri a parte superior e vi o sol que ao menos havia nascido e já secava quase tudo o que beijava – até a água enlamaçada do barreiro da frente de casa. Cadê pingo d’água, cadê chuva: a calha, penca e quase a cair, ardia de quente. Foi então  que vi que aquele dia que nascera, seria apenas um outro da via-crúcis que tínhamos que atravessar para tentar vencê-la. Mas não deixaria o sertão por nenhuma enxurrada noutro destino. Por aqui o sonho mostra quase sempre o que esperamos e parece nunca chegar.&lt;br /&gt;Ao meio-dia fugiu outro punhado de desconsolados do sertão. Foram para os lados das Minas Gerais. Duvido que se acostumem. Pode até ser que sim..., mas, quando arrumarem qualquer tostão e puserem no bolso, é só deste solzão sertanejo que se lembrarão e para aqui sempre retornarão. Aí, vão tornar a sonhar como eu e viver a esperança da fartura de água e de sonhos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115305447733994855?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115305447733994855/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115305447733994855&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115305447733994855'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115305447733994855'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/um-sonho-quente.html' title='Um Sonho Quente...'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115296970177317537</id><published>2006-07-15T06:09:00.000-07:00</published><updated>2006-07-15T06:21:41.793-07:00</updated><title type='text'>Quem cuidará de mim...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/pes.1.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 227px; CURSOR: hand; HEIGHT: 196px" height="90" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/pes.1.jpg" width="146" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe avistei o mimoso bangalô de Janine.Quando à porta, veio atender-me sorridente e solícita. Apanhou minha mala e fez-me entrar. Acho que o terracinho da frente não possuía mais do que quatro metros quadrados. Espremi-me na metade aberta da folha da porta e me senti em casa. Cansada, suada, só pensava em tomar  um bom banho frio. Recife estava um forno. Eu havia andado quase dois quilômetros a pé, arrastando a mala.&lt;br /&gt;Havia alguém ao piano. Uma canção  triste chegou até meus ouvidos. Quando me aproximei da sala de jantar, vi que quem tocava estava cabisbaixa, sem olhar para o teclado mas para o chão onde uma linda siamesa, de pernas abertas, acomodava um só gatinho a sugar-lhe as tetas. Quando me aproximei dela ouvi:&lt;br /&gt;_Já fui interna na tamarineira quatro vezes!&lt;br /&gt;E a linda moça voltou a tocar, cabisbaixa e a olhar a linda gata  marrom e de olhos cinzas como a água do mar à frente da casa. Percebi que a jovem não era como as outras.Olhou-me por sobre o ombro e quando foi falar comigo novamente foi advertida pela dona da pensão.&lt;br /&gt;_Se começar a falar suas besteiras, interno-a novamente.&lt;br /&gt;_Não..., não, linda amiga...,não. Vou tocar sua música, está bem?&lt;br /&gt;Posicionou-se melhor no banco,esqueceu a siamesa parida e esmerou-se ao tocar uma linda valsa vienense para Janine. Os olhos desta brilharam de alegria, como se escutasse uma lembrança viva de algo que lhe  havia sido roubado pelo tempo.&lt;br /&gt;Todos os dias lá ia eu fazer meu tratamento. À noite, após o jantar, é que dava valor e atenção aos diálogos de Carolina. Sua fala mansa, seus gestos fidalgos, tudo me levava a alimentar sua conversa até tarde da noite. Eu apreciava ouvi-la.&lt;br /&gt;_Eu sou filha única, Leila. Papai  morreu eu era ainda meninota, talvez tivesse uns seis anos. Minha mãe morreu faz uns doze anos. Como não tinha um parente e dona Janine era sua melhor amiga, pediu-lhe que tomasse conta de mim. Mas Leila, ela  gostou. Mamãe deixou para ela duas aposentadorias e esse bangalô. Não foi bom?&lt;br /&gt;_Foi, Caroline. E você gosta dela?&lt;br /&gt;_Adoro. Só fico com raiva quando ela me interna na Tamarineira e se esquece de mim. Eu não gosto de sair daqui. Meu bangalô é minha vida e meu piano, meu amor. Às vezes fico internada por meses.&lt;br /&gt;Carol, como passei a chamá-la, era um doce de pessoa. Passava as horas sentada a ouvir a voz do horizonte. Quando chegava alguém para se hospedar, era-lhe sua única chance de trocar algumas palavras. Sentia-se viva e, talvez, suas internações fossem o motivo mais forte que lhe chegasse à tona, da memória.&lt;br /&gt;Janine recebera uma tarefa dífícil.Era a curadora da moça. Tinha que suportar o alarido dos gestos precipitados dela. Coroline era vítima de uma intransponível solidão, fruto acre de uma esquizofrenia que lhe destruiu o convívio social logo aos doze anos de idade, quando apenas era apresentada à vida.&lt;br /&gt;Certo dia encontrei Janine chorando quando retornei do hospital. Indaguei-lhe sobre o porquê de estar assim. Ouvi-a sem me fazer compreender, mas, meio a tão fortes soluços, conseguiu dizer-me:&lt;br /&gt;_Leila, a Carol está ficando muito pesada para mim. Uma cruz muito forte. Não tenho para quem deixá-la. Estou fraca, doente, com um coração que resiste funcionando pelo atrevimento da caridade a que me propus fazer a Olga, mãe de Carolina. O que faço, amiga..., por que eu? Tantas outras pessoas poderiam estar no meu lugar.&lt;br /&gt;Eu pus sua cabeça no meu colo, olhei para o alto para sustentar os pingos de minhas lágrimas e tentei acalmá-la. Foi em vão. Chorou bastante adormecendo em seguida. Sincronicamente ao peso do seu sono, ouvi a valsa vienense sendo tocada pela jovem, enquanto Janine dormia.&lt;br /&gt;Ela escutou toda a nossa conversa. No dia seguinte, quando eu tomava o desjejum, ouvi dela, na pressa de ser por mim compreendida:&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663300;"&gt;&lt;strong&gt;_Ela não me quer mais, Leila?&lt;br /&gt;_Quer sim! Como ela está velha, é natural que se preocupe com você. É sua única amiga. Quem cuidará de você após sua morte?&lt;br /&gt;_Quando ela morrer, Leila, não me leve para a Tamarineira. Por favor. Você promete?&lt;br /&gt;Tive que prometer. Ali passaria apenas quarenta e cinco dias, ia fazer o quê? Carol necessitava dessa resposta e assim o fiz.&lt;br /&gt;Em setembro de 1975 a velha faleceu. Como estava a par de tudo, viajei do interior e fui buscar Carol. No mesmo dia do funeral a retirei do bangalô ela sorria de felicidade, dava pulos de alegria e eu lhe indaguei acerca do seu estado de espírito:&lt;br /&gt;_Carol, você está tão feliz..., por quê?Quem cuidará de mim?&lt;br /&gt;De longe avistei o mimoso bangalô de Janine.Quando à porta, veio atender-me sorridente e solícita. Apanhou minha mala e fez-me entrar. Acho que o terracinho da frente não possuía mais do que quatro metros quadrados. Espremi-me na metade aberta da folha da porta e me senti em casa. Cansada, suada, só pensava em tomar  um bom banho frio. Recife estava um forno. Eu havia andado quase dois quilômetros a pé, arrastando a mala.&lt;br /&gt;Havia alguém ao piano. Uma canção  triste chegou até meus ouvidos. Quando me aproximei da sala de jantar, vi que quem tocava estava cabisbaixa, sem olhar para o teclado mas para o chão onde uma linda siamesa, de pernas abertas, acomodava um só gatinho a sugar-lhe as tetas. Quando me aproximei dela ouvi:&lt;br /&gt;_Já fui interna na tamarineira quatro vezes!&lt;br /&gt;E a linda moça voltou a tocar, cabisbaixa e a olhar a linda gata  marrom e de olhos cinzas como a água do mar à frente da casa. Percebi que a jovem não era como as outras.Olhou-me por sobre o ombro e quando foi falar comigo novamente foi advertida pela dona da pensão.&lt;br /&gt;_Se começar a falar suas besteiras, interno-a novamente.&lt;br /&gt;_Não..., não, linda amiga...,não. Vou tocar sua música, está bem?&lt;br /&gt;Posicionou-se melhor no banco,esqueceu a siamesa parida e esmerou-se ao tocar uma linda valsa vienense para Janine. Os olhos desta brilharam de alegria, como se escutasse uma lembrança viva de algo que lhe  havia sido roubado pelo tempo.&lt;br /&gt;Todos os dias lá ia eu fazer meu tratamento. À noite, após o jantar, é que dava valor e atenção aos diálogos de Carolina. Sua fala mansa, seus gestos fidalgos, tudo me levava a alimentar sua conversa até tarde da noite. Eu apreciava ouvi-la.&lt;br /&gt;_Eu sou filha única, Leila. Papai  morreu eu era ainda meninota, talvez tivesse uns seis anos. Minha mãe morreu faz uns doze anos. Como não tinha um parente e dona Janine era sua melhor amiga, pediu-lhe que tomasse conta de mim. Mas Leila, ela  gostou. Mamãe deixou para ela duas aposentadorias e esse bangalô. Não foi bom?&lt;br /&gt;_Foi, Caroline. E você gosta dela?&lt;br /&gt;_Adoro. Só fico com raiva quando ela me interna na Tamarineira e se esquece de mim. Eu não gosto de sair daqui. Meu bangalô é minha vida e meu piano, meu amor. Às vezes fico internada por meses.&lt;br /&gt;Carol, como passei a chamá-la, era um doce de pessoa. Passava as horas sentada a ouvir a voz do horizonte. Quando chegava alguém para se hospedar, era-lhe sua única chance de trocar algumas palavras. Sentia-se viva e, talvez, suas internações fossem o motivo mais forte que lhe chegasse à tona, da memória.&lt;br /&gt;Janine recebera uma tarefa dífícil.Era a curadora da moça. Tinha que suportar o alarido dos gestos precipitados dela. Coroline era vítima de uma intransponível solidão, fruto acre de uma esquizofrenia que lhe destruiu o convívio social logo aos doze anos de idade, quando apenas era apresentada à vida.&lt;br /&gt;Certo dia encontrei Janine chorando quando retornei do hospital. Indaguei-lhe sobre o porquê de estar assim. Ouvi-a sem me fazer compreender, mas, meio a tão fortes soluços, conseguiu dizer-me:&lt;br /&gt;_Leila, a Carol está ficando muito pesada para mim. Uma cruz muito forte. Não tenho para quem deixá-la. Estou fraca, doente, com um coração que resiste funcionando pelo atrevimento da caridade a que me propus fazer a Olga, mãe de Carolina. O que faço, amiga..., por que eu? Tantas outras pessoas poderiam estar no meu lugar.&lt;br /&gt;Eu pus sua cabeça no meu colo, olhei para o alto para sustentar os pingos de minhas lágrimas e tentei acalmá-la. Foi em vão. Chorou bastante adormecendo em seguida. Sincronicamente ao peso do seu sono, ouvi a valsa vienense sendo tocada pela jovem, enquanto Janine dormia.&lt;br /&gt;Ela escutou toda a nossa conversa. No dia seguinte, quando eu tomava o desjejum, ouvi dela, na pressa de ser por mim compreendida:&lt;br /&gt;_Ela não me quer mais, Leila?&lt;br /&gt;_Quer sim! Como ela está velha, é natural que se preocupe com você. É sua única amiga. Quem cuidará de você após sua morte?&lt;br /&gt;_Quando ela morrer, Leila, não me leve para a Tamarineira. Por favor. Você promete?&lt;br /&gt;Tive que prometer. Ali passaria apenas quarenta e cinco dias, ia fazer o quê? Carol necessitava dessa resposta e assim o fiz.&lt;br /&gt;Em setembro de 1975 a velha faleceu. Como estava a par de tudo, viajei do interior e fui buscar Carol. No mesmo dia do funeral a retirei do bangalô ela sorria de felicidade, dava pulos de alegria e eu lhe indaguei acerca do seu estado de espírito:&lt;br /&gt;_Carol, você está tão feliz..., por quê?&lt;br /&gt;_Porque você é nova e não vai morrer primeiro do que eu e vou morar bem longe da Tamarineira. E a alma de Janine será que vem me buscar? Não deixe não...&lt;br /&gt;_Não. Vamos entrar no ônibus. Cuidado com sua perna. Suba!&lt;br /&gt;Cuidei dela por oito anos. Morreu como um passarinho com a cabeça sobre o piano, enquanto tocava a valsa vienense para mim. Eu fazia crochê quando ouvi o baque da sua cabeça no teclado. Morreu após tocar a última nota da valsa. Ainda hoje me lembro de Carol, quando pareço estar a enxergar o mesmo horizonte vazio que ela tão facilmente achava. Não parei para pensar ainda: quando eu não puder mais,quem cuidará de mim?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115296970177317537?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115296970177317537/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115296970177317537&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115296970177317537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115296970177317537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/quem-cuidar-de-mim_15.html' title='Quem cuidará de mim...'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115296818624381077</id><published>2006-07-15T05:51:00.000-07:00</published><updated>2006-07-15T05:56:26.256-07:00</updated><title type='text'>A Vaga continua Vaga...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/onibus.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ccccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/onibus.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ccccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#999999;"&gt;Havia  feito uma seleção de meia dúzia de moças, entre tantas que procuravam desesperadamente emprego. Sheila havia se mostrado habilíssima no computador. Não a chamei porque não havia encontrado em suas feições algo que me agradasse. Magérrima, miudinha, quatro fios de cabelos na cabeça, feição triste. Nela, nada me lembrava que era do sexo feminino. Guardei seu currículo vitae porque não esqueci sua destreza diante do computador. Uma voraz digitadora.&lt;br /&gt;Em um período de três semanas, acho que testei uma meia dúzia de jovens bonitas, educadas, prontas para ocuparem a vaga de recepcionista  na clínica. Nestas, o desempenho diante da máquina era bem aquém daquela excluída. Como escrevo muito, uma digitadora me era bastante necessário. Deixei os dias passarem. Certo dia, quando tardinha, resolvi ligar para Sheila.&lt;br /&gt;_Empregada, já?&lt;br /&gt;_Que nada! Com quem eu falo?&lt;br /&gt;_É da Clínica Santa Ana. Lembra-se?&lt;br /&gt;_Onde fiz meu último teste?&lt;br /&gt;_Não sei se foi o último, mas sei que o fez aqui. Ainda se interessa pela vaga?&lt;br /&gt;_Claro que sim. Quando posso ir?&lt;br /&gt;_Amanhã, às oito. Aqui conversaremos melhor.&lt;br /&gt;No dia seguinte quando cheguei à clínica, já a encontrei. Mal vestida, de poucas palavras, esperava por mim um tanto ansiosa diante do computador.&lt;br /&gt;_Bom dia!&lt;br /&gt;Se me respondeu, juro que não a ouvi. Deixei-a para trás e chamei a outra jovem que já trabalhava para mim. Pedi que a observasse porque tinha interesse em contratá-la.&lt;br /&gt;No fim do dia, antes de dispensá-la, demonstrei o interesse em tê-la conosco no quadro de funcionários da clínica. Notei-a contente. Despedi-me dela e, no dia seguinte, até as nove horas, nenhum sinal de sua chegada. Preocupado, liguei para sua residência. Ouvi de uma senhora, que se dizia sua tia, que nada sabia de seu paradeiro. Seu telefone celular não atendia. Liguei várias vezes. Esqueci-me então. Algo deveria ter-lhe acontecido.&lt;br /&gt;Às dez e trinta o telefone tocou. Era Sheila. Aparentava-se feliz. Sua voz alegre me agradeceu pela oportunidade do emprego e se desculpou por não poder mais trabalhar.&lt;br /&gt;_O que houve, Sheila? Não gostou do ambiente de trabalho?&lt;br /&gt;_Ao contrário, achei-o muito bom. É que vivo com uma colega. Amo-a. Ela conseguiu uma vaga em Salvador e, nesse exato momento, estou no ônibus, a caminho da Bahia onde devo morar ao seu lado e aguardar o meu emprego, já que o dela temos como certo. O senhor sabe, não é..., namorada...&lt;br /&gt;_Então você...&lt;br /&gt;_Nada mais quero ouvir. Era só isso que tinha de falar. Adeus. Já disse tudo o que devia.&lt;br /&gt;Eu então compreendi que Sheila era uma cria do tempo. Havia sido fiel a seu coração. Partiu para deixar emergir de dentro de sua alma o que seu corpinho franzino de homem já me havia dito no nosso primeiro encontro. Felicidade, desejei-lhe. É a vida, seus retoques sobre as ondas naturais do mar que o destino nos traz. Cada macaco no seu galho. Devem estar bem empregadas, corpo e alma rumo ao burburinho dos felizes. Troquei apenas o artigo antes do substantivo. Chamá-la de mulher talvez lhe ferisse a vontade mais verdadeira. O mulher partiu. Voou com as asas dos pés. Diferente o era e o foi. Paciência, chamarei uma outra candidata à vaga. Tomara dessa vez tenha eu mais sorte. Que vá quem devia ir-se e que fique quem o queira. A vaga continua vaga.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115296818624381077?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115296818624381077/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115296818624381077&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115296818624381077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115296818624381077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/vaga-continua-vaga.html' title='A Vaga continua Vaga...'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115292393621012504</id><published>2006-07-14T17:33:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T17:38:56.223-07:00</updated><title type='text'>Reencontro.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/um.0.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/um.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3366ff;"&gt;&lt;strong&gt;            Um silêncio me trouxe saudades da Vânia. Pus meu corpo para repousar dentro de uma felpuda poltrona na saleta de estar do bangalô da Rua Dezesseis. Era fim de tarde. Durante o dia havia corrido muito de um lugar para outro. As pernas doíam pedindo repouso. Enquanto descansava meu corpo magro, a alma viajou buscando aventuras. Deslizava nas ondas de um pedaço do destino vencido, engajada nos fatos que a memória podia nos trazer.&lt;br /&gt;Quando estudávamos juntos, sempre ouvi dela um forte interesse em ser freira. Voltada para a  hierofania, punha sempre as coisas da religião à sua frente. Moça de procissão, terços, novenas. Alma aplicada. Seus cadernos bem zelados causavam inveja aos outros colegas do curso ginasial.&lt;br /&gt;_Quando eu terminar meu curso, vou servir a Deus.&lt;br /&gt;_Mas você já não o faz?&lt;br /&gt;_Quero viver numa clausura, cheia de Deus e oca das coisas falhas do mundo.&lt;br /&gt;_Do lado de  cá você não serviria mais a Ele?&lt;br /&gt;_Claro que não. Eu me contaminaria com os desejos perigosos. Não iria prestar.&lt;br /&gt;Eu detestava essa história de viver para a  religião. Ir às missas aos domingos, raramente o fazia. Não trocava meu futebol dos fins de semana por nada neste mundo. O tempo passou. Eu me surpreendi comigo mesmo. No segundo grau, lá pelas bandas do segundo ano, minha fé em Deus explodiu. Alguma coisa mudou meus passos. Não pude conter o desejo súbito de servir ao Deus que me chegou. Resumindo, fui ordenado padre nos últimos dias de agosto de um mil novecentos e quarenta e seis. Não optei pela clausura; ao contrário, tornei-me um missionário muito  ativo. Fui para as bandas do Xingu, viver entre índios. Não custaria  acontecer o acidente que mudaria novamente minha vida.&lt;br /&gt;Meus pés inchados supuravam por várias úlceras. Já havia feito três cirurgias. Andava manquejando. Sentia dores fortes. Quando pulei do pequeno trator, caí sobre um velho tronco de maçaranduba cheio de pontas. Esfacelei meus pés quase por completo. Perdi muito sangue. Tive que voltar para Maceió. Passei a morar com meus pais. Ia à missa dominical com dificuldade. Quase ninguém nos visitava. Tomei um nojo pela religião porque dentro de minha confraria religiosa não havia fraternidade. Sentia-me abandonado. Não recebia ajuda de ninguém. Guardei minha fé para reencontrá-la  depois.&lt;br /&gt;Encontrei-a na fila de um cinema. Não a reconheci de primeira olhada. Ela não havia me visto. Quando saíamos ela e eu, é que cruzamos o olhar e nos reconhecemos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3366ff;"&gt;&lt;strong&gt;_Quanto tempo, Vânia...&lt;br /&gt;_Digo eu também. Você mudou. É padre, não é?&lt;br /&gt;_Fui!&lt;br /&gt;_Como pode ter sido? Não é para sempre?&lt;br /&gt;_Abandonei a batina.&lt;br /&gt;_Você nunca teve vocação para o sacerdócio!&lt;br /&gt;_Você se engana. Minha fé é forte. A Igreja é que não me interessa mais. Fui abandonado após um acidente que sofri. Ninguém me deu valor. E você, não é freira?&lt;br /&gt;_Casei-me.&lt;br /&gt;_Quem diria, não é? Você..., tão meiga e tão santa..., no cinema, sozinha, sem um hábito.&lt;br /&gt;_Na vida, Manuel, o destino se encarrega de escrever dia-a-dia nossos merecimentos.&lt;br /&gt;_Onde mora?&lt;br /&gt;_No convento do Sagrado Coração de Jesus. Sou recepcionista. Moro lá. Voltei a servir a Deus. Tem missa aos domingos pela manhã. Vá à nossa igrejinha. Só assim nos veremos com mais freqüência.&lt;br /&gt;O tempo passou. Cheguei a ir à missa na capelinha de Vânia. Conversávamos muito pouco. Ela sempre estava distante de mim. Antes de a missa começar, arrumava o altar, ligava os ventiladores, acendia as luzes da nave da capela, preparava tudo.&lt;br /&gt;_Manoel era um homem forte. Enganava-se quem pensasse diferente. Eu não o via há mais de quinze anos. Havia sumido. Eu conseguira receber o hábito e estava morando em Minas Gerais, em um povoado próximo a São João Del Rei. Quase caí ao aproximar-me do padre que dava a comunhão para a multidão. Era ele. Manoel por inteiro. Havia renovado toda sua vida. Fiz questão de olhar nos olhos do seu coração, antes de comungar. Vi o tamanho do Deus que emergia de sua alma transparente. Passei a acreditar no destino e na força da fé.&lt;br /&gt;_Foi assim que você me viu, Vânia, naquele dia?&lt;br /&gt;_Exatamente assim. O que lhe é bom vive estampado em sua face.&lt;br /&gt;E o conclave acabou, viajamos e cada um tomou destino diferente e hoje senti saudades dela. Meu corpo, agora descansado, dá-me os melhores frutos da memória. Achei que já é hora de ir-me. Um montão de fiéis espera por mim. Meus pés pedem a estrada. Vou deixar essa boa lembrança dormir no leito do tempo, com um manso cobertor de memórias. Amanhã nos veremos novamente. O que me importa é que meus pensamentos não levem o meu corpo, jamais, para a lama do pecado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115292393621012504?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115292393621012504/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115292393621012504&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292393621012504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292393621012504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/reencontro.html' title='Reencontro.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115292206204580120</id><published>2006-07-14T17:04:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T09:34:47.646-07:00</updated><title type='text'>As Janelas.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/janela.0.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 348px; CURSOR: hand; HEIGHT: 235px" height="212" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/janela.0.jpg" width="356" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc9933;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Na praça escura, só o vento corria frio e livre. O sol, vestido por nuvens escuras carregadas de chuva, estava longe de abrir-se num leque de luz. Os canteiros de grama mais pareciam estradas descascadas, cheias de seixos mofados da poeira, esquecidas de tudo. Os bancos eram ninhais de pardais – sujos e mal cheirosos. Era o dia mais infeliz de minha vida. Diagnóstico às mãos, esperança não sei onde, olhos baços e molhados das lágrimas de minha tristeza. Um quadro mórbido a qualquer olho.&lt;br /&gt;Nestor nunca me pareceu ser um moço triste. Antes de apertar-me a mão, seu sorriso exagerado me tocava, como se reflexo de uma felicidade fosse. Possuía rotinas para tudo. A hora que saía para trabalhar era sempre a mesma. Alimentava com vigor o hábito da leitura dos principais jornais. Nunca reclamava do cansaço físico.&lt;br /&gt;Nossa amizade faria quarenta e dois anos em abril - dia trinta. Ele não ligava para esse tipo de comemoração. Se estava lendo, não nos adiantava chamá-lo – não respondia. Possuía hora certa para suas tarefas: cada coisa no seu tempo certo. – Um perfeccionista invadido pela solidão. ”&lt;br /&gt;_Este é o conto, professor?&lt;br /&gt;_Um pedaço dele. Dar-lhes-ei as questões que quero que vocês façam. São fáceis. Observem as aspas, o foco narrativo, como o autor começa descrevendo o ambiente onde está. Concordaram que há um clima de suspense? Pensaram numa descrição acerca de um suicida? Entendam as pistas dadas pela narrativa.&lt;br /&gt;Os alunos pensavam silenciosos: professor novato, início de ano letivo, classe cheia. Isso acontecia nas primeiras horas de uma segunda-feira. Um texto para ser trabalhado em sala de aula.&lt;br /&gt;_Os que já terminaram, ponham seus testes sobre o birô.&lt;br /&gt;Saí da sala de aula com um calhamaço de testes sob o braço. Eles comentavam curiosos sobre o enredo do conto. Uns diziam ter achado fáceis as respostas solicitadas. Outros demonstravam ter tido certa dificuldade. Queria avaliá-los com muito cuidado. Esse engajamento era do que necessitava.&lt;br /&gt;Quando cheguei à sala dos professores, tomei alguns goles d’água, sentei-me na longa mesa lustrosa e cheia de cadeiras, onde pus a pasta e os papéis. Por fim sentei. Enxuguei a testa suada com meu lenço azul. Quando levantei o olhar, vi o quadro do conto do outro lado da janela à minha frente. Havia uma praça, um banco sujo, um gramado descuidado, um ambiente triste. O tempo queria chover. Ventava muito. Ouvi o grito do alunado que aproveitava os vinte minutos de descanso do recreio e apreciei a paisagem. Apossou-se de mim um sentimento de tristeza. Fiquei enlouquecido quando dei por mim e deduzí que não havia janela alguma à minha frente, nem tampouco a praça. O dia era de um sol forte. As cadeiras da sala estavam todas ocupadas pelos meus colegas professores. Não os havia visto minutos antes. Algo estava estranho dentro de mim.&lt;br /&gt;Desisti de ensinar, estive interno em hospital psiquiátrico enésimas vezes. Hoje, para onde olho, vejo janelas – o que me é mais cruel é que elas se encaixam dentro de outras, outras e nunca vejo a praça dentro de nenhuma delas.&lt;br /&gt;Se estivesse a enxergar dentro da moldura da janela enredos para a tessitura dos contos e se pudesse trabalhá-los com meus alunos, assim bom me seria. Hoje, vejo uma janela aberta. Quando fixo nela o meu olhar, enxergo uma outra. Adentro e estou noutra. Nada mais vejo além disso. Uma sucessão ininterrupta de janelas vazias, desmolduradas; energúmenas visões que me incomodam.&lt;br /&gt;Aposentaram-me. Que injustiça! Não via motivos para procurar meus contos enjaulado nas janelas que juntas tanto enfeitiçavam meus olhos. Os remédios passaram a ser-me taramelas de destruição. No isolacionismo das celas do hospício, a morte chegar-me-á como uma grande porta sem que eu saiba se lá fora há banco sujo ou praça. Tomara que chova e lave tudo até o que já escrevi quando não olhava tanto para as janelas da vida. Vou aprendendo a morrer a cada dia onde minha alma vai sendo consumida neste universo isolado de qualquer razão, onde me vejo desnudo até de minha dignidade. Minhas janelas me são menos cruéis, do que o próprio mundo onde habito. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115292206204580120?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115292206204580120/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115292206204580120&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292206204580120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292206204580120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/as-janelas_14.html' title='As Janelas.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115292124617276089</id><published>2006-07-14T16:46:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T16:54:06.176-07:00</updated><title type='text'>Éramos Cinco.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/eramos%20cinco.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/eramos%20cinco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ff99ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos cinco. Sempre fomos. Meu pai, eu e as três personagens do poema: o poeta, o músico e o pintor. Ele declamava para mim, quase todas as noites antes de eu dormir e eu me fartava com tanta poesia. Sua voz suave encenava o poema, e realmente me sentia diante dos quatro. Todas as noites isso se repetia. Era gostoso. Uma atitude mansa e humana que saía espontânea do outro poeta que morava na alma do meu velho pai. O sono me vinha como uma doce melodia.&lt;br /&gt;Eu dormia feliz abraçado aos anjos do céu que desciam ao meu quarto para me fazer companhia até o fim da madrugada, quando então me chegava a vigília. Menina simples e feliz, eu fui ao seu lado, ouvindo seus versos que me entorpeciam e aprendendo a ser gente grande.&lt;br /&gt;_Não vai dormir agora, minha filha?&lt;br /&gt;_Estou sem sono, pai. Declame aquele poema bonito..., aquele...&lt;br /&gt;Dos três, não é?&lt;br /&gt;_Dos três, pai, esse mesmo. Comece.&lt;br /&gt;O sonho belo saía de seus lábios, aflorados pela força inesgotável de seu espírito lírico e grandioso. Enchia o peito e começava a declamá-lo no compasso do amor que tinha por mim, sua filha querida, admiradora inconteste! Semente de suas esperanças.&lt;br /&gt;Antes de ouvir os versos do primeiro terceto, já começava a ver os anjos descerem do céu. A voz de papai era tão doce que açucarava meus olhos e eu dormia ao lado do meu anjo de guarda sempre vigilante. Do poema, o músico saltava sorrindo, tocando um instrumento belíssimo que possuía um som entre a harpa e o violino. Em seguida era a vez do pintor. Nesse instante meu sonho entrava na moldura do céu e seus pincéis alisavam meus cabelos lisos, escorridos no rosto, e eu era meio anjo e meio deusa. Era a vez da figuração do poeta. Ele era o meu saudoso pai e o meu saudoso pai era ele, o poeta fantástico que, de fantasma, nada tinha. Era vivo, vivia sorrindo na alma do velho, quando lia os versos espremidos de felicidade que saíam do seu coração. Ah! que poeta! Ah! que pai...! Ah! que poema lindo, que o tempo não mostra mais! Ah! que sonhos lindos, Ah! que sorrisos fortes! Ah! que anjos, anjos desses que já nem se fala mais! Ouvia verso a verso até onde podia resistir o meu sono. Ele chegava galante e traiçoeiro e não me deixava ouvir o poema até o fim. Era propósito, eu penso, senão não haveria graça em ouvi-lo de novo, todo declamado, tudo dito dentro de mim. Era-me importante não ouvir todas as suas estrofes.&lt;br /&gt;Dormi muitos sonos, ouvi aquele soneto tantas outras vezes, senti a alma feliz, o peito adocicado, ouvido enfeitiçado, a mágoa sumida. Era o verbo que engrandecia minha’alma ao ouvir o velho poeta cantar o poema. Todas as noites era como se eu ressuscitasse e ganhasse alma nova. Adorava ouvi-lo, única forma de dormir feliz.&lt;br /&gt;_Não está com sono, filhinha?&lt;br /&gt;_Não paizinho. Declama para mim o soneto?&lt;br /&gt;_Deite, abra o seu coração, primeiro do que seus ouvidos e escuta o que lhe diz minha alma agradecida por ser seu paizinho querido. Este soneto sou eu e nele estou. É a forma ímpar e feliz de   pari-la todos os dias em que a ponho para dormir. Ele e eu, na busca da aurora dos seus lindos sonhos de criança. Decore-o, para que, quando não mais me tiver aqui, tenha ele no seu coração guardado feito uma prece. Dou-lhe como espólio do meu amor verdadeiro, de alma para alma. De coração para coração.&lt;br /&gt;Um triste dia, desses muito tristes mesmo, perdi o meu pai poeta, aquele que sabia de cor o soneto que continha os três: o pintor, o músico e o poeta. Chorei amargamente por duas dores perversas: sua perda e a do soneto que nunca havia decorado. Ele só estava completo quando saído dos lábios do meu pai poeta e por isso, acho, nunca o quis decorado.&lt;br /&gt;Meu pai era mesmo um homem santo. Eu, já adulta, após ter passado milhares de noites sem aquele soneto cadente e melódico aos meus ouvidos, recebi sua visita na madrugada, em sonho. Ouvi-o recitá-lo manso. Era tudo tão perfeito que até pressenti que estava sonhando e tentei decorá-lo. Consegui até começar o primeiro terceto. O sonho acabou frente ao sorriso que enxerguei nos seus lábios; ficaram a saudade gostosa, dois versos vencidos pela memória que os guardou para sempre e a lembrança do maior poeta que tive, meu pai.&lt;br /&gt;Quem porventura achou por essas madrugadas frias um soneto simples, um espírito altivo e belo, tudo isso dentro de um ser sacrossanto, traga-me esse presente, se possível, hoje, antes do anoitecer pois nada mais é do que meu pai presente num lindo presente de pai.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115292124617276089?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115292124617276089/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115292124617276089&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292124617276089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292124617276089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/ramos-cinco_14.html' title='Éramos Cinco.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115292060460959424</id><published>2006-07-14T16:28:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T16:43:24.626-07:00</updated><title type='text'>Naum.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/naum.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/naum.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#996633;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei o computador e resolvi abrir minha caixa de entrada. Estava lotada. Parecia que o mundo todo havia enviado e-mail para mim. Li-os: um montão de asneiras e apenas uma mensagem importante, uma bomba!&lt;br /&gt;Tive que interromper minhas férias. Apressei-me na arrumação das malas, ajuntei os papéis e os recortes de jornais que havia preparado para levá-los comigo no regresso da viagem. Interfonei à recepção do hotel, solicitei fazerem o check out e cuidei para não deixar por esquecimento algum pertence na suíte do hotel. Mas meu pensamento estava mesmo era lá!&lt;br /&gt;_Alô, Hércules?&lt;br /&gt;_Ele. Já sabemos que o senhor retornará com pressa. Não consegui vôo para Maceió, hoje. Esta época é difícil. Estou tentando. Creia que estou fazendo o possível para lhe trazer.&lt;br /&gt;_Mas tenho que estar aí ainda hoje. Vocês não saberão resolver esse problemão. É uma situação muito séria. Você tem de conseguir vaga em algum vôo ainda hoje.  Resolva logo!&lt;br /&gt;_Não sei se conseguirei, doutor Abílio. Mas...&lt;br /&gt;_Desculpa nenhuma vou aceitar. Providencie o bilhete.&lt;br /&gt;A conta do hotel fora fechada. Puseram minhas malas no hall de entrada e eu fiquei sentado no sofá da recepção no aguardo da notícia de que ele houvesse conseguido uma vaga em um vôo para mim. Não almocei. As horas pareciam voar. Às duas da tarde meu celular tocou. Era ele, senti um alívio.&lt;br /&gt;_E aí, que horas voltarei?&lt;br /&gt;_Às dezenove. Virá na cabine com o piloto e o co-piloto. Não me restou outra opção. Usei todos os seus títulos e títulos para conseguir essa vaga. Uma hora antes estarei na sala vip do aeroporto para recebê-lo. Boa viagem.&lt;br /&gt;_E Naum melhorou?&lt;br /&gt;_Quando o senhor chegar verá se melhorou ou não!&lt;br /&gt;_Então ele está grave?&lt;br /&gt;_Eu nunca sei responder-lhe sobre esse assunto. Prefiro aguardá-lo.Viaje em paz.&lt;br /&gt;_Como o farei se Naum está longe de mim? Vou retornar com meu coração na mão.&lt;br /&gt;_Doutor, tenha calma. Não se esqueça de tomar seus remédios, os quatro. Lembre-se de sua saúde.&lt;br /&gt;_Hércules, facilite tudo que o Naum precisar. Ele é tudo o que me importa ter nessa vida. É mais importante do que a própria empresa!&lt;br /&gt;_Estamos zelando pela sua saúde, doutor. Naum esta tendo tudo o que um rei necessita para viver.&lt;br /&gt;_Obrigado, Hércules. Faça mais. Eu adoro Naum. Ele é a minha vida.&lt;br /&gt;A viagem de regresso foi péssima. A aeronave balançava muito. O piloto, um sujeito mal encarado, não me dirigiu a palavra em nenhum momento. Ao seu lado, o co-piloto, restringiu-se apenas a desejar vida longa para Naum. Nem sei ao certo quem lhe falou sobre meu filho.&lt;br /&gt;No aeroporto Hércules bajulou-me com os excessos de que eu gosto. Tinha meu lenço verde na mão, dentro de um plástico higienizado. Arranquei-o dele e enxuguei minhas lágrimas. São Paulo ficara para trás e eu pedi pressa ao motorista para me levar até minha casa.&lt;br /&gt;A casa estava triste. Portas e janelas fechadas, um silêncio sepulcral. Até o vento havia sumido. Pedi que Hércules ficasse longe de mim. Fui à frente de todos. Não deixei que abrissem a porta principal da casa. Repreendi o funcionário e eu mesmo o fiz. A sala, seu ar de tristeza, confirmou o que eu já pressentira no lado de fora. Caí no sofá, pus a cabeça entre as mãos e, urrando, indaguei para o mordomo:&lt;br /&gt;_Naum?&lt;br /&gt;_Está ótimo!&lt;br /&gt;_Meu Deus, foi um milagre. Que bom!&lt;br /&gt;_Mas, doutor Abílio, seu gato não se acidentou. Apenas levou um pequeno choque na tomada do seu secador de cabelos, na bancada de sua suíte. Desacordou-se mas não morreu.&lt;br /&gt;_Descuido de vocês. Irresponsáveis, para que lhes pago caro? O persa saltou em meu colo, pressionou o meu ventre com a cabeça e aí sorri. Hércules, nunca mais deixo Naum sozinho. Viajará comigo doravante!&lt;br /&gt;_O senhor está certo, doutor. Essa casa se torna um verdadeiro asilo de loucos, quando o senhor sai e o Naum fica aos nossos cuidados. Leve-o sim, sem pestanejar. Será para o bem de todo&lt;br /&gt;_Naum é bem mais importante para mim do que todos vocês.&lt;br /&gt;_Só não mais do que meu ótimo salário. Este, nunca se esqueça de mandar depositar em minha conta. Reveja o conceito de “bomba”!  Naum é o segundo maior rei desta casa.&lt;br /&gt;_Não! Ele é o primeiro; eu sou o segundo.&lt;br /&gt;_Que horror!&lt;br /&gt;_Está me chamando de exagerado, Hércules?&lt;br /&gt;_Nunca o faria. Naum é uma notícia bomba!&lt;br /&gt;_Concorda comigo, então?&lt;br /&gt;_Sempre, patrão!&lt;br /&gt;_E esse povo ainda me chama de exagerado!&lt;br /&gt;_Que nada! Exagerados somos todos nós que acreditamos nas histórias mirabolantes desse reino onde vivemos a trabalhar para tornar Naum bem maior do que todos nós.&lt;br /&gt;_Ah! É um alívio ouvir essas palavras de você, Hércules.&lt;br /&gt;_Obrigado, patrão: pelo menos isso.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115292060460959424?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115292060460959424/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115292060460959424&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292060460959424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115292060460959424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/naum.html' title='Naum.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115291954332144039</id><published>2006-07-14T16:21:00.000-07:00</published><updated>2006-08-03T16:36:07.236-07:00</updated><title type='text'>Beatriz</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/beatriz.4.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/beatriz.4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;E então despedi-me cedinho, antes mesmo de ouvir o segundo canto do galo. A madrugada estava friorenta, o silêncio da relva, amedrontador. Mesmo assim saí sozinho sem poder contar meus passos, dado a pressa de tão bom tamanho era. Nunca mais vi Beatriz. Acho que foi morar do outro lado do mar, ou n’alguma ilha deserta, onde jamais poderíamos nos ver novamente.&lt;br /&gt;Lembro-me de que estávamos em junho, mês de férias, época das festas juninas, muita alegria. Minha roupa nova estava pronta. Iria cortar os cabelos na barbearia do senhor Juca e, no dia seguinte, muitas bombas me esperavam. Eu adorava essa época do ano. As fogueiras acesas me hipnotizavam. Os estrondos das bacamartadas não me incomodavam, apesar de serem eles ensurdecedores. O milho verde, o chapéu de palha, a melodia dos acordeons que davam alma às quadrilhas, tudo isso era mesmo encantador.&lt;br /&gt;_Em São Paulo, vocês não fazem fogueiras?&lt;br /&gt;_Na capital, não. É perigoso, muitos fios na rua, moramos em altos arranha-céus, é complicado. Aqui, não, vocês têm muito espaço.&lt;br /&gt;Os olhos de Beatriz tinham um brilho diferente. Queriam falar-me alguma coisa importante. Não aceitou ser presenteada com nenhum fogo e eu, tão jovem quanto ela, não entendia sua repulsa pela época e seus festejos barulhentos. Distanciava-se de todos e, sentada ao meio fio, cabisbaixa, não se divertia como nós, ao ver a fumaça cheirosa e as fagulhas brilhantes que saíam dos vulcões que soltávamos em cima do banco da praça velha em frente à Igreja Matriz.&lt;br /&gt;Corri ao coreto na parte superior da praça. Ela me acompanhou vagarosa. Olhei para trás, ainda parei, mas desisti de esperá-la para subirmos juntos os degraus que nos levariam até ele. Cheguei bem primeiro que ela, ainda podendo avistá-la e contar seus passos preguiçosos, degrau por degrau, a vencê-los sem pressa.&lt;br /&gt;_Você é tristemente estranha. Acho que perdeu a graça de viver.&lt;br /&gt;_Deixe-me ser assim. Não é o que quero ser. É o que me traz a memória.&lt;br /&gt;_De que se lembra?&lt;br /&gt;Foi quando vim a saber que seu único irmão, Felipe era seu nome, havia morrido justamente nessa época, após atear fogo num rojão embravecido que já nascera destruidor.&lt;br /&gt;Quando não se sabe da dor alheia, não se vê a cor de seu sofrimento. Beatriz, aquela belíssima adolescente paulistana, tinha espinhos de mais em sua alma que só se acendiam nas proximidades dessa época. Era quando calada denunciava a força de sua melancolia.&lt;br /&gt;Ainda tivemos tempo de nos apaixonarmos um pelo outro. Vivemos às escondidas entre beijos molhados e abraços atrevidos, durante mais de trinta dias. Nosso São João foi mais quente do que os outros vividos por ambos. Muitos fatos que vivenciamos, apesar de incontáveis, foram preciosissímos demais para nossas almas. Eu ainda sinto-a viva em minhas longínquas recordações quando estimulo a memória de evocação e assim ela me chega outra vez faceira e bela, diferente de sua tristeza junina.&lt;br /&gt;Fiz fogueiras por mais de oito dias seguidos. Era o pretexto que encontrava para estar do seu lado, pertinho e agasalhado por dois fogos distintos. Apertava sua mão com a volúpia de um amor descoberto. Tinha-a na doce ilusão de um amor adolescente.&lt;br /&gt;Numa segunda-feira, ao acordar, vi mamãe sorrindo. Achei uma mensagem em seu sorriso. Seus lábios tinham olhos. Sua boca era uma carta longa.&lt;br /&gt;_Beatriz esteve aqui, filho, deixou lembranças. Você estava dormindo tão profundamente que não se acordou quando ela lhe beijou a fronte.&lt;br /&gt;_Ela me beijou, mãe?&lt;br /&gt;_Com muito carinho, de um jeito manso, triste e alegre, diferente. Seu beijo confabulou com o seu sono profundo. Você sorriu feliz.&lt;br /&gt;Eu pulei de cima da cama, abracei mamãe com muita força e ela, sem conseguir traduzir aquele jeito de dor e de saudade, disse-me:&lt;br /&gt;_Você está tão feliz..., acordou desse jeito...&lt;br /&gt;Não agüentei. Molhei a ponta do seu avental de lágrimas da saudade apaixonada que cultivei por Beatriz por anos seguidos. Só após meu choro mamãe entendeu que seu filho estava implodindo em sua primeira e grande paixão. Hoje ainda sinto saudades dela. Faltam apenas duas semanas para ser ordenado padre e ela ainda entra nos quadros dos meus sonhos, me abraça, me beija, me aperta, mas nada ouço de sua voz.&lt;br /&gt;Sei que estou prestes a dar um grande passo em minha vida. A última cartinha que Beatriz me escreveu tem mais de doze anos. Não sei para onde deve ter ido. De sua carta amarelada não me desgrudo. Tem seu cheiro almiscarado, guarda-me a grande dor de uma paixão nunca acabada. A paixão, virulenta demais, contaminou a alegria dos meus festejos juninos e nunca mais deixei de amá-la, apesar de nada mais saber do seu paradeiro triste. Saí de casa para não mais voltar..., talvez inconscientemente tenha feito isso à sua procura. O sacerdócio carrego comigo para sempre, a ordenação é que me ficou muito distante de mim.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115291954332144039?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115291954332144039/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115291954332144039&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115291954332144039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115291954332144039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/beatriz_115291954332144039.html' title='Beatriz'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115274625438139021</id><published>2006-07-12T15:39:00.000-07:00</published><updated>2006-07-12T16:24:06.926-07:00</updated><title type='text'>Duas Vidas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/duas%20vidas.gif"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 277px; CURSOR: hand; HEIGHT: 203px" height="161" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/duas%20vidas.gif" width="232" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;Somente no leito de morte de minha mãe, pude saber minha história, escondida pelas setenta chaves do proibido e do obsceno.&lt;br /&gt;Ela trabalhava como secretária do doutor Danton. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;À frente de sua eficácia profissional, bem à frente mesmo, impunha-se a tantos sua beleza física_ mulher de feições encantadoras_ onde a sedução havia achado morada fácil.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;_Estou grávida, Danton!&lt;br /&gt;_Nem ouvir isso eu posso, quanto mais acreditar no que acaba de me dizer. É mentira, diga-me, para que não venhamos a ter sérios problemas, a começar por sua demissão. Já imaginou se Camila, minha esposa, souber?&lt;br /&gt;_Camila, sabendo ou não, a verdade é que estou grávida de você. Meu marido também vai ser uma pedra no meu caminho. Você acha que isso não o incomodará?&lt;br /&gt;Passei a ter um convívio horrível com ele. Só gostou de mim, do nosso adultério, até saber que havia feito um filho. A gravidez o poria em situação extremamente delicada. Não pude me esconder com ela. As pressões para que abortasse foram enormes. Quando fiz quatro meses de gravidez, fui levada à força para retirar a criança. Meu marido a essa altura já havia sido informado por mim. Perdoar-me-ia, contanto que eu matasse a criança.&lt;br /&gt;O mundo caiu sobre os meus ombros. O significado de minha maternidade, sua força sublime, parecia ter-se ido ao vento. Não me reconhecia como gente. As pressões que recebi foram bem maiores que minha vontade. Pus de lado até minha dignidade e assumi o crime hediondo. O velho doutor Glênio, amigo da família Miércoli, estava na sala de parto. Olhou-me dentro dos olhos e disse:&lt;br /&gt;_É para o seu bem, minha filha...&lt;br /&gt;Nada lhe respondi com palavras. Meu gesto de indignação foi virar o rosto para o outro lado da mesa de cirurgia.&lt;br /&gt;Deu-se tudo. Apenas chorei. Não me lembro de ter sentido qualquer dor física. Sentí-me menos mãe apenas quando ouvi do doutor Glênio:&lt;br /&gt;_Era uma menina. Acabou-se. Vocês estão livres.&lt;br /&gt;Abafaram tudo. Saí da casa de saúde São Gerônimo uma hora depois. Lembro-me de que sujei de sangue o velho Aerowillis que me conduziu até minha casa. Senti cólicas fortes. Apenas gemi. Meu ventre continuava alto.&lt;br /&gt;No portão do chalé onde morava, ao chegar, encontrei meu esposo. Baixou a cabeça envergonhado e entrou antes de mim. Sequer estirou-me a mão em sinal de ajuda. Entendi seu gesto. Externava a sinceridade de seus sentimentos. Estava triste com a traição sofrida.&lt;br /&gt;Voltei a trabalhar e apresentar dores estranhas no ventre, além de edemas nas pernas. Comuniquei ao patrão que me deu férias de trinta dias. Resolvi ir a um outro médico e cuidar-me. Estive com o doutor Lázaro três dias após ter me afastado da empresa. Expus-lhe o que estava sentindo. Fiz os exames solicitados por ele e retornei à consulta.&lt;br /&gt;A vida é o que aprendemos com o tempo. O homem passa a deixar suas idéias que se perdem ou se renovam noutras idéias, noutras vidas. A índole norteia nossos comportamentos frente às emoções. A maternidade santifica a mulher. Como era que me podia ser diferente?&lt;br /&gt;_E aí, doutor Lázaro, o que há comigo?&lt;br /&gt;_O que nunca vi antes em quase trinta anos de medicina obstétrica.&lt;br /&gt;_O quê?&lt;br /&gt;_Em seu ventre há outra criança que quer nascer.&lt;br /&gt;_E a que tiraram?&lt;br /&gt;_Era gêmea com essa.&lt;br /&gt;Beatriz nasceu numa quarta-feira fria de agosto. Tive que viajar para longe de Alagoas para poder tê-la na calmaria doutros ares. Guardei esse segredo com todas as chaves que encontrei dentro de mim. Amei-a duplamente, talvez para esquecer a meia mãe que havia sido. Tive que abandonar emprego e marido em nome de minha própria absolvição como mulher cristã. Pesava-me o fato que havia consentido fizessem em mim.&lt;br /&gt;Hoje é aniversário de morte de mamãe Évila. Ela escondeu de mim essa história até a última semana em que viveu. Lembro-me do nosso diálogo a essa época.&lt;br /&gt;_Você me perdoa, Beatriz?&lt;br /&gt;_Já o fiz, faz muito tempo. Agora descanse em paz.&lt;br /&gt;Há um peso nos meus ombros, ainda muito forte. Parece não querer abandonar-me nunca. O destino me favoreceu e diminuiu essa dor. Tive um único parto do qual nasceram duas lindas crianças a quem pus os nomes de Lívia e Vitória. Mudei de amores: hoje amo apenas a vida. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115274625438139021?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115274625438139021/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115274625438139021&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115274625438139021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115274625438139021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/duas-vidas.html' title='Duas Vidas'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115267078865598203</id><published>2006-07-11T19:10:00.000-07:00</published><updated>2006-07-11T19:19:48.670-07:00</updated><title type='text'>Só vi a Sereia, Madame...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/sereia3.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/sereia3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda morava à beira do velho Chico, rio fantasiado por lendas que atravessam gerações como se precisassem ser eternas. Sua rotina de médico era cheia de pequenos atos e só à noite, após jantar e deitar-se na rede para rememorar o dia, podia pensar em Anita: um belo vulcão que tinha grossos lábios doces e lavas nas entranhas tão difíceis de serem conquistadas, o que talvez aguçasse os curiosíssimos  seres como eu, meio homem, meio bicho que passeava pelas ruas de Penedo.&lt;br /&gt;Dona Genoveva, a sua sonsa e subserviente secretária do lar, investiu um dia no que seus olhos por certo já haviam denunciado. Adivinhou o que estava escrito nas brechas dos seus sentimentos. Era-lhe muito forte o prazer de apenas seguir Anita, com seu rebolado mais que faceiro, clareando as noites escuras sem lua da velha cidade lavada pelo rio.&lt;br /&gt;_Ela está louquinha para lhe beijar, doutor Haroldo.&lt;br /&gt;_Que minha senhora, não a ouça, Genoveva, se não seu emprego findaria.&lt;br /&gt;_Por que o senhor, nas horas vagas, não me deixa trazê-la até aqui perto?&lt;br /&gt;_Você está maluca; completamente maluca!&lt;br /&gt;Ela talvez fosse por muitos cortejada, como a padroeira da cidade em dia de procissão festiva.Ele admitia apenas, o que de forte reverberavam seus olhos ao cruzarem os delas. Sentia algo diferente dentro da outra alma assustada que os homens têm. Contentava-se em evocar a responsabilidade do seu casamento, dos clientes citadinos e ribeirinhos etc.&lt;br /&gt;Os anos se passaram, ela se enovecia e embelezava-se. Enchia as ruas de Penedo, enlouquecendo a fúria dos desejos alheios aos seus, os quais tratava mal. Doutor Haroldo era o único que misteriosamente  galgara a  chance de possuí-la, mas que dela, se afastava à  sombra do seu medo.&lt;br /&gt;_Senhor Tancredo, preciso do seu carro.&lt;br /&gt;_Pois não, doutor Haroldo. Vai a Maceió?&lt;br /&gt;_Não. Vou até à vila das freiras.&lt;br /&gt;_Naquele esquisito? Fazer o quê?&lt;br /&gt;_Aquilo que o senhor e tantos outros penedenses tanto gostariam. Vou iludir a sereia.&lt;br /&gt;_E no Chico há sereias, doutor?&lt;br /&gt;_Nas beiras do Chico, Tancredo!&lt;br /&gt;_Olhe, o senhor leve logo essa rural, vá encontrar-se com essa sereia e faça-me o favor de lavar meu carro. Não suporto a catinga que o peixe deixa entranhada no ar.&lt;br /&gt;_Essa sereia cheira a mel. Falo de Anita!&lt;br /&gt;_Anita! Ela vai entrar no meu carro? Eu vou! Vou também!&lt;br /&gt;_Não posso levá-lo, Tancredo, meu passeio será especial. Como é, vai emprestar-me o carro?&lt;br /&gt;A estradinha da serra estava deserta. Estreita, mal cabia a rural encostada quase que beijando os arames farpados da cerca do sítio das freiras.  Até a estrada estava ansiosa.&lt;br /&gt;A carro aberto, eles recostados, de mãos agarradas, falavam dos anos que já haviam passado. Era como se um sonho houvesse acabado e o desejo acordado para somente encher as lembranças vazias do que os corpos nada haviam feito antes, mas que urravam fazê-lo.&lt;br /&gt;_Olha lá. O velho Tancredo com Anita no carro. Será que dona Florinda sabe disso? Que veio fogoso!&lt;br /&gt;_Deixa disso, Sebastião, deixa a muié do home  ficar sem saber mermo. Cala tua boca!&lt;br /&gt;_Mai eu vou dizer a pratroa.&lt;br /&gt;_Você é quem sabe, home. Eu nada vi.&lt;br /&gt;Tardinha, o sol já querendo ficar frio, o rio silencioso lavando o tempo dos dois, como se os quisesse puros. Ele desceu do carro, abraçou-a com o fervor que evocavam seus profundos desejos de há tanto vivos. Ela cedeu. Um rio se fez entre suas curvas lisas como os penedos de um cupido fluvial, dormindo imerso nas águas angustiadas pela espera de algum desejo louco.&lt;br /&gt;Era a hora. Tudo quase congruente e forte. Nem os pingos que o ar trazia do rio passavam entre seus corpos.&lt;br /&gt;_Anita,  que barulho é esse?&lt;br /&gt;_Ah!... ah!... ah!...&lt;br /&gt;_Anita! Aí vem muita gente.&lt;br /&gt;_Ah!..., deixe vir...&lt;br /&gt;Rasgou-se a fortidão do instinto e o tempo emudeceu. As águas do rio fizeram-se lágrimas enquanto a sereia, encantada, gemia na ânsia do medo, tão próximo do prazer. Tudo estava sendo feito&lt;br /&gt;Rápido, ele ajeitou-se antes de ser feliz, escondendo-se por trás do carro. A cavalaria passou chutando a poeira da estrada. Que pena! O susto não mais pôde acender a virilidade de Haroldo, enquanto a sereia meio satisfeita abortou um pedaço de um sereno gozo de amor e ele nunca mais pôde tê-la desse jeito quase proibido.&lt;br /&gt;Alguma alma ciumenta conseguira atrapalhar a dança dos prazeres, avisada por outro alguém, de alma mais triste ainda, achando a cumplicidade de uma cavalaria assustada no propósito de um ciúme qualquer, solta e enviada pela subserviência selvagem como brutos, que nada entendiam, o que de tão perverso pudesse ser feito.&lt;br /&gt;_A patroa gostou?&lt;br /&gt;_Serviço bem feito, Bastião. O cachorro do Tancredo, um velho casado comigo há quase quarenta anos, quengando com Anita Barroso em plena luz do dia. Meus cavalos sentiram o que eu queria fosse feito.&lt;br /&gt;_Patroinha, eu queria lhe dizer que o homem que estava lá no carro do patrão, não era quem a senhora está pensando, não...&lt;br /&gt;_E quem era, Bastiao?&lt;br /&gt;_ Só vi a sereia, madame...&lt;br /&gt;O rio continuou sua busca pela eternidade, a cidadezinha ficou sentindo o cheiro dos fluidos esfacelados, Anita se pôs a alimentar seu sonho  sem acreditar mais em tanta  distância impossível e doutor Haroldo, a sonhar selvagemente com o que não mais lhe aconteceria, porque as águas passam para encher o horizonte do mar, onde necessitam perder-se para serem novas águas e novas fontes. A ânsia da carne também perece e com seu fenecer chega aos corpos a desvontade que só envivece uma vez enquanto na memória dos que sonham com esses amores selvagens e difíceis. Amores que nos custam tanto chegar. E o rio de Heráclito continuou a  levar as águas do velho Chico por sobre seu leito cheio de lendas e d’outras estórias tão boas de contar-se.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115267078865598203?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115267078865598203/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115267078865598203&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115267078865598203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115267078865598203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/s-vi-sereia-madame_115267078865598203.html' title='Só vi a Sereia, Madame...'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115265848044850091</id><published>2006-07-11T15:28:00.000-07:00</published><updated>2006-07-11T15:54:40.520-07:00</updated><title type='text'>O Filósofo e o Bêbado.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/bebado.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/bebado.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Por que vives a tombar com os efeitos do álcool, homem pequenino?&lt;br /&gt;_Se incomoda a ti ou à tua filosofia, deixa-me quieto a beber. Mora nesta garrafa o meu nexo de vida. É assim que acho graça nela.&lt;br /&gt;_Então o álcool é maior do que  tua alma?&lt;br /&gt;_Minha alma já morreu bêbada. Não tenho mais nada dentro de mim. Estou oco.&lt;br /&gt;_Oco? Ou cheio de álcool?&lt;br /&gt;_Oco mesmo. O álcool vai para o sangue e sai no ar expirado. Comigo mesmo só fica a embriaguês, minha amiga de fé. Dá-me as coisas que quero ver e sentir. Os bichos do meio do dia.&lt;br /&gt;_Então já tens alucinações...?&lt;br /&gt;_Se o nome dessa coisa boa que eu sinto é isso que falaste, eu digo que sim.&lt;br /&gt;_Não gostarias de conhecer o meu mundo? Viver de meditação? Amar a vida?&lt;br /&gt;_E quem te falou que eu não amo a vida? Minha vida é o álcool que bebo. Sem ele já estaria morto.&lt;br /&gt;_E antes de ele chegar, tu não enxergavas?&lt;br /&gt;_Antes dele eu não tinha nada. Deram-me o primeiro gole, o segundo e hoje trago dezenas dele para me achar com a vida de novo. E teu mundo, como é?&lt;br /&gt;_É bonito. Troco a alucinação pela reflexão cheia de vida. Vivo achando as minhas próprias pegadas na estrada da vida. Tudo o que penso eu realmente posso ter.&lt;br /&gt;_Duvido! O que pensas não pegas jamais. Voa, vai-se embora. Se tiveres grana, até podes comprar. Eu, com meu álcool sinto-me diferente, mas sinto. Viajo e gosto do que vejo. Quando quero repetir a viagem, bebo mais e pronto. Quando quero ver um elefante, não bebo no copo, vou à garrafa.&lt;br /&gt;_Quando olhas para o céu, à noite, o que vês?&lt;br /&gt;_Depende. Quando estou sóbrio, vejo menos estrelas. Quando o álcool está me inebriando a cabeça, vejo estrelas além da conta. Estás vendo como ele me dá mais?&lt;br /&gt;_Não. As estrelas que eu admiro, são reais. As tuas cintilam na tua alucinação. Não são reais.&lt;br /&gt;_Pegas as tuas?&lt;br /&gt;_Não. Vejo-as de longe.&lt;br /&gt;_E então, pra que ver ao longe e não poder pegá-las? Eu vejo a mais e  pego todas.&lt;br /&gt;_Falas como se pudesses pô-las no bolso e levá-las para qualquer céu que encontras por aí.&lt;br /&gt;_Com meu álcool sou até astronauta.&lt;br /&gt;_Mas, eu tenho longa vida para admirar o céu, e tu não!&lt;br /&gt;_Tens certeza? Eu conheço um filósofo que morreu eletrocutado quando admirava o céu em um dia de inverno. E o que é que me dizes disso?&lt;br /&gt;_Isso foi uma fatalidade. Não conheço história nem ao menos parecida com essa.&lt;br /&gt;_E história de bêbado que morreu eletrocutado, tu conheces?&lt;br /&gt;_Não!&lt;br /&gt;_Estás vendo? Estamos um a zero, concordas?&lt;br /&gt;_Não queira justificar esse vício dentro de preceitos saudáveis de vida. Isso é uma terrível droga. Uma grande algema .&lt;br /&gt;_E quem te falou que eu quero justificar nada? Tu me viste e indagaste. Eu estou apenas respondendo à tua pergunta.&lt;br /&gt;O filósofo chegou à exaustão e não conseguiu convencer o bêbado de que devia acabar com o vício. Não achou mais argumentos para lhe mostrar o outro caminho da vida.&lt;br /&gt;Passados dez anos, o bêbado teve que ser levado às pressas para o pequenino hospital da cidadela onde morava. Chegando lá foi logo atendido. Era conhecido e querido pela população. Fizeram-lhe glicose endovenosamente e em seguida o liberaram. Ao sair, deu de cara com o filósofo que entrava agonizante no hospital.&lt;br /&gt;_Que houve contigo, seu filósofo?&lt;br /&gt;_Bebi demais sem saber e quase morri.&lt;br /&gt;_E por que bebeste? Não és contrário a quem tem esse vício?&lt;br /&gt;_Sou, mas desde aquele dia em que não te convenci a deixar a bebida, iniciei o meu vício. Quis saber o que achavas na vida, mais do que eu na minha lucidez.&lt;br /&gt;_E então, o que te sucedeu?Cada vez que bebi, perdi-me um pouco de mim mesmo e da vida. Os caminhos, as estrelas continuam as mesmas. Eu, que mudei a marcha para passos sempre mais largos, não me fiz caber nel&lt;br /&gt;Competi com os automóveis da rua e trombei com um deles.&lt;br /&gt;_Mas, filósofo, pra tudo na vida é preciso jeito. Até para beber. Eu não bebo para andar, só ando para achar a bebida. Aí, me sento, ponho-me  a beber e os outros me levam quando já estou caindo.&lt;br /&gt;_ Mas eu não sabia de nada disso, ó meu colega. Bebi e derrubaram-me.&lt;br /&gt;_É uma pena! Quero dizer-te que até para se  embreagar  é preciso conhecimento, tá?&lt;br /&gt;_Eu não quero mais beber, nunca!&lt;br /&gt;_Então tudo bem. Vá filosofar. Qualquer hora dessas a gente se encontra de novo.&lt;br /&gt;Passaram-se mais dez anos e eles se encontraram no mesmo local. O bêbado teve seus sintomas resolvidos com a mesma conduta de antes. O filósofo, esse tinha sua saúde exageradamente comprometida. Ao tentar largar o vício, provou de vários medicamentos, na sua maioria drogas pesadas e começou a dar-se mal.&lt;br /&gt;Agora, nem o vício nem a vida. O bêbado olhou-o demoradamente e sorriu. O filósofo, acanhado e triste, disse-lhe:&lt;br /&gt;_O pior do teu vício eu não consegui reproduzir.&lt;br /&gt;_E o que foi pior?&lt;br /&gt;_Teu egoísmo indigno!Egoísmo? Não te entendo!&lt;br /&gt;_ Pois saibas: era tua obrigação  ensinar-me a conviver com ele e aí eu não teria chegado a tanto.&lt;br /&gt;_Mas, seu filósofo, eu nem sabia que teu filosofar era falso.&lt;br /&gt;_Falso, por quê?&lt;br /&gt;_Porque filosofaste para me convencer a deixá-lo. Eu não aceitei, continuei no barco e vivendo do mesmo jeito. Tu te acabaste. E isso é egoísmo?&lt;br /&gt;_Eu não sei é mais nada. Quero morrer! Que tu te danes com o álcool!&lt;br /&gt;_Nós vamos nos danar é para algum lugar alegre que nos queira bem. Doutor filósofo, cada macaco no seu galho e cada embriaguês na cabeça escolhida apropriadamente, ouviu? Tua filosofia é bem pior que a vida que tive outrora: só me trouxe desequilíbrio e artificialidade. Deixa-me filosofar com meu copo cheio.&lt;br /&gt;Dois meses após aquele encontro, o bêbado foi ao velório do filósofo e chorou a sua morte, sorrindo fartamente. Estava ébrio e o outro, frio, representando o mais objetivo significado dos que filosofam ou não na vida, cheia ou vazia de álcool. Uns lúcidos, outros ébrios, mas todos dentro da real mortalidade da carne a qual se faz profundamente inocente, não lhe importando se com filosofia ou bebida.&lt;br /&gt;O bêbado tragou do seu mal e viveu muitos anos. Ainda ontem arrastaram-lhe do boteco do mercado.  Vez por outra em suas alucinações conversa horas e horas com o filósofo.&lt;br /&gt;_Vai-te! Nem morto você me deixa beber sossegado.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115265848044850091?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115265848044850091/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115265848044850091&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115265848044850091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115265848044850091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-filsofo-e-o-bbado.html' title='O Filósofo e o Bêbado.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115247883889228172</id><published>2006-07-09T13:50:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T14:00:38.906-07:00</updated><title type='text'>O Romance do Rio.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/circo.3.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/circo.3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O circo estava armado na Praça Onze. Passei com ela de carro e lembrei-me de Carmem. Tão longe estava eu dela! A sobrevivência me exigia um preço muito forte. Nem me lembrava, às vezes, quem realmente eu era. Pecava deliciosamente. O Rio de Janeiro espremia o meu corpo em cima de desejos que, lá de onde tinha vindo, impensáveis eram na civilização onde vivia. Faltava-me o ar, chegava-me uma ventania forte e, graças a Deus, conseguia respirar bem na maior parte do tempo.&lt;br /&gt;Ela comprou nossos ingressos. Assistimos a um espetáculo medíocre. Importei-me bem mais em engolir as pipocas amanteigadas e o sorvete de creme russo, do que mesmo com o espetáculo circense. Como uma sanguessuga à procura de alimentar-se, ela punha suas mãos dentro de minha camisa semi-aberta e beijava-me com dúzias de beijos molhados de sorvete e de manteiga. Nem me repugnar com seus gestos eu podia. Dizia-lhe que a amava e pronto. Eram dois circos: o onde estávamos e o que fazíamos. Tantos palhaços famintos eu via. Apenas o espetáculo comprido não me era fácil tragar com satisfação. Queria ir-me, deixá-la só, sair do circo.&lt;br /&gt;_Amorzão..., ah!..., já vai acabar.&lt;br /&gt;Dei graças a Deus sair dali. Estava sufocado, angustiado e entupido de comida. Até náuseas sentia: dela, do sorvete e das pipocas. A manteiga, destas últimas, apenas seu cheiro alimentava as náuseas. Pediu-me que fosse dirigindo seu carro. Era quase meia-noite do sábado. Os carros pareciam correr mais. As ruas desertas ofereciam grandes espaços e eu não fiquei para trás: fi-lo correr também .&lt;br /&gt;_Amorzão..., está correndo muito...&lt;br /&gt;_Pra chegar em casa logo.&lt;br /&gt;_Ah! Que horror! Vamos curtir a noite carioca. Leve-me para Copacabana. Por lá a festa está apenas começando. Vamos!&lt;br /&gt;Mudei a direção e o sentido do carro. Lembrei-me novamente de Carmem. Minha consciência pesava como um fardo de pedras. Mas tudo aquilo me era bom. Fui então para a orla de Copacabana. Quase não encontramos um local seguro para estacionar o automóvel. Ficamos a uns cem metros do bar que escolhemos no calçadão desenhado de ondas alvinegras, símbolo do Rio.&lt;br /&gt;_Cerveja?&lt;br /&gt;_Não. Tomarei um suco.&lt;br /&gt;_Ah! Não..., amorzão..., você só presta quente.&lt;br /&gt;_Ultimamente tenho andado com um balde cheio de água fria.&lt;br /&gt;_Amorzão..., não...&lt;br /&gt;_Sim..., por que não?&lt;br /&gt;_Você está estranho...&lt;br /&gt;_Cansado!&lt;br /&gt;Quando chegamos à casa dela, até o orvalho já se tinha ido. Os ônibus da Senador Vergueiro haviam saído de seus mágicos  esconderijos e o barulho já nos ensurdecia. Domingo e a cidade não queria parar. Fomos dormir, esparramados sobre o tapete fofo da sala de televisão. Quando nos lembramos de ir para o quarto, já era o instante de levantarmos, comermos alguma coisa e mergulharmos na piscina de sua cobertura.&lt;br /&gt;_Meu irmão lhe adorou. Quer sair mais vezes conosco. Perguntou quando nós nos casaremos. Eu disse que já nos havíamos casado.&lt;br /&gt;_E ele acreditou?&lt;br /&gt;_Claro que sim.&lt;br /&gt;_Você é louca?&lt;br /&gt;_Amorzão..., eu, louca?&lt;br /&gt;_No meu mundo, casamento é uma instituição muito séria. Vai desde um namoro, passa por uma festa, filhos etc. Não é tão simples assim como você pensa.&lt;br /&gt;_Como você é careta!&lt;br /&gt;_Lá, pra gente, até o significado de careta é outro!&lt;br /&gt;_Que horror!&lt;br /&gt;Quando ela foi ao banheiro, apanhei o aparelho telefônico e liguei para o meu amor, que havia deixado há dois longos anos e com quem deveria casar-me.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;_Carmem?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;_Oi, Luiz, onde está?&lt;br /&gt;_No intervalo do hospital. Trabalhei a noite toda&lt;br /&gt;_Tadinho..., trabalhando tanto!&lt;br /&gt;_Para garantir nosso futuro.&lt;br /&gt;_Continue. E hoje vai sair?&lt;br /&gt;_Acho que não. Vou aproveitar para estudar.&lt;br /&gt;A bruxa gritou querendo saber com quem eu estava falando. Disse-lhe que era com minha mãe. Adivinhara o que estava tramando.&lt;br /&gt;_ Ah! Deixe-me falar com minha sogrinha.&lt;br /&gt;_Desligou...&lt;br /&gt;_Liga novamente, vai...&lt;br /&gt;_Não. Ela estava de saída.&lt;br /&gt;Deu-me um trabalho imenso arranjar uma desculpa para ela sobre o porquê de ter desligado o telefone abruptamente. Consegui. Conveci-a após longas e tortuosas frases desconexas. Coitada, nem desconfiava de nada. Dentro de sua casa eu a traía.&lt;br /&gt;Na segunda-feira, apanhei um ônibus, deixei-a dormindo e fui trabalhar. Meu apartamento estava uma bagunça. Tive que arrumá-lo , livrando-me da metade de sua sujeira. Só após fui até o ambulatório do hospital  iniciar minhas atividades diárias. Ela chegou tarde ao hospital naquele dia. Como chefe da enfermagem, podia dar-se a esse luxo. Trabalhávamos em um mesmo hospital, local  onde havíamos nos conhecido.&lt;br /&gt;_Amorzão, estas flores são suas. Devem pagar o bem que você me fez nesses dois anos de namoro. Tenho uma bela notícia para lhe dar.&lt;br /&gt;_Então que a diga logo!&lt;br /&gt;_Estou grávida. Vamos ter um lindo filho.&lt;br /&gt;Quando dezembro chegou e o  Natal estava à nossa porta, conheci a outra manjedoura vazia de tudo. O aborto pode ter entristecido a gregos e troianos. Mas, para este alagoano cansado de representar no Rio o que seu coração jamais apoiava, foi uma notícia felicíssima que chegou em vinte e dois de dezembro de um mil e novecentos e oitenta. Que alívio! Estava agora livre... Acabei o romance e só aí me dei conta de que era tempo de voltar. Adeus, Rio; adeus, amor; adeus tudo! Casei com Carmem um ano após o meu retorno.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115247883889228172?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115247883889228172/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115247883889228172&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247883889228172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247883889228172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-romance-do-rio_115247883889228172.html' title='O Romance do Rio.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115247665620937352</id><published>2006-07-09T13:11:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T13:24:16.223-07:00</updated><title type='text'>Em Apenas Três Dias.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/fuga.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/fuga.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#663366;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Papai pôs nós três dentro do seu velho calhambeque e saímos feito uns doidos a engolir as ruas, os becos e as avenidas de Porto Alegre. Tínhamos que achar mamãe.&lt;br /&gt;As brigas sempre acontecem, são freqüentes, desmancham-se igualmente e por esses trilhos o casamento anda. Só que tudo isso se apagou momentaneamente em nossas cabeças. Mamãe sumira e não deixara rastro. Nós é que, empoeirados da estrada, a vários olhos, procurávamos com desmedida ânsia. Achar ou achar era a única questão que nos havia sobrado.&lt;br /&gt;Papai possuía dezenove anos, mamãe quinze, quando se casaram. Eu acho muito engraçado quando nos diz que jamais conheceu outra mulher em sua vida, que não ela. Desconfio, zombo dele, mas continua a jurar-nos que essa é a única verdade a nos ser dita.&lt;br /&gt;Eles brigaram dentro de um espetáculo de violência tão hediondo que pensei iam se matar. Eu e minhas irmãs chorávamos feito loucas, apartávamos os dois, gritávamos por socorro e nada de eles pararem com toda a animosidade. Muito estranho mesmo o que presenciávamos. Quando cansaram dos empurrões e dos palavrões trocados ante a ira, ele entrou no quarto e ela arrumou, às escondidas, sua valise. À noitinha, após o jantar – dessa vez bem mais cedo do que o costumeiro pegou o elevador e evadiu-se do prédio sem deixar qualquer recado.&lt;br /&gt;_Sua mãe?&lt;br /&gt;_Saiu.&lt;br /&gt;_Pra onde foi?&lt;br /&gt;_Se o senhor não o sabe, quanto mais a gente! Disse para papai.&lt;br /&gt;A noite demorou a passar. Dia seguinte confirmamos que nossa mãe havia passado a noite fora de casa, pela primeira vez após ter-se casado. Dentro do carro, após intensa busca, batemos hotel por hotel até cansarmos e voltarmos para casa sem qualquer sinal de sua presença física. O pavor havia ultrapassado nossas preocupações e até a polícia estivemos a pedir ajuda para achá-la.&lt;br /&gt;Passaram-se três dias. Ela retornou pela manhã de um lindo dia de primavera. Nós estávamos tristes, chorosos e nem acreditamos quando a porta da sala se abriu e ela adentrou. Papai tinha ido à farmácia comprar um ansiolítico e ainda não havia retornado. Abraçamo-la com força para arrebatar toda a saudade e a tristeza ir-se de perto de nós.&lt;br /&gt;_Mamãe, por quê?&lt;br /&gt;Balançou a cabeça como se na resposta não coubesse culpa ou peso. Apenas sorriu e foi ao seu quarto trocar de roupa e esperar papai para um longo bate-papo, agora cordial, rico doutros barulhos alegres, proibidos para nossos ouvidos. Entendemos e deixamos que os dois namorassem. Descemos, nós três, para o playground  do edifício onde morávamos e subimos algumas horas mais tarde. Desconfiados, apresentavam-se felizes e descontraídos, como se quisessem encobrir o que lhes havia acontecido. Coisa de gente grande, entendemos. Permitido apenas aos maiores de idade, talvez.&lt;br /&gt;Aproximadamente há uns oito dias depois de sua fuga irada, procurei-a para conversar e saber como havia passado esses três longos dias. Quando ouvi seu relato pormenorizado do que havia feito, nessa ausência doméstica, alimentando a raiva besta que tivera de papai, quase caí de costa.&lt;br /&gt;Mãe, e agora?&lt;br /&gt;_Está feito, filha. É guardar de seu pai, para sempre, senão nosso casamento estará acabado.&lt;br /&gt;Ela me falou que ainda na primeira noite que entrou no hotel, foi ao restaurante e bebeu bastante gim com soda limonada. Lá para as tantas, quase embriagada, chamou a atenção de um certo jovem que descontraidamente ouvia a pianista executar lindas canções. Olhou-o intensamente entre risos nem tão discretos.&lt;br /&gt;_Era quase uma da manhã quando ele veio ter comigo. Sentou-se e nos pusemos a conversar. Disse-lhe a verdade e ele se aproveitou do patinho frágil que estava à frente de  seus olhos e fomos para a cama.&lt;br /&gt;_Mãe...?&lt;br /&gt;_Fomos! Foi ótimo. Faria tudo outra vez. Um circo diferente.&lt;br /&gt;_Mãe...? Você...?&lt;br /&gt;Pelo resto de nossa conversa, eu a tive diante de mim, não mais como a mulher de antes. Seus olhos pareciam ainda brilhar, como se àquele instante ela tivesse em seus lábios, a dulcidade do prazer provado. Não havia mais como ser igual ao passado. Fervilhava dentro dela uma força estranha, tão estranha mesmo, que chegava a assustar-me. Foi aí que eu chorei desconsoladamente e meu pai viu tudo. Quis saber de mim o que eu havia sabido dela e eu, molhada de lágrimas de desgosto, deixei o instante ir-se sem que nada eu revelasse a ele e assim fiz, deixando-o sem qualquer aperto no coração, porque ela era a mulher que ele mais amara na vida e, se soubesse, tudo estaria desmoronado entre eles e nós a sofrer por uma decisão que só nos poria no rastro de uma certa prostituição que estava latente em mamãe, gritando para ouvidos escondidos.&lt;br /&gt;Ela passou a encontrar-se com o dito cujo. Papai, tolo, não desconfiava de nada. Eu passei a vê-la com outros olhos. Repreendia-a e ela apenas me dizia:&lt;br /&gt;_É impossível, Lúcia, esquecer aquele homem!&lt;br /&gt;Gostava de sair ao meio-dia, quando papai tinha o  costume de alimentar sua sesta, aí até lá pelas três da tarde, quando inocentemente se punha a sonhar.&lt;br /&gt;Saí de casa aos dezenove anos para não mais vê-lo ser feliz do outro lado do engano que adulterava minha omissão de filha. Amava os dois e, sentia, estava convencida, que agir assim era-me a única maneira de deixá-los ser felizes para sempre. Arrumei meu saco de dormir e parti. Meus primeiros oito dias fora de casa foram terríveis. Vencidos arrumei trabalho interessante e só após seis meses de ausência, liguei para eles e informei-os onde estava. Ouvi de mamãe ao telefone: se soubesse que você ficaria assim, jamais teria lhe contado.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115247665620937352?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115247665620937352/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115247665620937352&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247665620937352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247665620937352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/em-apenas-trs-dias.html' title='Em Apenas Três Dias.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115247584337433676</id><published>2006-07-09T13:05:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T13:10:43.386-07:00</updated><title type='text'>O Morcego.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/morcego.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/morcego.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#33cc00;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo, o morcego do primeiro andar, entrou pelas frestas duma velha janela de vidro e passou a dar vida a sua solidão no  burburinho do andar térreo do meu escritório de trabalho. Bem provavelmente – é certo – alimentava-se de frutas ou de sangue – não sei a que espécie pertencia, ele carecia deixar meu escritório e sair na sombra da lua ou na escuridão doutras ausências, para se alimentar. Na negritude da noite seu vôo acomodava-se!&lt;br /&gt;Ouvi um grito de pavor vindo da sala. Este fora o primeiro dia de amor. Que dia! Abracei-a fortemente e senti seu corpo rente ao meu, trêmulo de medo; o meu, de desejo – os dois juntos num instante mágico, entre o lírico e o mágico – enfim – uma pequenina história de pavor. &lt;br /&gt;Não insisti para saber os motivos do grito. Deixei-a agarradinha à falsa coragem do meu corpo. Meus olhos só conseguiam vê-la e nada mais, porque o homem também usa dessas estripulias, desse modo, para temperar conquistas. Eu não fui a ela, mas ela veio a mim.&lt;br /&gt;Eram seis horas. No inverno equatoriano já se vê a escuridão assentar-se no espaço onde o vento mora: tudo vai escurecendo. Um dia morre. O mamífero abre vôos rasantes em qualquer direção – ao meu ver – mais à procura de gritos do que de alimentos. Face vampiresca, draconiana, quadro desenhado satanicamente na velha Transilvânia  de conde conhecidíssimo, como nos diz a fábula. &lt;br /&gt;Ela permanecia agarradinha ao meu corpo. Comecei a alisar sua cabeça, desci à nuca, apertei seu corpo mais fortemente na direção e no sentido do meu, agora mais fogoso do que antes.&lt;br /&gt;_Ai..., ui...&lt;br /&gt;E achegou-se  com ainda mais força ao meu corpo. Que bom! Eu estava lucrando com o pavor da linda e doce secretária que ainda iria receber pelo primeiro mês trabalhado. Eu estava satisfeitíssimo com sua dedicação, seu empenho, sua produtividade.&lt;br /&gt;Ela trazia a face escondida entre suas mãos e estas colocadas junto ao meu tórax. Tentei puxá-las e deixar que sua face encostasse diretamente no meu peito. Consegui. Por isso apertei-a cuidadosamente ainda mais. Sentia o pulsar desembestado do seu coração amedrontado.&lt;br /&gt;Que saboroso pavor o dela! Pôde ele ofertar-me, ao fim daquele dia de intenso laborão, o prêmio de sentir o perfume de seu corpo macio feito pluma.&lt;br /&gt;Porta e janelas fechadas dentro do meu escritório. Precisávamos sair. Acho que por mais de dois felizes minutos a tive docemente comprimida ao meu peito. Era hora de irmos. Planejei levá-la até à porta de saída do escritório. Estava soprando um ar machista – entre Dom Ruam e Zorro –. Sentindo-me comparado a esses dois heróis, disse-lhe:&lt;br /&gt;_Vamos?&lt;br /&gt;_E o morcego?&lt;br /&gt;_Vou te levar até lá fora. Não vou deixar que ele te ofenda. Fecha os olhos, agarra-te fortemente ao meu corpo e deixa o meu levá-lo, sem pressa, até a porta de saída.&lt;br /&gt;Ela abriu os olhos pela primeira vez como se houvesse desconfiado de minhas enésimas segundas intenções. Cheguei a lembrar-me de um velho amigo, neto de italianos que, tendo aprendido com sua avó paterna certa palavra no idioma daquela, dizia-me, quando estávamos construindo essas segundas: “Que safatessa!”&lt;br /&gt;Chamei-a para deixar seu corpo adequado às côncavo-convexidades do meu – apenas as fantasiosas – nada das reais que respiram, têm sede e fome. Essas ainda não! Havia um mínimo de controle.&lt;br /&gt;_Vamos? Posso abrir a porta?&lt;br /&gt;_Ai meu Deus..., e se ele ainda não tiver ido embora?&lt;br /&gt;Rezei para que o morcego amigo não oferecesse alívio ao medo. Estava tão bom ao seu lado, meus braços cobrindo seu corpo infante, quase uma cria, quase uma ninfeta!&lt;br /&gt;Inspirei profundo e pus a mão no trinco. Abri a porta devagar. O resto ela narra por mim.&lt;br /&gt;_Ai..., olhe ele...&lt;br /&gt;_Doutor Valeto, o senhor também tem medo de morcego?&lt;br /&gt;_Feche a porta, rápido!&lt;br /&gt;Saí e o deixei trêmulo de pavor. Na fuga do tempo, me deu aquele monstrinho preto. Evadi do escritório e nunca mais voltei. Meu primeiro e único salário, quem o recebeu foi meu pai. Os telefonemas do doutor Valeto me chegaram aos borbotões como se eles fossem, morcegos. Que homem frouxo! Representou tão bem o herói simulando proteger-me. Se tivesse desconfiado, haveria aberto a porta daquele escritório cinco minutos antes e teria me livrado do horrível cheiro que ele me deixou na blusa. Não usava desodorante. Quem sabe foi esse o motivo de aquele morcego não nos ter incomodado mais. Mal cheirosa mesmo foi-me a sua frouxidão!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115247584337433676?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115247584337433676/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115247584337433676&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247584337433676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247584337433676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-morcego_09.html' title='O Morcego.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115247381448006875</id><published>2006-07-09T12:30:00.000-07:00</published><updated>2006-07-21T06:11:34.906-07:00</updated><title type='text'>Pai e Filho.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/abra??o"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/abra%3F%3Fo%20de%20pai.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejava muito poder abraçá-lo e cobrir-lhe a face de beijos sinceros, apertados, mas cadê a coragem? Envelhecia sem poder ver realizados esses desejos. Apenas uma vez cortei essa amarra esquisita e jamais me esqueci.&lt;br /&gt;Cruzei a infância e a juventude tentando desvendar o que poderia existir de tão escondido entre nós dois. Pouco soube de sua vida – nem tão floreada fora – sua orfandade precoce, sua luta exaustiva para sobreviver à vida comum e às incomuns saudades que se enxameavam a moldurar pesada solidão órfã.&lt;br /&gt;Cedinho eu saía de casa, rumo à escola. Levava comigo o exagero de uma preguiça que a brisa friorenta do nascedouro do sol dava-me. A orfandade diferente me era oferecida do aconchego quente do lençol, cúmplice do colchão desforrado, acariciando-me por toda a noite, entre sonhos e mais sonhos. Papai saía bem antes, quando era madrugada e eu sonhava. Ainda tinha tempo para sentir o perfume do sabonete que usava, quando ia preparar-me às primeiras horas da manhã, no mesmo banheiro que ele usava. Aquele homenzarrão ficava tão pequenino dentro dos meus sonhos expectantes, mas tão gigantesco quando o esperava chegar lá pelo meio-dia, cheio de uma voz estentórica, ríspida, que anunciava seu corpo cansado do próprio peso e do laborão vencido apenas na manhã.&lt;br /&gt;Mamãe corria para pôr a mesa mal chegava da escola, arrastando pelos braços eu e minha pesada pasta contendo os livros e os cadernos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;_Em um instante eu ponho o almoço para você.&lt;br /&gt;_Tirem aqui minhas botas. Luis, venha cá!Já me vou, pai, já indo eu tô.&lt;br /&gt;Ia servi-lo. Em minha face apenas o ar preocupado em ter que bem servi-lo. Possuía-me certo medo nem tão infantil, porque seu vozeirão me dava, às vezes, e reprimia por mais vezes ainda, assustava-me. Desatava-lhe os cadarços da botina, retirava-as, depois as meiasDê-me um copo d’água!Sim, senhor.&lt;br /&gt;Lembro-me, certa vez, de que dei-lhe um copo com água geladíssima, como assim gostava de bebê-la. Tomou-a desembestadamente diante da intensidade e, por isso, caíram-lhe pingos – e eram muitos – na roupa, após encharcarem os pêlos do bigode. Pus minhas mãos sob seu queixo para evitar que se molhasse. Antes não o tivesse feito. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;_Danado, deixe a água cair, estou morrendo de calor.&lt;br /&gt;Eu nem quis entendê-lo. Meu medo dizia-me que ele é que estava certo e podia gritar com os decibéis que achasse mais convenientes. Minha mão molhada deixou seu queixo para trás e, com ela, levei meu coração e meus olhos até o quarto, onde chorei por uma certa servidão, meio-torta, meio-certa.&lt;br /&gt;Nem ao menos pude enxugar as lágrimas e mamãe já gritava por mim. Dessa vez ouvia um grito cheio de um cheiro bom de almoço, que sabia calar-se diante de minha tristeza.&lt;br /&gt;_Estava chorando? O que houve?&lt;br /&gt;_Não, mãezinha, tava não.&lt;br /&gt;O almoço nos era servido diante de um silêncio mais triste que nostálgico. Nenhum de nós alimentava escasso apetite. Até chegar a sobremesa – quase sempre saborosos doces caseiros feitos por ela – tínhamos que ultrapassar o silêncio sepulcral. Ele estava na cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, mamãe. Eu era o segundo. Meus outros três irmãos do outro lado da mesa: redondos cavaleiros da távola quadrada. Todos os dias se repetiam gestos e atos sacratíssimos ao redor daquela mesa; nada do que acontecia era fortuito.&lt;br /&gt;Quando já homem feito, às portas do casamento, estive frente a frente com o homem que eu aprendera a admirá-lo com medo. Comemorávamos uma grande data e estávamos muito alegres. Diante dessa alegria toda, meus olhos o olhavam distantes, querendo levar meu corpo a ele, abraçá-lo forte, apertadamente sem me incomodar com o tempo. Armei alguns passos e desviei a ida. Receoso estava de que nada desse certo e eu tropeçasse diante dos outros olhos contentes da festa. Tomei outra dose de uísque e não sei de onde, mas que chegou, veio-me uma forte dose, agora de coragem. Fui e abracei-o feliz a descontar anos-luz de subtração de carinho e afeto. Quando quis demorar-me mais, senti seus braços me empurrarem. Olhou no profundo dos meus olhos alegres àquele instante. Pensei que me daria um outro mais apertado. Não! Que tristeza!&lt;br /&gt;_Está bêbado, não é, safado? Você não é disso. Antes de me abraçar, senti logo seu bafo de álcool. Modere com a bebida, senão...&lt;br /&gt;_ Bebi pouco, pai. Meu abraço não bebeu nada!&lt;br /&gt;_Que maluco! Já visse abraço beber?&lt;br /&gt;Depreendi que havia nascido para não o abraçar nunca. Era para admirá-lo de longe, sem esses enfeites que as emoções nos presenteiam vez em quando. Era mesmo um filho besta, sonhador, caçador dos abraços sofridos e incomuns. Eu já me era diferente de qualquer outro abraço, isso sim me era desigual ao mundo. Ainda bem que havia estudado bastante e conquistado um certo autocontrole que me fazia um homem áulico das lições mostradas, não só aos olhos, mas ao coração também.&lt;br /&gt;Naquele resto de dia domingueiro, contentei-me em abraçá-lo ao longe, sem que nem mesmo ele me visse. Abraçava-o por nós dois, sem que nada percebesse. O próximo abraço que lhe daria seria no leito de morte, quando a doença já houvesse roubado de seu corpo o último grama de carne e de alegria.&lt;br /&gt;Hoje, há dentro de mim uma forte dor de ausência, esta alma que nunca me ensinou a gritar mais forte e também fazer-se ouvir. Abraço-o em minhas orações, nos abraços que oferto a outrens, diante das agruras da vida. No espelho, como se nele visse em mim sua cópia, é onde o abraço me sai mais verdadeiro. Abracei-me logo neste conto que não conta tudo de mim, nem dele, nem de absolutamente ninguém. Continuo diferente dos outros e de mim, como se assim me pedisse a vida dentro da luz que persegue minha alma, hoje nem mais tão triste como outrora. Aprendi a abraçá-lo, abraçando não apenas a lua, mas todo o luar fresco das noites em que o recordo. Bem que minha saudade é maior que qualquer abraço que meu coração lembra ter dado um dia.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115247381448006875?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115247381448006875/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115247381448006875&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247381448006875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115247381448006875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/pai-e-filho_115247381448006875.html' title='Pai e Filho.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115245682411699520</id><published>2006-07-09T07:49:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T07:53:44.120-07:00</updated><title type='text'>O Pesadelo.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/pesadelo.5.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/pesadelo.4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei que a baça névoa da noite se desvanecesse, eu e minha solidão chorosa. Via-me no escuro amargo da escuridão impenetrável onde perdi meus olhos e achei um grande medo. Era-me intransponível a poeira negra desluarada que me fazia vergar diante do obscuro procurado. Era meu medo a maior barreira íngreme e intransponível que via escondida onde a luz não se acordava.&lt;br /&gt;A cambraia vestida estava amassada e suja. Minha arrogância permanecia sentada à beira da janela fechada e meu sono fugira para os alpendres da memória onde buscava os fatos retorcidos dentro de minh’alma. Meus ombros seguravam o peso da culpa dolorosa.&lt;br /&gt;Chorava copiosamente. Sabia-o pelas lágrimas frias que desciam entre os pêlos do peito, vagarosas e abundantes. Diziam tudo, embora só para mim e para o ventre da noite triste e indesejosa, custosa de ir-se.&lt;br /&gt;Não queria ajoelhar-me diante do sofrimento. A poltrona segurava meu corpo vestido de babélicos gestos. Meus ouvidos que dissessem. Minha face acarrancada ninguém via. Ao menos com isso a escuridão me presenteava.&lt;br /&gt;Quase duas da madrugada e ouço o trinco da porta do quarto ranger. Um passo trêmulo de alguém bate contra a madeira.&lt;br /&gt;_ Quem é?&lt;br /&gt;Ainda hoje aguardo a resposta. A cortina balançou, senti-a bater no meu braço direito. Um frio deplorativo ajuntou-se ao meu corpo apavorado. Da escuridão chegava-me aos ouvidos apenas a voz fugida de mim, talvez por um tolo lobo selvagem que passeava às veredas campesinas do frio escuro da noite pavorosa lá fora do quarto.&lt;br /&gt;Momentos castigadores saíam do meu pranto silencioso. A dor e eu paramos diante do silêncio afrontador daquela madrugada.&lt;br /&gt;_ Ai..., que susto!&lt;br /&gt;Mas era apenas o chilreio da coruja parda que cantava agudamente ao cruzar o telhado do chalé da Rua das Árvores.&lt;br /&gt;Melhorável para mim só se a luz do sol chegasse alegre a trazer a sinfonia dos pássaros madrugadores. O sol nunca me chegava paroxisticamente. Vinha cauteloso e frio acordar uma barra rubra no horizonte do céu. Custou-me refocilar naquela madrugada, cômplice, talvez, do meu pavor salvado pela escuridão. Ninguém também o via.&lt;br /&gt;Sei que adormeci entre os maus presságios. Quando vim saber que tudo era apenas um sonho, a madrugada já havia ido, os pássaros já tinham dormido outra vez e o sol já se despedia de mais um dia, quem sabe cansado por tanto esperar-me inutilmente.&lt;br /&gt;Nunca mais assisti a qualquer velório. Quando passo à frente de uma casa funerária, viro o rosto para não enxergar outras madrugadas como aquela que viví no pesadelo. Uma longa madrugada amedrontadora. &lt;br /&gt;_Você acordou-se agora, Fenelon?&lt;br /&gt;_Que jeito? Uma madrugada de terror me abriu os olhos por toda a noite e eu não pude dormir.&lt;br /&gt;-    Meu Deus, quanta mentira! Você roncou durante a noite toda. Ouvi você falar “Quem é?” Esperneou, chutou-me, esbofetou o travesseiro. Fui trabalhar e você ficou roncando.&lt;br /&gt;_Ah!..., então a zoada do trinco...&lt;br /&gt;_Que trinco?&lt;br /&gt;_Deixa pra lá. Vivi um grande pesadelo sem sol. Pensei que meus olhos não tivessem fechado a noite toda. Como a gente se engana, tão tênue que é o espaço entre o sono e a vigília! Foi um pesadelo que vivi. Que horror!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115245682411699520?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115245682411699520/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115245682411699520&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245682411699520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245682411699520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-pesadelo_115245682411699520.html' title='O Pesadelo.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115245483520819707</id><published>2006-07-09T07:00:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T07:20:35.223-07:00</updated><title type='text'>Os dois Anjos do Sonho.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/os%20dois%20anjos%20do%20sonho.2.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ccccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/os%20dois%20anjos%20do%20sonho.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ccccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#330000;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha sepultura do dia D, enterrarão apenas o que não encheu minha alma. Devolver-se-á à terra o que nunca fora meu: o corpo material emprestado pela vida da natureza para proteger a alma.&lt;br /&gt;Vou levar, sim, a bravura que me acompanhou diante dos grandes problemas existenciais que tive e com os quais brinquei para aprender a ser feliz. Viajei nos pântanos da impaciência e pude receber,  com as festas solenes que o tempo me deu, a comenda da acomodação que as tempestades bravias me ofertaram.&lt;br /&gt;Venço  a cada dia, catando em cada gesto escondido o que  da vida flora satisfeito e me convida a viver ajardinando. Se o galho quebra-se com o peso de minhas dúvidas, beijo contente o chão que pode até ter quebrado minhas pernas, mas me ofereceu asas para voar com o que de material me deu meus sonhos de aventureiro em busca das estrelas, antes mesmo de ver que tinham elas brilho.&lt;br /&gt;Minha dor, as que senti tão desesperadamente, não incomodaria a tantos outros que também tiveram as suas, diferentes das outras, todas elas no alicerce de angústia e lamentos com e sem lágrimas.&lt;br /&gt;_Por que você discursa essas dores suas?&lt;br /&gt;_Para encher suas perguntas!&lt;br /&gt;_E se não houvesse feito elas?&lt;br /&gt;_Fariam-nas outros.&lt;br /&gt;A morte que me chegará um dia provoca meus pensamentos e o faz tecer idéias sobre ela. Quando a completude dos conhecimentos parecer-me andar depressa ao lado do que me descobriu dos ensinamentos da vida, ela estará a zombar de mim, mais próxima ainda. Mas dela tirarei, antes de morrer, versos mil, para me deixar frutificando nos quadros que alguém puser os olhos como ouvidos líricos depreendedores das sombras do espírito, cheias de sons.&lt;br /&gt;_Você tem medo de morrer?&lt;br /&gt;_Antes de ter vivido minhas outras mortes!&lt;br /&gt;_Quantas tem?&lt;br /&gt;_Tantas forem as respostas escondidas por aquela, das questões menores que não pude dirimir.&lt;br /&gt;_Então você morre a cada dia?&lt;br /&gt;_A cada instante, porque até o tempo não se define diante de minhas ventanias indagadoras. As cordas do meu relógio não marcam apenas as horas.&lt;br /&gt;_Marcam os minutos e os segundos.&lt;br /&gt;_Não! Marcam o que desmarca a vida daquela primeira morte sobre a qual me pergunto no começo, lembra-se?&lt;br /&gt;_Morreu no meu relógio natural, tão diferente do seu.&lt;br /&gt;_Meu féretro ficará escondido das lágrimas do meu espírito. Quando dela sair, dará as costas e irá nirvanar à frente de tantas outras búdicas almas encontrar. Meus islâmicos pensamentos me farão um judeu doce e então adorarei Jesus com o canto ressuscitante saído  dos atabaques dos candomblés. A história que deixar plantada será holisticamente forte porque terá todos os azulejos da sabedoria do povo do mundo com quem aprendi um montão de sonhos.&lt;br /&gt;_Você mistura as coisas como se elas fossem pedaços de pedra.&lt;br /&gt;_A pedra sou eu sem suas idéias afastadas de outras mil.&lt;br /&gt;_Parece-me doente. Repudio esse pensamento quem tem você dentro da alma.&lt;br /&gt;_A doença é que não deixa ver o que presta em nós dois. É hora de deixar que os minutos não sejam só do tempo. Brinquemos com o que não descobrimos ainda passar.&lt;br /&gt;_Prefiro o que se reproduz à luz do conhecimento escrito há séculos.&lt;br /&gt;_Esses séculos só não morreram por causa de nós que os guardamos. Por que não outras coisas também?&lt;br /&gt;_Em que baú? Prateleiras há que sirvam para isso?&lt;br /&gt;_Os baús mais interessantes são os que nos cabem: nós e nossas idéias.&lt;br /&gt;_Prefiro permanecer nos que não permitem tais idéias tão diferentes da maioria.&lt;br /&gt;_A maioria não sabe onde estamos.&lt;br /&gt;_Onde você está! Não eu!&lt;br /&gt;_É porque teu baú não tem lastro firme. O peso de sua ignorância é desigual ao que possa sustentá-lo.&lt;br /&gt;Não me interessará ter a finitude do corpo material, nem tampouco ser o corrente desfazer-se em si próprio igual ao das águas do rio de Heráclito de Éfeso. Prefiro dançar um samba-canção, comer batatinhas fritas a ler a Divina Comédia de Dante. Meus limites não deverão interessar nem mesmo aos meus músculos. Quero ser o senhor de minhas idéias, degustar de seus confrontos com o mundo medíocre ou pelo apaixonante diferente  como o meu.&lt;br /&gt;_Você é uma coisa incerta. Nem um sonho o é.&lt;br /&gt;_Vejo você de melhor maneira. Suas qualidades nem você as conhece.&lt;br /&gt;_Quais delas seriam assim tão interessantes para um despertar?&lt;br /&gt;_Algumas coisas a mais que sua satisfação em ser tão limitadamente ignóbil.&lt;br /&gt;_No meu mundo não cabe o seu.&lt;br /&gt;_Mas no meu está o seu.&lt;br /&gt;Passei cem anos de solidão, gabrielizando minha preguiça de sonhar. Achei todo o tempo perdido do Voltaire. Colori sixtinicamente o teto de minhas idéias miguelinas, até aprender a desalar os corvos que Allan pôs nas retinas do meu inconsciente. Já era muito tarde. A coruja chilreava enquanto a madrugada sorria. Meu sono, fantasiado de pierrô, colombinamente virava palhaço de árvore de Natal e não dançava mais. Desci as escadas, pulei a janela para abrir a porta escancarada e, solitariamente, descobri que estava na multidão do meio da rua. Meus sentimentos favelizados descumpriam a ordem opressora de minha razão e destruí o pequeno sábio desavisado que dormitava alegre dentro de mim, para poder morrer calmamente na falta de perguntas de quem me perguntasse sobre a vida da morte. Meu enterro foi apenas normal, entre lágrimas falsas de sorrisos singelamente verdadeiros. Nunca mais acreditei em nada, apesar de concordar com o mundo. E os dois anjos maravilhosos morreram dentro do meu sonho, para que eu pudesse abrir os olhos, acordado, sem sono e outra vez vivo e com medo de&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#330000;"&gt; viver.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115245483520819707?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115245483520819707/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115245483520819707&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245483520819707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245483520819707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/os-dois-anjos-do-sonho_115245483520819707.html' title='Os dois Anjos do Sonho.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115245012730197956</id><published>2006-07-09T05:51:00.000-07:00</published><updated>2006-07-10T04:50:37.536-07:00</updated><title type='text'>Os Desertos da Neve.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/lagarto.2.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/lagarto.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#33ccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#33ccff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lagarto do deserto possui a cor do vento quente que parece encher todos os lugares. Desliza sobre a areia escaldante para não se assar parado. Nele não se olha para o sol, mas o tem sobre o corpo e a alma. Vivi diante das pirâmides por onze anos. Nunca sonhei com nenhum  Faraó sepulto em suas tumbas. Respeitava o quadro arquitetônico delas, olhava-as a imaginar outras fartas lendas. Só assim vivi, admirando o ar místico de um deserto cheio de assombração e encanto.&lt;br /&gt;O homem desafia a natureza, comete crueldades terríveis aos seus semelhantes mas respeita seus limites físicos. Ninguém atravessa o Saara sem água para se beber. Eu bati meu próprio recorde e escalei as mais altas pirâmides. Atravessei esse deserto sem tomar um só gole d’água. Nem suei. Meu casaco de frio que jamais o tirei do pescoço, serviu-me para ajuntar grãos de areias ressecadas do sol e do tempo em suas fimbrias azuladas.&lt;br /&gt;O nome do lagarto cinzento que conheci era Japu. Trajava um lindo terno azul escuro que o deixava distinto da areia branca e presa fácil para o gavião desértico de garras afiadíssimas que suportava pousar sobre os pontiagudos espinhos dos cactos do Saara. Diante de uma violenta briga de Japu com um gavião corpulento, fiquei estarrecido. O lagarto devorou o gavião e deu três arrotos. Olhou para mim e sorriu com um simples piscar de olhos. Que lagarto faceiro, Japu, cheio de tanta coragem! Naquele deserto não havia a lei dos homens.&lt;br /&gt;Continuamos a correr, Japu e eu, nas areias escaldantes do mesmo deserto e não cansávamos nem um pouco. Os beduínos e seus camelos ficavam para trás. As dunas andavam bem menos de que nós. Dos oásis passávamos distantes. Parecia-nos desnecessários.&lt;br /&gt;Lembro-me que acordei às oito da manhã. Estava morrendo de frio. O quarto estava fechado e meu cachorrinho Pêpê, sobre os meus chinelos de couro marroquim, fiel a mim e ao silêncio sepulcral do ambiente. Retirei o lençol que cobria o meu corpo, levei as mãos à face, alisei-a com suavidade, levantei-me, dei passos até chegar à porta e só aí tive ciência de que apenas sonhara com o deserto. Lá fora o frio era intenso e úmido. Era o primeiro sobrevivente do pólo que acordava. Tive saudade de Japu. O outro deserto que tinha à frente era alvo, silente, porém frio e tão mortal quanto o do sonho. Os cães de papai estavam deitados na neve do oitão da casa sem se importarem com o frio que parecia redesenhar a vida. Não sei bem de onde meu inconsciente havia trazido o lagarto e o gavião. O Saara ficou-me conhecido na alma. A sede me judiou ao despertar foi pior do que o espanto que tive ao acordar e saber que para mim ainda era muito cedo para parar de sonhar. Quando se dorme na neve, os anjos oníricos parecem ser frios e nevoentos para com a realidade do despertar. Suas asas se confundem com a chuva de neve, e tudo nos parece branco como as areias quentes do deserto, mas com outros sabores e cheiros. Nem tudo o que é branco traduz paz e mansuetude. Com nossos sonhos viajamos sem conhecermos fronteiras. O calor do sol e o frio da neve polar queimam  do mesmo jeito. O sonho tem o poder de atravessar os dois, redesenhar desejos, fantasiar realidades. Que o diga o Gabriel do “Cem anos de Solidão”.&lt;br /&gt;Meu termômetro do imaginário, quebrei. Não sei quando está frio ou quente meus ares literários. Escrevo..., escrevo desmedidamente, sobrevivendo a desertos de fogo e de gelo. Nenhum  me queima. Sou o Japu de minhas idéias devoradoras. Durmo para ter sono como este, desprovido de ficção e de realidade. Sou a alma dos contos desérticos ou alagadiços: ora sou singela vereda, ora gigantesco horizonte a perder-se no infinito das idéias. Quem me ler, encontrar-se-á em mim: vez por outra sou você, vez por outra sou eu; sempre estaremos perto um do outro.  Minha narrativa deixa um rastro almiscarado. E o que é ainda pior, nunca sequer andei nos pólos, quanto mais dormir lá; meu cãozinho Pêpê é verdadeiro e eu o adoro.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115245012730197956?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115245012730197956/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115245012730197956&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245012730197956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115245012730197956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/os-desertos-da-neve.html' title='Os Desertos da Neve.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115244942167346658</id><published>2006-07-09T05:43:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T05:50:21.683-07:00</updated><title type='text'>Semente e Fruto.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/corredor%20de%20hospital.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/corredor%20de%20hospital.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt; &lt;br /&gt;A noite estava bela, resfriada por brisa carinhosa e suave. O céu parecia mais uma grande estrela colorida exalando um perfume iluminado entre o chão perigoso e a lua inocente. Era uma noite de verão como tantas outras que enchem a cidade grande, repleta de violência. Era só olhar e admirar aquele céu para saber que a vida era um bem importantíssimo.&lt;br /&gt;Os pais são meros espectadores desse lindo palco perigoso. Nossas preocupações ganham pernas na espera tardia e angustiante ante o abrir de portas e as olhadelas em janelas confidentes de nossos desesperos. Meu filho sempre saía e retornava antes das onze da noite e nada lhe acontecia, apesar de o toque do telefone assustar-me tanto, como se prenunciasse algo de desastroso, quando o ouvia.&lt;br /&gt;Nesse dia fatídico ele, como que adivinhando algo, saiu mais tarde. O tempo que conversamos foi maior que os outros. Alisei sua cabeça como se o quisesse dentro de casa, esquecido das ruas. Olhei-o passivamente como que esperando dele alguma palavra incomum, talvez. Meus ouvidos pediam, clamavam, ao não ouvirem as palavras que, saindo de sua boca, concordassem com os meus pressentimentos de mãe. Mas ele saiu. Ele e três amigos de infância. Não sei para onde foram. Só sei que seus destinos os levaram a algum lugar onde havia divertimento.&lt;br /&gt;A tecnologia moderna traz benefícios enormes para a humanidade. Ai de mim se não tivesse podido dar a Raul um telefone celular para, ligando sempre e repetidamente, acompanhar seus passos. Ligava para ele tantas vezes quanto minha angustiante espera exigisse. Quando vi que já passava das dez e meia, liguei, obedecendo a essa rotina que tanto o incomodava.&lt;br /&gt;_Alô.&lt;br /&gt;_É você, mãe?&lt;br /&gt;_E aí, já estão de volta?&lt;br /&gt;_Demorarei, mais meia hora, hoje.&lt;br /&gt;_Por quê?&lt;br /&gt;_Aqui tá bom, mama.&lt;br /&gt;_Sua casa é melhor. Lembre-se das outras noites em que você se divertirá. Já é tarde, venha! Só dormirei quando você voltar!&lt;br /&gt;_Mais trintazinho está bem?&lt;br /&gt;_Que jeito? Esses trinta me valerão por dez horas!&lt;br /&gt;_Dessa maneira liguei para ele por mais duas vezes. O tempo de seu retorno driblou o meu de espera e era quase uma da madrugada quando liguei pela última vez. O telefone chamou muito. Ninguém atendeu. Senti que algo acontecera com eles. Apavorei-me. Após várias tentativas, na última dada, ouvi uma voz estranha do outro lado da linha:&lt;br /&gt;_Quem é?&lt;br /&gt;_Eu é que pergunto, senhor, com quem falo?&lt;br /&gt;_Houve um acidente!&lt;br /&gt;_Com meu filho?&lt;br /&gt;_Dos quatro, só um morreu.&lt;br /&gt;_E o nome da vítima fatal?&lt;br /&gt;_Ainda não sei, minha senhora. Chegamos ao local agora mesmo.&lt;br /&gt;Lembro-me de que pus um vestido por sobre a camisola e, sem me lembrar que no prédio havia elevador, desci as escadas dos quatro vãos nos pulos do meu desespero. Apanhei o carro na garagem do subsolo, acionei sua ignição e saí como uma lança desavisada de tudo. E fui. Não me importava a cor dos sinais dos semáforos ou o movimento dos raríssimos pedestres que vi àquela hora, madrugada já alta. São Paulo estava calma como se o progresso houvesse adormecido por algumas horas. Ouvia-se o barulho de sinais dos carros de patrulha militar e, aqui e acolá, um estampido seco avisava um disparo irresponsável, dado por algum bandido, confrontando-se sabia-se lá com quem e por quê.&lt;br /&gt;Quando me achei à frente do hospital do pronto socorro, dirigi-me à recepção. Informaram-me a quem deveria procurar para saber do desfecho final. Vi Marcos e me alegrei. Depois, de cócoras no corredor do primeiro pavilhão, estava Sérgio, chorando. Alegrei-me. O próximo a encontrar seria o meu filho amado. Achei Torquato. Pronto. Raul estava vivo, sim. Continuei a construir passos apressados. Vencidos os dois intermináveis corredores barulhentos do hospital, não o encontrei e meu desespero me acordou. Lembro-me de que chorei diminuindo os mesmos passos que há pouco eram de esperança. Parei no vértice azulejado do último corredor e, quando olhei para trás, os três sobreviventes vinham abraçados em minha direção. Quando indaguei por meu filho, as respostas foram vazias e tristes. Todos eles falaram com seus olhares. Meu filho estava morto! Sem que pronunciassem uma só palavra, ouvi seus discursos repletos de desesperança. Pensei então: como me era mais fácil alimentar aquela velha preocupação diária à espera dele. Meu medo sempre acabava quando ele  retornava. Íamos dormir e no dia seguinte tudo recomeçava.&lt;br /&gt;Raul era o meu único filho. Carregando a cruz de mãe solteira, cruzei este país, vindo do Acre, até estabelecer-me nesta selva de pedras e me neurotizar à espera das balas perdidas ou do susto do assalto relâmpago do meio-dia a que tanto assisti. Driblei o medo e, quando parecia que estava vencendo, meu lindo fruto, da única semente que havia germinado dentro de mim, murchou. Agora, árvore velha e sem frutos, resta-me regar outros jardins para esquecer a única flor que brotou do meu. Sufoquei minhas lágrimas e parti à luta. Hoje tenho muitos botões em que mexo todos os dias na terra frouxa dos inúmeros jardins de miséria que essa cidade oferece-me  todos os dias. Consigo retirar deles verdadeiras preciosidades. A única coisa que ainda me assusta é não ter um teto próprio onde possa pousar despreocupada no fim da velhice que já me acena com força. Meu salário de fome, que não cobre nem minhas despesas básicas, dá-me insônias. Não sei onde devo achar a dignidade e a cidadania de que tanto ouço falar por aqui.&lt;br /&gt;No lar São Germano, eu trato de quase uma centena de ex-viciados. Vejo Raul vivo nos olhos de todos eles. São esses olhares catárticos que me fazem resistir e amá-los tão profundamente, como jamais amei ninguém. Se não venci com meu único fruto, tenho a satisfação de fazê-lo nas muitas sementes alheias desse grande jardim público que busquei com a minha dor de mãe perdedora, solitária e triste. Dentro de mim, Raul nasce todos os dias quando acordo, abro a cortina da janela do meu pequenino quarto e, olhando São Paulo garoando graças para tantos miseráveis, sinto uma vontade imensa de adubar com o meu coração esse grande jardim que vejo, acenando para mim, como se precisasse dos instrumentos de minha alma solícita. Sou caçadora do fracasso alheio. Conserto-o com o que me dá a minha dor de saudade, de lágrimas, mas jamais de desesperança ou de egoísmo. Os tristes e solitários fins das madrugadas pelas quais passeio em todas as noites são as sementes que o destino quis que viessem para os meus braços de mãe sem semente, mas cheia de frutos saudáveis e doces, embora antes apodrecidos à frente de tantas almas desajardinadas e carentes que gostam de habitar cidades grandes&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115244942167346658?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115244942167346658/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115244942167346658&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115244942167346658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115244942167346658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/semente-e-fruto.html' title='Semente e Fruto.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115244782010576155</id><published>2006-07-09T05:11:00.000-07:00</published><updated>2006-07-09T05:23:40.116-07:00</updated><title type='text'>O Suicida.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/suicida.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/320/suicida.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;O suicida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu solilóquio alimentava a vontade de suicidar-me. A madrugada se descobria do luar e ficava escura como o pardo quase infinito da tristeza de minh’alma. Eu chorava. Era a única coisa que meu desespero me lembrava fazer. A cerimônia punha à luz as lembranças horríveis daquela noite que passara com Eny. Era como se minha aflição tivesse uma consciência independente de minha alma e eu houvesse perdido o controle de tudo. A noite me jogou diante do inferno mais tétrico que era possível existir àquela hora.&lt;br /&gt;Um homem fracassado não olha para o céu, desaprende a amar e alimenta uma revolta poderosa que o distrai do sério. Eu percebia, estava no fosso de uma gruta escura e fria. Meu olhar introspectivo não me achava recuperável. Os minutos se arrastavam e eu ficava mais infeliz ainda.&lt;br /&gt;As lágrimas mornas e cáusticas diziam para mim, ao deslizarem pela face, que eram elas as únicas vantagens de quem ficava profundamente triste. Meu desprezo vinha de dentro de mim, das profundezas demoníacas que nem sabemos existirem tão vivas dentro de nós. Pobre homem eu fui, eu estava, eu vivi!&lt;br /&gt;Senti que o sol queria adormecer a madrugada e tive que agir. Fechei a porta do quarto, tirei a corda fina de náilon que havia posto sob o travesseiro, por baixo da fronha, desatei seu nó, olhei-a fixamente entre meus dedos e lacei meu pescoço como se provasse o número da morte. Seria aquele instrumento que me levaria dali. A alma é claro! O corpo ficaria inerte.&lt;br /&gt;O televisor estava aceso e sem som. Um copo meio d’água, do começo da noite, continuava sobre ele. Pressenti que era o fim e senti um medo diferente. Os pêlos dos braços eriçaram, minha fraqueza era forte, meu corpo acovardou-se diante de tanta dúvida.&lt;br /&gt;A aurora da manhã quase me fez desistir da loucura que estava desenhada. Era tarde. Meus passos se apressaram, meu corpo pendeu para um último precipício, aproveitei para ir...&lt;br /&gt;Vi como era triste a hora da morte. Nada me doeu no corpo. Lembro-me de que, quando quis arrepender-me, era tarde e não pude fazer mais nada.&lt;br /&gt;Quando toquei meu corpo, não só o senti frio, como percebi estar fora dele. Olhei em torno: a corda abraçando-me firme ao redor das jugulares, a língua arroxeada e dura entre os incisivos, tudo isso encoberto pela porta e as cortinas da janelas fechadas.&lt;br /&gt;Tive que deixar meu corpo para trás. Um tufão me expulsou do quarto. Queria chorar de saudade, mas não podia fazer as lágrimas. Levaram-me, não sei bem para onde. Havia muita luz e um silêncio estranho aos meus ouvidos. Uma paisagem extraterrestre, talvez. Uma luz pardacenta.&lt;br /&gt;Não aconselho a ninguém se suicidar. A dor maior só começa após a morte do corpo. É uma dor estranha que dói na carne que não temos mais. Passamos a ouvir essa dor, como se ela própria fosse a nossa voz de súplica. Segue-nos uma sombra fria e silenciosa.&lt;br /&gt;Pensei que a dor de quem ficava era desprezável. Morreu, se acabou. Nada disso: é diferente a nossa outra realidade, bem diferente mesmo. Só eu sei os caminhos que tenho que percorrer para me livrar dos múltiplos suicidas que me nasceram daquele que fiz e me parecia ser o único. Agora, se eu não desviar o desamor dos que ainda estão aí, entre vocês, eles me darão cordas grossas e pesadas, exigindo que eu as use para continuar sentindo  o que me fora real outrora.&lt;br /&gt;Viver aqui, para mim, é pagar a sombra que me vestiu ontem. Por isso, imploro-vos: não vos deixeis viver meio à tentação do suicídio. Esse estrupício parece não nos abandonar nunca. Mata um corpo já inexistente a todo o instante que nos lembramos da hora que fraquejamos.&lt;br /&gt;_Renoir, você se cansou muito hoje.&lt;br /&gt;_Nem sei o que fala, mestre João.&lt;br /&gt;_A sessão está encerrada, senhores. Vão com Deus.&lt;br /&gt;_Quem veio hoje, mestre?&lt;br /&gt;_Um suicida ainda apavorado com o que havia feito.&lt;br /&gt;_Entrou noutro, então...&lt;br /&gt;_O que você me disse, Júlio?&lt;br /&gt;_O que jamais faria de sã consciência, mestre João. A vida não nos pertence. Meu corpo é um casulo emprestado do pó da terra, feito para receber os inquilinos que nos manda alguém que possui todo o cerne da luz do universo.&lt;br /&gt;_Renoir, eu nunca sei diferenciar em você quando há transe ou lucidez...&lt;br /&gt;_Nem eu, senhor...&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115244782010576155?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115244782010576155/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115244782010576155&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115244782010576155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115244782010576155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/o-suicida.html' title='O Suicida.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115241913469228689</id><published>2006-07-08T21:13:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T21:25:34.703-07:00</updated><title type='text'>A Árvore de Natal.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/arvore%20de%20natal%20e%20menino.1.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/arvore%20de%20natal%20e%20menino.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;                 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#666666;"&gt;&lt;strong&gt;                 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Uma casa pobre, muito simples, cheia de esperança. Uma família que parecia satisfeita com a pobreza. Oito filhos compondo quatro pares de cristãos praticantes.&lt;br /&gt;Agatângelo, o mais novo e sonhador de todos, acordou-se cedinho, cuidou em cortar um galho seco de um pequeno arbusto que morava no fundo do quintal. Enrolou seus galhos menores e os cobriu com papel prateado, colocou algodão sobre eles e pronto; estava confeccionada a sua árvore de Natal. Enfiou-a numa caqueira e a colocou na sala de estar.&lt;br /&gt;O dia vinte e quatro foi longo. Quando a noite caiu, foi contemplar sua árvore que parecia ter vida. De cócoras, pôs-se a admirá-la contente. Seu Natal tinha razão de existir.&lt;br /&gt;_Meu filho levante-se daí. Deixe de ser tão tolo! Ficar admirando esse galho seco de mato? Por quê? Vou por a _nossa comida.&lt;br /&gt;_Peru, mãe?&lt;br /&gt;_Ah!..., quem nos dera tê-lo à mesa...&lt;br /&gt;_É caro, não é?&lt;br /&gt;_Muito caro.&lt;br /&gt;A família reunida provou e comeu da sopa rala e dos pães. Ninguém reclamou de nada. João, o mais velho deles, saiu de casa em busca das aventuras da noite. Elza, a segunda, foi visitada pelo namorado. Os outros foram dormir cedo e só. Agatângelo permaneceu acordado até altas horas da noite, diante da pequenina árvore que havia feito.&lt;br /&gt;Passava das onze e meia da noite. O sino da igrejinha da cidade chamava os fiéis para a missa do galo. Dona Hilda levantou-se da cama e foi até a rede onde o seu caçula costumava dormir. Não o encontrando, pôs-se  a procurá-lo. Foi-lhe fácil achá-lo. A casa era pequenina, três cômodos apenas. Estava diante de sua árvore, pensativo e esperançoso.&lt;br /&gt;_Meu filho..., ainda aí?&lt;br /&gt;_Vou dormir aqui, mãe.&lt;br /&gt;_Não!&lt;br /&gt;_Eu quero ver Papai Noel.&lt;br /&gt;_Ele não existe, meu filho. Isso é uma lenda antiga. Ninguém nunca o vê. É uma fantasia.&lt;br /&gt;_Mãe, eu já o vi. Foi no Natal passado.&lt;br /&gt;_Está mentindo, filho?&lt;br /&gt;_Não. Eu vi!&lt;br /&gt;_Isso é sono. Vá dormir.&lt;br /&gt;_A senhora prestou atenção que eu não tenho mais asma?&lt;br /&gt;_É verdade..., e daí?&lt;br /&gt;_Foi Papai Noel quem me curou.&lt;br /&gt;_Papai Noel? Deixe de falar besteira, meu filho. Vamos dormir.&lt;br /&gt;Ela se foi e o garoto conseguiu driblar a ordem e permaneceu lá,   até   quase  uma  da  madrugada.     À meia noite quando o sino da matriz assustava as andorinhas do teto, ele chegou à frente do garoto.&lt;br /&gt;_Valeu ter-me esperado, Agatângelo. Promessa é debito, por isso eu vim vê-lo outra vez.&lt;br /&gt;_Obrigado, Papai Noel. Estou feliz.&lt;br /&gt;_O que vai me pedir hoje de presente?&lt;br /&gt;_Nada. Eu estou de barriga cheia, não tenho mais asma e já o vi. Não quero mais nada.&lt;br /&gt;_E  seus brinquedos, onde estão?&lt;br /&gt;_Na árvore.&lt;br /&gt;_Sua roupa nova?&lt;br /&gt;_Na árvore.&lt;br /&gt;_E algum dinheiro?&lt;br /&gt;_Na árvore.&lt;br /&gt;_Mas Agatângelo, e você contenta-se com tão pouco?&lt;br /&gt;_Mas, senhor, é muito. As outras crianças não o têm.&lt;br /&gt;_Você tem certeza que não quer me pedir nada?&lt;br /&gt;_Tenho!&lt;br /&gt;_Eu não posso acreditar no que estou ouvindo de você, tão pequenino...&lt;br /&gt;_Papai Noel, a única coisa que eu gostaria de pedir-lhe, jamais o faria.&lt;br /&gt;_E o que seria, filho?&lt;br /&gt;_Gostaria muito de ir-me com o senhor, de trenó, para lá onde moram os anjinhos.&lt;br /&gt;_Quer que eu o leve?&lt;br /&gt;_Não..., senão não poderia sonhar mais com esta árvore. &lt;br /&gt;_Mas lá há outras melhores.&lt;br /&gt;_Não há, Papai Noel. Essa lhe trouxe até mim. É-me muito especial.&lt;br /&gt;_As de lá são mais especiais ainda.&lt;br /&gt;_Será? Meus sonhos aqui acabam enquanto eu durmo. Lá, tenho que viver um sonho sem nunca poder acordar-me. Minha mãe, meus irmãos, minhas dificuldades, tudo isso está dependurado na árvore  que fiz. Vivo-a em todo o Natal. Espero o senhor todos os anos. E lá, a árvore  dos meus sonhos de esperança não terá o valor da bela metáfora que resolvi pôr neste pequenino galho seco de um arbusto inominado. Ah! Papai Noel..., a infância é como um bom sono, sempre dependerá da força dos sonhos que vivermos dentro deles. Feliz Natal e volte sempre a me  ver. Não pus meus sapatinhos na janela porque não os tenho hoje: quem sabe se não os porei no ano que vem.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115241913469228689?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115241913469228689/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115241913469228689&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115241913469228689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115241913469228689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/rvore-de-natal_08.html' title='A Árvore de Natal.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115241673452452222</id><published>2006-07-08T20:37:00.000-07:00</published><updated>2006-07-16T09:35:45.653-07:00</updated><title type='text'>Duas Serpentes e uma Cobra.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/jiboia.2.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 360px; CURSOR: hand; HEIGHT: 208px" height="227" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/jiboia.0.jpg" width="371" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele bateu à porta do coronel e, antes mesmo que alguém o atendesse puxou a taramela adentrou e, vencendo o longo corredor com seus passos preguiçosos encontrou outro ser. Era ela, a bela mulher do coronel, feitiço do lar e companhia da cobra. Por sua altivez e valentia, era chamada de serpente loura. Atendeu o visitante, pediu-lhe que esperasse por quem procurava e ofereceu-lhe café e água, ao que ele negou-se a aceitar.&lt;br /&gt;Basta? Quer mais alguma coisa? Ele não se demorará. Espere-o sentado. Se precisar de algo, simplesmente peça-me.&lt;br /&gt;Uma hora após o coronel chegou faceiro, dentro de um diagonal inglês, duro de goma, que por si só se sustentaria em pé. Chapéu panamá, camisa suada, entrou!&lt;br /&gt;_Meu amigo!&lt;br /&gt;_Coronel, quanta honra! Preciso de um enorme favor seu. Meu garoto fez quinze anos. Precisa de uma casa como a sua para ficar uns tempos. Quer continuar seus estudos. Vim pedir-lhe isso. É muito?&lt;br /&gt;_Que nada! Está concedido o favor. Seremos agora ela, ele eu e a cobra.&lt;br /&gt;_Que cobra?&lt;br /&gt;_Essa história eu conto a ele. Onde está?&lt;br /&gt;Na fazenda, ainda. Trá-lo-ei na segunda.&lt;br /&gt;_Amanhã? Por que não hoje?&lt;br /&gt;_Preciso preparar-lhe comida, aconselhá-lo, enfim prepará-lo quanto a sua nova morada.&lt;br /&gt;Tudo combinado e ele se foi. O garoto, belo por natureza, parecia ser já um homem. Esteve diante do coronel e da serpente e só aí soube da cobra.&lt;br /&gt;_Essa cobra é uma jibóia pequenina. Tem apenas seis metros e cem quilos. A mesma idade que você. Só a solto quando não há ninguém em casa. É o meu vigia. Quando eu não estiver por perto, não a toque. Ela já matou dois homens de aperto. Quebrou-lhe os ossos e depois os engoliu inteiros. Não se assuste; jamais a soltarei com alguém em casa.&lt;br /&gt;Passaram-se dois anos. O jovem, vivendo na disposição dos seus dezesseis anos, amou a serpente e esquivou-se de ao menos se avistar com a cobra. Certo dia, chegando o coronel em casa, avistou os dois fazendo sexo. Voltou-se sem que nenhum dos dois o visse, saiu de casa e retornou duas horas depois. Estava calmo. Ele dormia e a serpente loira cantarolava na espriguiçosa como se farta de amor estivesse.&lt;br /&gt;_E ele?&lt;br /&gt;_Dorme! Deve estar cansado!&lt;br /&gt;_De quê?&lt;br /&gt;_Acorde-o e pergunte!&lt;br /&gt;_E ele achará coragem para me dizer a verdade?&lt;br /&gt;Seus olhos brilharam, e dela não se ouviu nem a voz. Seu medo apontou para o clímax.&lt;br /&gt;_Que culpa não é? Tão bela serpente que és! Coxas roliças como a cobra, porém muito mais belas. Por quê? Não respondas. Vá com o meu desprezo morar onde queiras! Escolhi viver com a cobra, mas antes preciso soltá-la conosco em casa.&lt;br /&gt;As portas fechadas, casa cheia de gritos, a cobra solta no quarto do jovem e ele a dormir profundamente. Acordou-se com o peso da cobra andando em suas coxas.&lt;br /&gt;_Saia daqui. Você é insaciável, não é? O coronel chega e nos mata. Você sabe que ele é um bicho, não sabe? Desliza sobre o meu corpo como se fosse uma jibóia – disse para ninguém – sem saber ao menos com quem pensava conversar.&lt;br /&gt;De fora, uma voz alta, a do coronel, avisou-lhe que bichos havia, mas no seu quarto. E, acendendo a luz, sentiu dificuldade de desenroscar a cobra do seu corpo e, asfixiado, dormiu sem nunca mais se acordar, entre o resto da embriaguês sobrada da noite anterior e os mortíferos arrochos da cobra.&lt;br /&gt;Ela, além de pavor, preferiu suicidar-se. Fê-lo rápido e sem dó de si mesma. Tomou para si o seu próprio veneno, ajuntando-o ao outro comprado na farmaciazinha do bairro e por tanto tempo guardado a sete chaves, como se adivinhando que um dia usá-lo-ia sem medo algum. Os sobreviventes abraçaram-se e por toda a noite se amaram. Ara, uma linda serpente fêmea, pareceu entender a solidão que o adultério havia deixado no coronel e ocupou o lugar da serpente morta, sendo pela primeira vez ela, a outra! o homem, envolvido pela cobra, sentiu a serpente que se fora de seu coração na serpente-cobra que mudou para servi-lo.&lt;br /&gt;A cobra, a única serpente que havia sobrevivido, enterrou-se nas curvas gordas do corpo do velho coronel como querendo dele tirar a lembrança envenenada da serpente mais bela que se fora.&lt;br /&gt;Mulher e cobra afinal, nunca nasceram para viverem juntas. Não seria neste conto que a história passaria a contar-nos outra verdade. A mulher, quando quer, serpenteia todos os seus instintos à procura do paladar ansioso nas garras joviais de quem ainda nem apenas havia vencido a movediça estrada entre a adolescência e os outros caminhos / estações de um macho.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115241673452452222?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115241673452452222/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115241673452452222&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115241673452452222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115241673452452222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/duas-serpentes-e-uma-cobra_115241673452452222.html' title='Duas Serpentes e uma Cobra.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115239620316559059</id><published>2006-07-08T14:45:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T15:03:23.176-07:00</updated><title type='text'>Entre o Céu e o Inferno.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/fogo.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/fogo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc6600;"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-o descer as escadas como se tivesse plumas aos pés. O silêncio misturava-se  à escuridão da sala e apenas uma pequenina frecha de luar, pelo vitral do janelão, invadia deslicenciada o ambiente. O piano de cauda permanecia no mesmíssimo lugar de sempre.&lt;br /&gt;Ele apanhou o trinco, abriu a porta e saiu calmamente; ainda olhou para trás, como se quisesse falar com a fachada do casarão que acabava de deixar. Havia tristeza em seu olhar.&lt;br /&gt;Era o começo da Rua Belmonte. Além do casarão, só mais oito ou dez bangalôs alcançavam o fim de tudo. Em um bosque fechado findava o calçamento esburacado, cheio de mato. Um lugar esmo, longe da alegria.&lt;br /&gt;Quando Mariza morreu, restaram apenas dona Eva e Leopoldo que tinha acabado de retornar do seminário, desistido da carreira sacerdotal, embora estivesse próximo do diaconato. Mas a&lt;br /&gt;vida é mesmo cheia de altos e baixos e, como uma onda, leva e traz o que se põe a seu alcance, e nem tudo acontece conforme o esperado.&lt;br /&gt;Normalmente às noites ele não saía. Costumava tocar lindas valsas ao piano e lá para as tantas ia dormir, depois de ter tragado uma meia dúzia de cálices generosamente cheios de licor de cassis, hábito herdado do seu avô, o comendador Napoleão, alma boa mas que não se sentia bem nem de ouvir falar no velho casarão. Sua história o incomodava.&lt;br /&gt;Naquela noite chovia fino, sem vento e não se sentia o tempo frio. Mesmo assim ele saiu sob um grosso casaco de couro. Alguns minutos antes o telefone havia tocado. Ele desligou o aparelho mostrando-se irritadiço, como se não houvesse gostado da conversa que havia tido com o outro lado da linha, ou se sentisse medo de algo.&lt;br /&gt;Enfim chegou até a outra porta, destinatária dos seus passos. Bateu com a adaga na madeira do imenso portal e, como se alguém já o esperasse, uma das duas bandas se abriu quase fazendo trinta graus com seu corpo. Apesar de não tê-lo visto, sabia que estava ali. Adentrou e seus olhos se arregalaram demonstrando o espanto que lhe havia causado o rosto reconhecido à sombra das velas acesas e deixadas esquecidas por fiéis devotos de algum santo dos tantos que enfeitavam os altares da nave central da matriz.&lt;br /&gt;_O que fazes aqui a essa hora?&lt;br /&gt;_Esperando-o!&lt;br /&gt;_Mas este nunca foi o seu lugar. Por que está aqui? Quem o permitiu ficar? Quem falou ao telefone comigo não foi voce&lt;br /&gt;_Fui eu, sim, só que com a voz disfarçada.&lt;br /&gt;_Como se mentir fosse justo!&lt;br /&gt;_Para o fim a que viso, nada mais fiz do que apenas encantar o seu caminho até esta igreja.&lt;br /&gt;_Se soubesse que era você quem aqui estava, juro, não teria vindo!&lt;br /&gt;_Quantos cálices com cassis já bebeu nesta noite?&lt;br /&gt;_Não lhe interessa! Mas diga o que quer de mim?&lt;br /&gt;_Tanta coisa boa...&lt;br /&gt;_Este lugar não serve para estes tipos de ação. Respeite a nossa fé. Não basta o que já pecamos juntos?_ Minha alma estava se contorcendo de dor!&lt;br /&gt;_Não sou médico!&lt;br /&gt;_Era uma dor diferente das outras comuns; doía-me a alma flertada por um desejo safado e forte. Ajude-me a dissipá-lo. Somos de carne e osso, não?&lt;br /&gt;_Posso rezar ao seu lado e pedir a Jesus que o modifique. Você não pode continuar enganando-se. Falta pouco tempo para sua ordenação!&lt;br /&gt;_ Tenho uma fé forte, mas um desejo muito maior que a fé._ É o que o desendeusa. Vive muito próximo de um inferno que você mesmo criou. Até os outros, põe nele, como se não quisesse ser condenado sozinho.&lt;br /&gt;_Que inferno doce! Não sei o porquê de suas brasas não serem gelos dóceis e doces e tão fáceis de ter-se sem nos deixar culpas. Amar, nenhum deus podia proibir; amar com as entranhas, com a voz, com as pernas, com os olhos, com tudo! É tão bom!&lt;br /&gt;_Você necessita tratar-se. Está em lugar errado. Não&lt;br /&gt;se deve brincar com as coisas de Deus.&lt;br /&gt;_Eu O respeito muito. Minha fé é linda; há apenas dentro de mim certos desejos vigorosos que não controlo. Eu queria apenas um pedaço da noite para que eu pudesse amar sem ter que estar sendo acusado de qualquer pecado.&lt;br /&gt;_Vou-me embora! O que você quer de mim, não posso dar.&lt;br /&gt;_Se você for, ficarei apenas com os meus destroços. Não me servirá mais a vida.&lt;br /&gt;_Eu abandonei o seminário por causa de seus desejos. Deixe-me em paz.&lt;br /&gt;_Você não quer ser como o velho Napoleão. Ele era lindo. Desistiu de encontrar-se com a fantasia do casarão, quando já era velho, impotente, inútil.&lt;br /&gt;_Respeite a memória do meu avô; não está mais entre nós. Eu quero imitar a vontade que há dentro de mim. As causas mundanas não me interessam mais.&lt;br /&gt;_Quando dona Eva morrer, você viverá de quê?&lt;br /&gt;_Deus proverá!&lt;br /&gt;_Você se  engana aí do lado de fora. Este mundo de cá é mais generoso para quem o acata. Seus pecados, como os meus, jamais serão desmanchados, embora não nos leve a inferno nenhum.&lt;br /&gt;_Cá onde estou é mais saudável. O piano e o licor é tudo o que quero da vida. Vovó me entende e, ao lado dela, é como se estivesse ao lado de mamãe.&lt;br /&gt;_Se gostasse de seus pais, estaria com eles. Nem estão muito longe.&lt;br /&gt;_Vou-me!&lt;br /&gt;_Saiba que vou desistir de viver e por sua causa!&lt;br /&gt;_Desaprenda a chantagear. Deixe o seminário e&lt;br /&gt;reencontre o mundo. Ser-lhe-á mais saudável.&lt;br /&gt;_Aqui poderei ser apenas de você. Lá fora, resta-me a prostituição, um pecado ainda maior.&lt;br /&gt;Ele puxou Leopoldo pelo braço, atirou-se a seu corpo e, em menos de dez minutos, cada um aceitou o outro sem diferença de desejos.&lt;br /&gt;Mais tarde ainda ele retornou. Abriu a porta, sentou-se ao piano, tocou Bach, até acordar a velha amiga que mais de que sua avó o entendia. Desceu os degraus da escadaria vagarosa, atendendo à idade avançada. Sorria como se tudo adivinhasse  nos tragos de licor que Leopoldo dava e na satisfação que demonstrava ao tocar àquela hora.&lt;br /&gt;_Esteve com ele, não foi?&lt;br /&gt;Afirmou com a cabeça e sorriu. Diálogo franco...&lt;br /&gt;_Meus passos me condenam, vovó, e só você me entende&lt;br /&gt;_Não há condenação, meu filho, você simplesmente foi. Quis ir. Pronto!&lt;br /&gt;_Mas quem me telefonou escondeu a voz real.&lt;br /&gt;_Tenho ouvido esses falsos telefonemas que o levam até ele, ao menos duas vezes na semana. Você sempre vai sereno e retorna feliz. Sua vida aprecia esse gesto. Você tem querido fazê-lo.&lt;br /&gt;_Vovó, por quê?&lt;br /&gt;_Seu avô se envergonhava de viver ao meu lado. Eu gastava horas e horas para lhe dizer que não se autocondenasse. Depois eu tive a certeza de tudo, ele nunca mais pecou. Passou a viver entristecido como se algo forte lhe faltasse às mãos.&lt;br /&gt;E tragou outro cálice cheio e sua cabeça bailava, combinando com o ritmo de seus dedos alisando o teclado, e a velha sentou-se para ouvi-lo e ouvir sua alma, doce, indecisa, desabrigada, ainda molhada pelos beijos do desejo forte que o enrodilhava como se os passos não pudessem mudar a estrada.&lt;br /&gt;_Vai à missa hoje?&lt;br /&gt;_Não, vó, hoje é ele o celebrante.&lt;br /&gt;_Vá a outra igreja.&lt;br /&gt;_Não. Hoje eu quero apenas tocar Bach..., sem me lembrar de mim! Celebrarei esta alegria dentro de mim para amanhã renascer menos triste. Quero ficar sozinho, hoje.  Conversar com o mundo, refazer idéias.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115239620316559059?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115239620316559059/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115239620316559059&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239620316559059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239620316559059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/entre-o-cu-e-o-inferno.html' title='Entre o Céu e o Inferno.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115239339778499336</id><published>2006-07-08T14:07:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T14:16:37.803-07:00</updated><title type='text'>Foi Culpa do Vento.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/canoa%20a%20vela.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/400/canoa%20a%20vela.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Foi culpa do vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tempos nem tão distantes da memória, o velho Chico era um rio bem diferente do que se mostra aos nossos olhos hoje. Nele, nas velhas e saudosas canoas de tolda, passeavam embarcados desde músicos, noivos a defuntos enrolados em redes ou nos átrios silenciosos dos féretros.&lt;br /&gt;No silêncio da noite, quando a lua vinha doirar suas águas, dizem os mais velhos, o rio confabulava com suas margens chamando os encantos lendários, as visões de almas, os causos obscuros.&lt;br /&gt;Nossas viagens de Traipu para Penedo eram feitas nessas velhas canoas de tolda. Eu e meus pais viajávamos contentes como se o rio nos propiciasse encanto aos nossos olhos.&lt;br /&gt;Naquele sábado, cedinho, estávamos prontos para mais uma das nossas alegres viagens. Eu fui o primeiro a chegar à margem e pôr os pés na canoa. Com meu lugar garantido, pus-me a esperá-los, o que não demorou.&lt;br /&gt;_Frederico, arrume-se para não tombar n’água: o Chico é o Chico. Tem força e encanto.&lt;br /&gt;Papai ia logo à frente do canoeiro. Mamãe agarrada à madeira da canoa e ciente de que estava firme. O bico da canoa cortava a água do rio, mansamente, como se beijos de amor lhe desse. O vento ajudava, e a canoa deslizava depressa, barriga a barriga com o velho Chico, como se cioso de amor por seu casco estivesse.&lt;br /&gt;Chegamos a Penedo ainda com o sol forte. Fomos direto ao que mais nos interessava no centro da cidade. A canoa ficou lá,  solitária, talvez a namorar o rio ao balanço das ondas namoradeiras.&lt;br /&gt;Almoçamos uma apetitosa moqueca de surubim; mamãe preferiu um suculento pirão de pitu; melamos as mãos, ela e eu, no quebrar das patas, na delícia da refeição.&lt;br /&gt;Era hora de retornarmos. Subimos na canoa, acomodamos os pacotes e fomos levados até Porto Real do Colégio. Estivemos a visitar um irmão de papai, o tio Monsenhor Álvaro. Era costume de papai visitá-lo quando próximos àquela cidade passávamos.&lt;br /&gt;E sem que pudéssemos fazer nada, o vento parou de soprar e a viagem daí até Traipu teve que ser interrompida. Tivemos que pernoitar em casa do tio. Na janta, uma sopa deliciosa e eu me atirei com gulodice a ela, comi até encher. Esqueci-me do meu problema crônico.&lt;br /&gt;_Mãe, e aquilo? De noite?&lt;br /&gt;_Reze para seu anjo da guarda que não vai acontecer aqui.&lt;br /&gt;_Mãe...&lt;br /&gt;Fomos dormir; eu mais cedo que meus velhos. Lá para&lt;br /&gt; as tantas da madrugada achei de acordar. Entristecido, senti que algo havia me acontecido e fiquei apavorado. A enurese noturna havia me traído mais uma vez. Eu havia me ensopado e ensopado a rede de urina. Restava-me uma solidão envergonhada.&lt;br /&gt;Levantei-me apressado, com o mundo ainda escuro, dobrei a rede, escondi-a sob uma marquesa colonial na sala e corri porta afora até encontrar a canoa a balançar ancorada nas águas rasas das margens do rio. Ali entrei e não saí mais até que o dia amanhecesse e pudéssemos viajar de volta até Traipu.&lt;br /&gt;_Meu filho, que coisa feia você fez!&lt;br /&gt;_Mãe..., eu tava todo...&lt;br /&gt;_Mas estava em casa de seu tio e não haveria qualquer problema mais sério.&lt;br /&gt;_É que minha calça estava molhada e eu envergonhado...&lt;br /&gt;Só me alegrei quando o vento chegou forte e a canoa pôde levar-nos de volta. A viagem estava novamente viva. Comecei então a sentir falta de não ter feito o desjejum.Sentia muita fome.&lt;br /&gt;_Tá com fome?&lt;br /&gt;_Tô, pai!&lt;br /&gt;_Beba a água do rio.&lt;br /&gt;E entre gargalhadas chegamos à terra firme e descemos todos, cheios de pacotes e eu, de histórias para esquecer de contar a quem quer que fosse. Comi feito um condenado e não quis mais lembrar-me da viagem. Quando havia qualquer delas para fazer, eu procurava indagar ao canoeiro sobre o vento, se estava mais para bom do que para ruim. Mamãe me prevenia, papai me alertava,mas quemme resolvia tudo mesmo era o vento que,quando forte,sempre me trazia sorridente de volta para casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115239339778499336?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115239339778499336/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115239339778499336&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239339778499336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239339778499336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/foi-culpa-do-vento_08.html' title='Foi Culpa do Vento.'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115239001734201091</id><published>2006-07-08T13:12:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T13:20:17.346-07:00</updated><title type='text'>Engano Teu!</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/traicao.2.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/traicao.2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#000099;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rua estava escura e nem o assobio do guarda noturno eu ouvia; o solado duro do meu sapato, ao bater do passos no cimento da calçada, era quase o único barulho! Afora isso, só meu pensamento falava alto; um solilóquio apavorador consumia meu ego. Minha casa ainda estava longe; um quarteirão à direita e três à esquerda. Aqui e acolá é que havia uma lâmpada acesa nos postes. À sombra serenada das marquises, um punhado de pedintes se abrigava acolhendo os sonhos distantes da realidade, que seus sonos permitiam.&lt;br /&gt;Alguma alma já se preparava para iniciar o laborão diário. A cidade, para muitos, acordava ainda quando a madrugada era alta, longe dos raios do sol, nas horas em que o crime passeia e o perigo fica bem próximo de nós.&lt;br /&gt;Em casa ela deveria estar preocupada comigo. Levava uma desculpa bem elaborada para distraí-la do adultério. Eu bem que sabia que não daria certo amar as duas: a de colo fofo e a de&lt;br /&gt; boca doce; meu egoísmo levava-me às raias da opressão. Uma não sabia da outra e eu maltratava as duas. As regras eram minhas.&lt;br /&gt;Imaginava chegando em casa: batia na porta, o sono dela já deveria estar acordado, eu entrava com ar de cansado e culparia o excesso de serões na empresa. Mas apenas um beijo indelével a deixaria mansa e compreensiva; depois, a cama, nossas desenvolturas, tudo isso a levaria a crer que nosso amor era o mais puro do mundo. Coitada!&lt;br /&gt;O que mais me incomodava era a aceitação das minhas explicações falseadas. Todas as noites fazíamos amor; nunca a vi com menos ou mais prazer – era estranho – , sentia-me um imprestável. Dizia para mim mesmo que tinha que salvar meu casamento antes que ela, em descobrindo tudo, o fizesse, sem chance de reconciliação.&lt;br /&gt;Talvez por ela ter vindo de uma cidade de interior, moça religiosa, bons hábitos, obediente, legítima dona de casa, agisse assim. Eu era o diabo do outro lado da história e não me era confortável viver amancebado justamente com minha inspetora.&lt;br /&gt;As madrugadas que tinha que varar, cruzadas nas ruas esquisitas, becos perigosos, eram bem menor do que o de ter-me descoberto frente à legítima – a mulher verdadeiramente amada.&lt;br /&gt;_Cansado!&lt;br /&gt;_Dou-te uma massagem já!&lt;br /&gt;E punha ela minha comida na mesa; eu beliscava, já com a pança cheia do que a outra me obrigara, quase, a comer e deixava quase tudo.&lt;br /&gt;_Está farto?&lt;br /&gt;_Comi na empresa – deram-me um lanche reforçado.&lt;br /&gt;_Está bem!&lt;br /&gt;Era o seu convencimento que me intrigava e tudo parecia ser muito comum, muito fácil. Nada, absolutamente nada, apresentava difícil resolução.&lt;br /&gt;Em maio, dia onze, se não me engano, briguei com Lívia e resolvi voltar para casa mais cedo. Minha consciência me mandava romper com esta e amar bem mais a outra, legitimamente merecedora.&lt;br /&gt;Nunca havia sido assaltado em São Paulo, mas nessa noite dois rapazotes me levaram o relógio – vagabundo eu sei – e a aliança. Levei um tapão nas costas e uma ordem para caminhar depressa e nem sequer olhar para trás. Foi bom porque cheguei ainda mais cedo em casa.&lt;br /&gt;Eram quase nove horas. A televisão estava acesa e com o volume bem alto. Bati à porta umas dez vezes e ela não veio abrir. O que não fazia, nessa noite fez:&lt;br /&gt;_Quem é?&lt;br /&gt;_Eu, amor!&lt;br /&gt;_Você?&lt;br /&gt;E vi o barulho dos seus passos apressados, cheios de medo, correndo na direção dos fundos da casa. Nada imaginei de maldoso. Pensei que se assustara ao ver-me chegar tão cedo em casa, logo numa sexta-feira quando costumava chegar quase com o raiar do sol.&lt;br /&gt;Quando abriu a porta, estava diferente da que eu estava acostumado a ver. Trazia os cabelos assanhados, bem molhados, descalça e com o vinco da saia de banda, demonstrando que houvera pressa ao vesti-la.&lt;br /&gt;_Que houve?&lt;br /&gt;_Você quase que me via a fazer o que jamais entenderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_O quê?&lt;br /&gt;_Estava em transe.&lt;br /&gt;_Recebendo espírito?&lt;br /&gt;_Não, um corpo, perfeito, humano, enganador como o seu.&lt;br /&gt;_Queria estar lhe entendendo, mas, juro, nada do que me disse, eu entendi.&lt;br /&gt;_É simples. Vá ao nosso quarto, tome seu banho e tudo saberá. Dir-lhe-ei tudo o que nem desconfia.&lt;br /&gt;Quando ela fechou a porta, ainda ouvi dizer até. Para quem, não soube.&lt;br /&gt;Disse-me – pasmem! – fazia comigo exatamente o que eu fazia com a outra. Traía-me com certo alguém que se deu ao luxo de ocultar de mim o nome.&lt;br /&gt;_Sempre soube de você com ela. Deixei você enganar-se e resolvi pagar com igual moeda. Não me arrependo de nada do que fiz. Foi bom! Não se intimide com o que soube; respeitei-o tanto que o que fiz, foi fora de nossa cama e jamais saberá com quem. Ele lhe conhece, gosta de você, mas muito mais de mim. Quer continuar casado comigo?&lt;br /&gt;Faz doze anos que vivo com Alice. Meu casamento recebeu uma injeção de ânimo enorme. Ela permaneceu ficando com o estranho antes que eu chegue, é claro. Passei a retornar com passos mais lentos para não ter que saber quem é o urso. Cidade grande permite certas estripulias. Não sei quem são meus vizinhos. Talvez, quem sabe, seja o dito cujo um deles?&lt;br /&gt;Preferi permanecer com ela. Tenho-a como doméstica. Lava minha roupa, passa, cozinha o melhor feijão do mundo, só não sabe o quanto eu ganho, onde aplico o meu dinheiro, os planos para o futuro. Da outra tenho conseguido presentes generosos. Não sabem elas o quanto eu sou-lhes grato pelas quatro mãos que me servem diariamente.&lt;br /&gt;“Deixa a vida me levar”, saber tudo, pra quê? Está tão bom assim&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115239001734201091?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115239001734201091/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115239001734201091&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239001734201091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115239001734201091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/engano-teu_08.html' title='Engano Teu!'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-30798017.post-115237916055227397</id><published>2006-07-08T10:01:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T10:23:50.886-07:00</updated><title type='text'>Os Sapos do Rei</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/1600/sapo%20do%20bloger.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/7949/3309/200/sapo%20do%20bloger.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;_Conte-me algum velho conto, daqueles de antigamente, quando vivia fortalecida dentro de mim uma infância mágica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;_Lembra-te de algum, filha?&lt;br /&gt;_Qualquer um dos que começavam com a magia do “era uma vez...” e a voz suave da senhora me entorpecia, e não havia pressa de viver e amar e eu ainda não pensava o quanto me seria difícil ser adulta um dia. Já não falo do mal que me assola rudemente!&lt;br /&gt;"_Era uma vez, pois, um lindo sapo encantado e um horrível príncipe desdentado e rude. O sapo, faminto por não encontrar mais insetos para comer, havia emagrecido bastante; sua prole já lhe era pequenina; sua espécie ameaçada de extinção vivia sob uma grande pedra de um rio. O príncipe, não! Fartava-se com seus grandiosos galpões de aço abarrotados de alimentos; eram vigiados dia e noite por altos e fortes homens brancos, com a ordem e o poder para exterminar quem ousasse roubar dos tais galpões sequer um grão de cevada.&lt;br /&gt;O rei , pai do príncipe maldoso, era velhinho, mas não havia perdido o hábito de ser generoso para com quem o visitasse e, para manter-se assim, embora escondido do rei, seu pai, não deixava de ter punhados de grãos em suas vestes, para doar aos necessitados. Fazia isso sempre.&lt;br /&gt;Certa manhã ensolarada de verão, o príncipe fora avisado por seus assessores reais que o calor excessivo dos últimos dias estava deteriorando os grãos guardados. Uma praga de insetos desconhecida até aquela época estava invadindo os galpões, e os inseticidas que haviam sido usado não estavam surtindo efeito. Foram ao Rei cavucar sua grande, experiência à procura da cura do mal.&lt;br /&gt;_Senhor rei, meu pai, desejo contar-lhe um grave fato.&lt;br /&gt;_De tudo já sei, senhor príncipe, meu filho. Foi por isso que não quis que você dirigisse o reino sem as minhas velhas lições de vida, apenas no molde de suas falas modernas.&lt;br /&gt;_Mas senhor rei, meu pai, suas idéias estão ultrapassadas; o reino cresceu muito, há bocas demais para serem alimentadas, cobramos impostos caros e temos que produzir muitos alimentos. Suas velhas soluções não me parecem ser as de hoje carecidas.&lt;br /&gt;_A solução está com nosso amigo, o sapo.&lt;br /&gt;_O sapo? E quem já se viu sapo falar?&lt;br /&gt;_Fala sem necessitar das palavras. Há milênios eles vêm a nos proteger de pragas: comem os insetos, limpam os campos reais. Hoje, quase dizimados pelos pesticidas que o reino tem usado, podem fazer muito pouco. Só os sapos podem oferecer a solução do problema deste velho reino governado por moderníssimo príncipe, cheio de idéias novas.&lt;br /&gt;_Meu pai, eu governo com computadores modernos, assessores com doutorados em suas áreas de atuação, assessoria bem preparada.&lt;br /&gt;_A universidade onde os sapos estudam é maior de que tudo isso!&lt;br /&gt;_O senhor – rei, meu pai, está esclerosado. Fala sobre cousas indizíveis.&lt;br /&gt;_É bem possível, príncipe e filho meu, mas passo um momento de muita lucidez. O que lhe digo agora é verdade desde muitos sóis e muitas luas. O que é velho já foi criança; o que é moderno já percorreu caminhos simples; num desses, o senhor príncipe, meu filho, atalhando meus velhos conselhos de rei vivido, preferiu adentrar por amplas avenidas onde se matavam os sapos em prol dos venenos nem tão inocentes.&lt;br /&gt;Passados dias, o príncipe retornou ao rei, seu pai.&lt;br /&gt;_Não há mais sapos nos campos do reino.&lt;br /&gt;_Há sim!&lt;br /&gt;_Onde, senhor rei, meu pai?&lt;br /&gt;_Vá até a ponte do riacho da espada. Em seu leito seco há uma pedra azul muito grande. Mande dez homens levantá-la e acharão a última família de sapos do reino.&lt;br /&gt;Assim foi feito. Dez homens não conseguiram retirar a pedra do lugar; vinte deles foram necessários . Sob ela havia meia dúzia de magros sapos, amarelados, famintos, tristes. Aguardavam apenas a hora de morrer. Levaram todos eles dentro d’uma caixa de papelão, até a presença do rei. Leva curiosa os fez mais incrédulos doque qualquer outra coisa.&lt;br /&gt;_Olá, meus amiguinhos queridos, quanto tempo não os vejo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;_Senhor – rei, meu pai, o senhor não pode dirigir-se a sapos como se fossem gente.&lt;br /&gt;_Posso, meu filho príncipe. Devolva-me a coroa que minhas pernas fracas e velhas ainda poderão salvar seu reino moderno e pragueado, eu e apenas esses sapos maltratados.&lt;br /&gt;_Mas o senhor está muito idoso, adoentado...&lt;br /&gt;_Só preciso dessa velha família de sapos para salvar o príncipe, o reino e sua gente.&lt;br /&gt;O rei assumiu o reino, trocou os novíssimos assessores do filho por velhos empregados amigos do reino que já não trabalhavam há anos. Escolheu um primeiro galpão de grãos para testar os sapos e foi um sucesso. Dia e noite ouvia-se o estalado dos insetos fugindo das línguas fortes e compridas dos sapos, e por esse método o reino foi salvo. Dizimou-se a praga cruel.&lt;br /&gt;O príncipe envergonhou-se de ter carecido da ajuda de seu velho pai e das lições de vida tão antigas que não estavam nos computadores de sua moderna onipotência pretensa e acreditada.&lt;br /&gt;Em um brumoso e frio dia de inverno, o senhor rei faleceu. Os galpões haviam sido descontaminados pelos sapos, o reino estava próspero e o príncipe agradecido e envergonhado. Coaxavam inúmeros deles nos arredores úmidos do castelo. Eram fortes e ágeis, pulavam dezenas de metros em busca de insetos. Orgulhosos, cantavam à natureza recomposta&lt;br /&gt;O príncipe, convencido então da grandeza do poder dos sapos, mudou o nome do reino para Sapolândia e, envergonhado, partiu para terras distantes, onde, sem que ninguém o conhecesse, passou a viver como protetor dos animais. Sua casa era repleta de batráquios, que passou a amar firmemente, único remédio que achou para despraguear os campos produtores&lt;br /&gt;de proteína do mundo moderno que habitou até morrer, cinqüenta anos mais tarde.”&lt;br /&gt;_ Ah! paizinho, como eu queria poder voltar a ser uma criança feliz. Não dá! Espero apenas minha hora chegar e partir triste. Quem me dera apenas passar a viver como esses lindos sapos de seu conto...&lt;br /&gt;_Filha, vou usar uma velha arma que aprendi com meus velhos pais e eles, com os seus: a oração. Passarei a ser agora aquele velho rei abandonado. Lembrei-me das orações. Ser-me-ão as armas de venturosa cura. Não precisarei nem do príncipe.&lt;br /&gt;E, como em Sapolândia, a filha do homem foi submetida a uma arriscada cirurgia. Recebeu um rim de seu velho pai e sobreviveu ao tumor, que infernizava sua vida.&lt;br /&gt;Hoje ela é, como ele, naturalista: dirige uma sociedade de proteção aos animais e ama os sapos e a terra onde vive. Publicou três livros de contos – edições esgotadas – e vive a ocupar a metade de seu tempo com palestras de esperança para desenganados de cura pela ciência.&lt;br /&gt;Como se pode ver, dentro de cada alma generosa há sempre um imenso reino de amor, cheio de poder e de glória; basta-nos tratarmos bem os reis, os príncipes e, principalmente, os sapos!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/30798017-115237916055227397?l=literaturaconto.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturaconto.blogspot.com/feeds/115237916055227397/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30798017&amp;postID=115237916055227397&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115237916055227397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/30798017/posts/default/115237916055227397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturaconto.blogspot.com/2006/07/os-sapos-do-rei.html' title='Os Sapos do Rei'/><author><name>Paulino Vergetti Neto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11202014666110264652</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/3989/3062/320/Paulino%20_1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
